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   Porto Alegre, sexta-feira, 30 de outubro de 2020

   
Biografia
Raul Kroeff Machado Carrion
 

Os que botamos nossa alma na pedra
e no ferro, na dura disciplina,
ali vivemos só por amor
(...)
Somos a prata pura desta terra
o verdadeiro mineral do homem,
encarnamos o mar que continua:
a fortificação da esperança:
um minuto de sombra não nos cega:
com nenhuma agonia morreremos.

OS COMUNISTAS – Pablo Neruda

 

Raul Carrion nasceu em 22 de dezembro de 1945, em Porto Alegre, numa família de forte atuação política e social.

Sua mãe Erna
Maria Kroeff Carrion era professora.
Seu pai Francisco
Machado Carrion era advogado e professor das Faculdades de Economia e de Filosofia da Universidade Federal do RS (UFRGS).
 
O avô Jacob Kroeff Neto (em pé)
e o bisavô Jacob Kroeff Filho.
 
Raul com a mãe, irmãs e irmãos.
Por duas vezes, seu pai foi Diretor da Faculdade de Economia, além de Diretor interino da Faculdade de Filosofia. Por ser decano do Conselho Universitáro, várias vezes assumiu a Reitoria da UFRGS. Também foi Professor na PUC/RS e na UNISINOS. Católico fervoroso, mas de forte compromisso social, liderou a Ação Católica no Rio Grande do Sul junto com Ernani Maria Fiori e outros intelectuais gaúchos. Tanto ele como o seu irmão Cândido Machado Carrion foram suplentes de Deputado Estadual pelo PSD (Partido Social Democrático) na Constituinte de 1947. Ambos assumiram por diversas vezes o mandato.
Francisco Machado Carrion também foi Presidente do Conselho Estadual de Educação/RS, Secretário de Educação do Porto Alegre e Presidente do Conselho Diretor e do Conselho de Administração da Fundação Educacional Padre Landel de Moura (FEPLAM). Liberal convicto se afastou da política partidária em 1966, quando a ditadura militar extinguiu os partidos existentes, criando no seu lugar a ARENA e o PMDB. Dedicou-se, desde então, unicamente às atividades educacionais e culturais.
Seu bisavô materno Jacob Kroeff Filho foi Deputado Estadual pelo Partido Republicano – nas legislaturas de 1892/1896 e 1897/1900 – e seu avô materno Jacob Kroeff Neto foi Deputado Estadual, também pelo Partido Republicano, nas legislaturas de 1917/1920, 1921/1924 e 1925/1928. Jacob Kroeff Neto liderou a emancipação do município de Novo Hamburgo e foi o seu primeiro Prefeito.
 
Acompanhando o irmão
Francisco, candidato à
prefeito de P. Alegre em 1985.
Seu irmão Francisco Machado Carrion Júnior – falecido com a esposa e filha em um acidente aviatório em 2001 – era Doutor em Economia pela Universidade de Paris e Professor da Faculdade de Economia da UFRGS. Era simpático ao socialismo e amigo do PCdoB. Prestava assessoria econômica a diversos sindicatos de trabalhadores, entre os quais o CPERS e o Sindicato Médico/RS. Foi Deputado Estadual pelo PMDB na legislatura 1983/1986. Em 1985, foi candidato a Prefeito de Porto Alegre pelo PMDB. Em 1986, elegeu-se Deputado Estadual Constituinte, pelo PMDB. Na legislatura 1991/1994, foi Deputado Federal pelo PDT, ocasião em que assumiu a Secretaria de Administração e Planejamento do Estado do Rio Grande do Sul.
Seu irmão Eduardo K. M. Carrion é advogado, Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Paris, Cientista Político e Professor de Direito Constitucional, tendo sido Diretor da Faculdade de Direito da UFRGS. Atualmente, leciona na Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul (FMP). Sua irmã Otília Beatriz Kroeff Carrion é Doutora em Economia pela USP e Professora universitária, tendo sido Diretora da Faculdade de Economia da UFRGS. Sua irmã Vera Maria K. Carrion é Engenheira Química, servidora aposentada do Badesul e Diretora do Sindicato dos Engenheiros/RS, do qual já foi Vice-Presidenta.
Seu primo Fernando Machado Carrion foi Prefeito de Passo Fundo e, posteriormente, Deputado Federal pelo PDS, de 1991/1994.

