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“Estavam
os aliados em guerra com a Rússia? Não, por certo; mas eles matavam
os russos soviéticos. Acampavam como invasores no solo russo.
Armavam os inimigos dos sovietes. Bloqueavam os portos e afundavam
os seus barcos de guerra. Eles desejavam sinceramente e projetavam a
sua queda. Mas, guerra? Isso não! Interferência? Seria vergonhoso!
Para eles era indiferente, repetiam, o modo por que os russos
conduzissem os seus próprios negócios. Eram imparciais – e acabou-se!”
(Winston Churchill, A Crise Mundial: as consequências, 1922)
Tão logo os bolcheviques conquistaram o poder, a
Rússia Soviética passou a sofrer o ataque dos dois bandos
imperialistas em pugna, que se aliaram a distintos grupos
contrarrevolucionários, com o objetivo de “matar no nascedouro” a
primeira revolução proletária vitoriosa.
Diante da negativa da Entente a discutir a proposta
de um acordo de paz entre todos os beligerantes, a Rússia iniciou
tratativas de paz com a Alemanha, estabelecendo um armistício em 5
de dezembro. Frente às exigências escorchantes da Alemanha para
assinar a paz e devido à falta de unidade entre os bolcheviques para
firmá-la nessas condições, os negociadores russos prolongaram o
máximo possível as tratativas, na expectativa da eclosão da
revolução na Alemanha, o que não aconteceu.
Em 9 de fevereiro, de forma ardilosa, a Alemanha
assinou a paz com a Rada ucraniana (parlamento) – que havia
sido destituída –, prometendo-lhe a independência da Ucrânia em
troca da entrega de grandes quantidades de trigo. Em protesto, os
plenipotenciários russos suspenderam as negociações. De imediato, a
Alemanha iniciou a sua ofensiva contra a Rússia, avançando
praticamente sem resistência devido à desmobilização dos exércitos
russos.
Sem alternativas, o Poder Soviético viu-se obrigado
a assinar, em 3 de março, a paz de Brest-Litovsk, em condições ainda
mais duras que as iniciais. Teve de aceitar uma Polônia (que fazia
parte do antigo Império Russo) com fronteiras que iam muito além dos
seus limites étnicos, abrir mão da Livônia, Curlândia Lituânia,
Letônia, Estônia e parte da Bielorrússia; ceder à Turquia uma
importante região no Cáucaso, que incluía Batoum, Kars e Ardahan.
Além disso, obrigou-se reconhecer uma Ucrânia independente,
desmobilizar o exército e a armada, e pagar à Alemanha seis bilhões
de marcos-ouro. O tratado de Brest-Litovsk significou para a Rússia
a perda de milhões de quilômetros quadrados e de mais de quarenta
milhões de habitantes.
Desrespeitando o tratado de Brest-Litovsk, poucos
dias depois a Alemanha invadiu a Ucrânia e o sul da Rússia, e ocupou
Kiev, Nicolaev, Kharkov, Odessa e a Crimeia. Após destituir o
governo de Kiev, colocou como governante o seu títere o atamã
Skoropadski.
Apesar de continuar em guerra com os Impérios
Centrais, a Entente iniciou uma intervenção militar na Rússia, com o
objetivo de apoiar a restauração de czarismo e afogar em sangue o
poder soviético. Nessa intervenção participaram tropas da
Grã-Bretanha (Inglaterra, Canadá, Austrália, Índia), França, EUA,
Japão, Tchecoslováquia, Polônia, Finlândia, Romênia, Itália, Grécia,
Sérvia, entre outros países.
Os Impérios Centrais – Alemanha, Austro-Hungria e
Turquia – também intervieram na Rússia Soviética, enviando tropas e
apoiando os exércitos contrarrevolucionários, até o momento de sua
capitulação.
Assim, já em março de 1918, a Grã-Bretanha, França e
EUA desembarcaram tropas em Murmansk, no norte da Rússia, junto ao
Mar Branco. Após liquidarem o governo soviético existente,
instalaram um governo fantoche.