O ingresso na Ação Popular
 
No Colégio Anchieta, 1963.
Raul Carrion fez o ensino fundamental no Instituto Piratini, em Porto Alegre. A seguir, cursou o primeiro ano do curso científico no Colégio Farroupilha e os dois últimos anos do científico no Colégio Anchieta. Influenciado pelo Movimento da Legalidade de 1961 e pelas mobilizações em defesa das Reformas de Base – que sacudiram o Brasil de Norte a Sul – iniciou a sua militância política em 1963, quando tinha 17 anos, ingressando na Ação Popular (AP) – organização de origem cristã que propunha uma “revolução socialista de libertação nacional”. Nela atuou junto com colegas do Colégio Anchieta, entre os quais José Luiz Fiori, Paulo Renato de Souza (futuro Ministro da Educação), Roberto Motolla, os irmãos Coimbra e outros.

O golpe militar

Em 1° de abril de 1964, o presidente João Goulart foi derrubado por um golpe militar que suspendeu as eleições diretas para Presidente da República, anulou os direitos constitucionais, cassou direitos políticos e os mandatos de 3 ex-presidentes, 6 governadores, 4 Ministros do STF, quase 400 parlamentares – senadores e deputados –, atingindo ao todo 4.862 brasileiros.
Só nos primeiros meses, os golpistas prenderam mais de 50 mil pessoas, muitas das quais torturadas, mortas ou desaparecidas Dez mil funcionários foram demitidos, sem direito a nada. Foram instaurados 5 mil Inquéritos Policiais Militares (IPMs), envolvendo mais de 40 mil pessoas. Foram indiciadas na Lei de Segurança Nacional 13.752 pessoas, das quais 7.367 levadas ao banco dos réus. Nas Forças Armadas, 6.592 militares sofreram punições ou foram afastados. Mais de 10 mil brasileiros tiveram de se exilar para escapar às perseguições.
A Central Geral dos Trabalhadores foi proibida e os seus dirigentes perseguidos. Sofreram Intervenção militar 452 sindicatos, 43 federações e 3 Confederações. A UNE e a UBES tiveram a sua sede no Rio de Janeiro incendiada e os seus dirigentes caçados pelos órgãos de repressão. As Ligas Camponesas tiveram a mesma sorte. Expurgos de professores e cientistas nas universidades, expulsão de líderes estudantis, censura de 500 filmes, 450 peças teatrais, 200 livros, 100 revistas, mil letras de música, 12 novelas de TV e 20 programas de rádio pretenderam calar a intelectualidade, mas sem êxito.
O aparelho de Estado foi “tomado” por 18 mil militares da ativa e da reserva que – além de um grande número de ministérios – assumiram cargos remunerados na administração direta, estatais, autarquias e grupos privados. O recém criado Serviço Nacional de Informações (SNI) montou uma máquina de espionagem com 300 mil informantes e 1 milhão de colaboradores. Foram “fichados” 250 mil cidadãos.
Os seqüestros, prisões arbitrárias, torturas, assassinatos e desaparecimentos se tornaram rotina, acobertados pela 'incomunicabilidade” dos presos, pelo desrespeito – e depois eliminação – do habeas corpus e pela censura dos meios de comunicação. Os centros clandestinos de tortura e assassinato – como a Operação Bandeirante” (OBAN), em São Paulo, comandada pelo famigerado Coronel Brilhante Ustra – passaram a rivalizar em barbárie com os centros oficiais de detenção e tortura, como os DOPS, DOI-CODI, CENIMAR. Muitos “desaparecidos” foram na verdade jogados de avião em alto-mar, queimados em fornos industriais ou enterrados como indigentes, para que não ficassem rastros.