E abril, 12.500 soldados, comandados pelo general
alemão Von Der Goltsz, invadiram a Finlândia – cuja independência
havia sido reconhecida pela Rússia, em dezembro de 1917 – e
esmagaram os sovietes, impondo um governo contrarrevolucionário
Ainda em abril, cerca de 50 mil japoneses ocuparam
Vladivostok, no Pacífico. Ato contínuo, desembarcaram tropas
inglesas e, em fins de junho, tropas estadunidenses. Dessa forma, o
principal porto russo no Pacífico foi tomado, dando início à
ocupação estrangeira da Sibéria.
Em maio, o Corpo Tchecoslovaco, com 40 mil homens –
formado em território russo durante o período czarista e que se
dirigia a Vladivostok para ser embarcado para a Frente Ocidental –,
foi sublevado pelos ingleses, contra o Poder Soviético, e passou a
ocupar vastas áreas da Sibéria e dos Urais, onde passou a atuar em
aliança com contrarrevolucionários russos.
Em julho, os tchecoslovacos atacaram Ekaterinburgo –
onde estava detida a família imperial –, com o objetivo de
libertá-la para unir em torno dela todas as forças
contrarrevolucionárias da Rússia. Após tenaz resistência,
Ekaterinburgo foi tomada em 25 de julho, mas nove dias antes a
família imperial foi executada (por ordem do Soviete da região dos
Urais), para frustrar os planos da contrarrevolução.
Entre junho e julho de 1918, violando abertamente o
tratado de Brest-Litovski, o exército alemão ocupou a Estônia,
Letônia e Lituânia, ao norte, e a Bielorrússia e a Ucrânia, ao sul.
Em seguida, invadiu a Crimeia, forçando o Poder Soviético a afundar
a Frota do Mar Negro, para impedir que caísse em suas mãos. O
exército alemão atacou, então, o Don e entregou grande quantidade de
armas – canhões, metralhadoras, obuses, fuzis, 12 milhões de
cartuchos e aeroplanos – às tropas contrarrevolucionárias do Don,
comandadas pelo General Krasnov.
No início de agosto, navios de guerra ingleses e
franceses, com apoio terrestre, desembarcam tropas em Arkangelsk,
junto ao Mar Branco, no norte da Rússia. Essas tropas incluíam 4 ou
5 batalhões ingleses, 1 batalhão francês, 4 ou 5 batalhões
estadunidenses, além de tropas italianas e polonesas. O governo
soviético foi derrubado e no seu lugar foi instalado um governo
títere.
Em 4 de agosto, tropas anglo-canadenses ocuparam
Bacu – importante centro petrolífero da Rússia Soviética –, onde
permaneceram até 15 de setembro, quando foram desalojadas pelos
turcos. Estes, ali ficaram até o fim de outubro, quando a Turquia
capitulou à Entente.
Na Transcaucásia, tropas alemãs e turcas ocuparam a
Geórgia e a Armênia.
Nesse momento de grandes dificuldades, os
“socialistas revolucionários” realizaram um atentado contra Lenin,
que foi ferido por duas balas envenenadas. Lenin sobreviveu, mas a
partir daí a sua saúde ficou abalada, levando à sua morte precoce em
1924.
Em outubro de 1918, os contrarrevolucionários da
região do Báltico, liderados pelo general Nicolai Yudenich,
acertaram com a Alemanha a criação do “Exército Russo de Voluntários
do Norte”. Pelos entendimentos, “os fundos necessários à
manutenção do exército serão fornecidos pelo governo alemão a título
de empréstimo ao governo russo. O governo alemão fornecerá o
armamento, as munições, os equipamentos de defesa, o abastecimento e
os recursos técnicos”.
No Sul, o general Anton Denikin comandava o chamado
“Exército Voluntário”, armado e abastecido pela França e pela
Entente.
A oeste, estavam posicionados de forma ameaçadora os
exércitos poloneses, reorganizados e armados pela França.
Ao Leste, em outubro de 1918, o almirante czarista
Alexandre Kolchak desembarcou em Omsk, na Sibéria e, após derrubar o
governo local, proclamou-se “Regente Supremo da Rússia”, para “varrer
o bolchevismo da Rússia, exterminá-lo e destruí-lo”. Para
conquistar o apoio das potências estrangeiras, reconheceu a dívida
externa russa de 12 bilhões de rublos-ouro e se comprometeu a
pagá-la. Com o total apoio da Entente e ajuda de especialistas
militares ingleses, formou um poderoso exército que, junto com
outras tropas contrarrevolucionárias, ocupou a Sibéria e os Urais.
Em fins de 1918 o Poder Soviético controlava apenas
a quarta parte do antigo Império Russo e havia perdido importantes
áreas industriais, regiões produtoras de alimentos e fontes de
matérias-primas essenciais. Moscou e Petrogrado sofriam a fome e o
permanente assédio de forças contrarrevolucionárias, apoiadas por
tropas da Entente e dos Impérios Centrais.
Segundo Denikim, “o bloqueio estratégico à Rússia
soviética estava feito [...]. Cerca de meio milhão de inimigos [...]
cercava a Rússia soviética por todos os lados, os cinco mares e os
dois oceanos eram controlados pelas frotas da Entente e as tropas de
desembarque aliadas estavam instaladas nos portos do Mar Branco e do
Mar Negro.”
É nesse contexto que em 9 de novembro de 1918 os
marinheiros alemães de Kiel se amotinaram, mataram os seus oficiais
e hastearam bandeiras vermelhas. Logo, surgiram conselhos de
soldados e operários e multiplicaram-se os sovietes em Berlim,
Hamburgo e na Baviera. Em 9 de novembro, foi proclamada a República
em Berlim e Guilherme II fugiu para a Holanda. Assumiu o poder um
governo social-democrata que, em 11 de novembro, solicitou à Entente
um armistício e depôs as armas.
Dois dias depois, a Rússia denunciou o Tratado de
Brest-Litovski e iniciou uma ofensiva para libertar os territórios
ocupados. Atacadas pelo Exército Vermelhos, as tropas alemãs e
contrarrevolucionárias foram expulsas da Ucrânia, Bielorrússia,
Estônia, Lituânia e Letônia, onde voltaram a formar-se governos
soviéticos.
Mas, o fim da guerra – apesar de eliminar a pressão
alemã e permitir a libertação de importantes regiões – não
significou o fim da luta, pois a Entente ficou de mãos livres para
reforçar a sua intervenção na Rússia. No seu diário, o general
Wilson do Estado-Maior britânico anotou, na antevéspera da
assinatura do armistício com a Alemanha: “Para nós, o perigo real
não são os alemães, mas o bolchevismo”.
Em meados de novembro, forças navais
anglo-francesas entraram no Mar Negro e desembarcaram tropas
francesas e gregas em Odessa, ocupando Sebastopol, Baku (abandonada
pelos turcos após o armistício), Tbilisi e Batumi. Em pouco tempo, a
Entente totalizava 130 mil soldados no sul da Rússia e impôs um
“protetorado” à Ucrânia.
Novas tropas da Entente também foram enviadas
para o norte da Rússia. No começo de 1919, as forças britânicas em
Arkangelsk e Murmansk já totalizavam 18.400 homens, às quais se
somavam 5.100 estadunidenses, 1.800 franceses, 1.200 italianos,
1.000 sérvios e em torno de 20 mil contrarrevolucionários russos.
Da mesma forma, a Entente reforçou as suas
tropas em Vladivostok e em toda a Sibéria. No outono de 1918, já
havia mais de 7 mil soldados ingleses no norte da Sibéria e outros 7
mil oficiais ingleses e franceses ajudando Kolchak a treinar e
equipar o seu exército de mais de 100 mil homens. Somavam-se a eles
8 mil estadunidenses, 1500 italianos e 70 mil japoneses.
Em 24 de dezembro de 1918, o exército de Kolchak
tomou Perm, aproximando-se perigosamente de Moscou.
Em 18 de janeiro de 1919, foi aberta a
Conferência de Paz de Versalhes, que teve entre os seus assuntos
prioritários – ainda que tratado de forma reservada – a intervenção
estrangeira na Rússia e a eliminação do Poder Soviético.
Herbert Hoover, futuro presidente dos EUA
declarou – “O Bolchevismo é pior do que a guerra!” O general
Hoffmann – ex-comandante do exército alemão na fronteira oriental –
propôs à Entente o uso das tropas alemãs para atacar a Rússia, para
liquidar o bolchevismo na sua origem. O Marechal Foch,
comandante-em-chefe da Entente, propôs em uma reunião fechada da
Conferência: “As tropas polonesas poderiam enfrentar os russos,
uma vez que fossem fortalecidas como suprimento de material e
maquinaria moderna de guerra. Seria preciso um grande número de
homens, que se poderiam obter com a mobilização dos finlandeses,
poloneses, tchecos, romenos e gregos, assim como elementos russos
pró-aliados [...]. Se se fizer isso, 1919 ainda verá o fim do
bolchevismo!”
Coincidência ou não, em fevereiro de 1919, os
exércitos polacos – sob a direção de oficiais franceses – invadiram
a Bielorrússia e tomaram Brest. Em seguida, atacaram a Ucrânia e
ocuparam Kiev. Em 4 de março, os exércitos de Kolchak, no Leste,
iniciaram uma ofensiva contra Moscou e em meados de março tomaram
Ufá, no sul dos Urais. Simultaneamente, as tropas de Yudenich
atacaram na região do Báltico, chegando até Jamburgo, há apenas 40
km de Petrogrado.
Tratava-se de um plano articulado da
contrarrevolução e da Entente, que criava um risco mortal para a
Rússia Soviética. Tensionando todas as suas forças e lutando em três
frentes, o Exército Vermelho derrotou a ofensiva de Kolchak e o
expulsou de Ufa e Perm. Da mesma forma, venceu Yudenich no Norte,
forçando-o a recuar. Por fim, o Exército Vermelho contra-atacou os
poloneses na Bielorrússia e na Ucrânia, levando-os de roldão até as
portas de Varsóvia, mas, ao estender demasiadamente as suas linhas,
sem a devida preparação, ficou vulnerável a um novo ataque da
Polonia, sob o comando direto do general francês Weygand, sendo
forçado a recuar.
Em outubro de 1920 foi estabelecido um armistício
entre a Rússia e a Polônia e em março de 1921 o Estado Soviético
teve de assinar a paz de Riga, através da qual a Polônia avançou 250
km a leste de sua fronteira étnica e deslocou a sua fronteira com o
Estado soviético 150 km para o Leste, apossando-se da Galícia, da
Ucrânia Ocidental, da Bielo-Rússia ocidental e de Vilna, no total,
uma população de 11 milhões de habitantes, dos quais quase dez
milhões de bielo-russos, russos ou ucranianos. Essas perdas
territoriais só foram revertidas durante a 2ª Guerra Mundial.
Enquanto isso, no Sul, teve início, em fins de
junho, a ofensiva do “Exército Voluntário” de Denikin, que tomou
Tsaritsyn (futura Stalingrado) utilizando tanques da Entente, e
chegou em outubro a Tula, há apenas 200 km de Moscou. Mas daí não
passou e foi forçado a recuar sob o ataque do Exército Vermelho.
Em meados de outubro, Yudenich lançou a sua segunda
ofensiva contra Petrogrado, conseguindo chegar até Tsarkoie Selo, há
apenas 20 km de Petrogrado, mas foi novamente rechaçado.
Após o armistício com a Polônia, o Exército Vermelho
deu seguimento à sua ofensiva contra as tropas de Kolchat, Denikin e
Yudenich, recuperando os territórios que elas haviam tomado e
desmantelando-as. Em fevereiro de 1920, Kolchat foi preso e fuzilado
na Sibéria e Yudenich fugiu para a Estônia e de lá para a França Em
março, Denikin passou o comando do “Exército Voluntário” para Barão
Wrangel e fugiu para a França. Em novembro de 1920, os 150 mil
homens do “Exército Voluntário” de Wrangel foram varridos da
Crimeia, onde haviam se refugiado, e os seus sobreviventes – entre
eles Wrangel – foram evacuados pela marinha francesa para a Turquia.
A derrota dos exércitos contrarrevolucionários, os
motins que se multiplicavam entre as tropas intervencionistas e a
crescente rejeição nos países da Entente à intervenção na Rússia
revolucionária, forçaram a evacuação das tropas restantes da Entente
e em 1921 pode-se considerar finalizada a guerra civil na Rússia
soviética e derrotada a criminosa intervenção imperialista, que
causou mais de 5 milhões de mortes, seja em combate, seja pela fome,
seja pelo assassinato da população civil.
A intervenção
militar das principais potências imperialistas na Rússia mostrou que
elas não aceitavam, em hipótese alguma, a continuidade da
experiência soviética e que tudo fariam para derrotá-la, inclusive
pisoteando as liberdades democráticas e colocando em segundo plano
as contradições interimperialistas.
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