Os estudantes na luta contra a ditadura
 
Quando aconteceu o golpe, Raul havia acabado de ingressar na Escola de Engenharia da UFRGS, classificando-se em 13º lugar no vestibular, entre mais de 1500 candidatos. Tendo optado pelo curso de Engenharia Química, logo se destacou como liderança universitária no combate à ditadura.
As principais forças de esquerda na UFRGS eram o PCB – cujas maiores lideranças eram Marco Aurélio Garcia, Flávio Koutzi, Marcos Faermann e Trajano –, a AP e o PCdoB. Nas eleições para o Centro de Estudantes Universitários de Engenharia (CEUE), Carrion foi convidado a compor a chapa de esquerda, mas a direita venceu por cerca de 80 votos.
Vivia-se o momento das primeiras lutas e confrontos contra o regime militar que – após colocar na ilegalidade a UNE, a UBES, as UEEs e as Federações Universitárias – tentava impor uma estrutura estudantil espúria, atrelada ao Ministério da Educação, formada por um pretenso “Diretório Nacional de Estudantes” (DNE), Diretórios Estaduais de Estudantes (DEEs), Diretórios Centrais de Estudantes (DCEs) e Diretórios Acadêmicos (DAs).
A maior parte das lideranças estudantis apoiava a UNE, que continuava atuando na clandestinidade, e rejeitava a nova estrutura imposta pelo militares. Assim, apesar de haver vencido as eleições para o CEUE, a direita nunca conseguiu alterar o seu nome para “Diretório Acadêmico”, pois nenhuma assembleia geral de estudantes aprovou tal mudança. Por isso, até hoje ele se mantém com a denominação de “Centro Acadêmico”.
Quando foram convocadas eleições para o DCE da URGS (criado no lugar da FEURGS). O PCB lançou a candidatura de Flávio Koutzi, que contava com o apoio da AP, em troca do apoio que o PCB lhe havia dado nas eleições para o DEE. Raul Carrion, apesar de ser da AP, foi lançado por lideranças do PCdoB da Escola de Engenharia como candidato alternativo a Flávio Koutzi. Na plenária para a escolha do candidato da esquerda, Koutzi venceu, mas depois foi derrotado pela direita nas eleições para o DCE.
Não concordando com a tática defendida pelos principais dirigentes da AP no Rio Grande do Sul, de “hibernação” frente à ditadura, Carrion assumiu junto com outros companheiros a reorganização da AP, passando a compor o seu Comando Regional – do qual também faziam parte o metalúrgico José Ouriques de Freitas (ex-presidente nacional da JOC), o estudante de engenharia da UFRGS, Elo Ortiz Duclós Filho, o estudante de economia na UFRGS Gilberto Bossle e o ex-estudante de economia Hélio Corbellini (expulso da PUCRS por perseguição política). Com exceção de Carrion, todos os demais tinham a sua origem na Ação Católica.
Em 1965, Raul Carrion passou a participar do Comitê Nacional da AP – formado pelo Comando Nacional e por um representante de cada Comando Regional. No Comitê Nacional, Carrion representava o Comando Regional do Rio Grande do Sul. Lá, conheceu Aldo Arantes, Haroldo Lima, José Herbert de Souza (“Betinho”), Duarte Pereira, Paulo Whrigth e outros dirigentes nacionais e estaduais da Ação Popular e participou da discussão da Resolução Política de 1965, que definiu o caráter “socialista de libertação nacional” da revolução brasileira e o caminho da “luta insurrecional”. Também acompanhou os entusiásticos relatos dos dirigentes nacionais da AP de sua visita a Republica Popular da China, onde ocorria a Revolução Cultural.

A atuação junto ao movimento operário

Nessa época, além de dirigir a frente estudantil da AP no Rio Grande do Sul – onde atuavam José Loguércio, João Luís Santos, Walmaro Paz, Carlos Lenglert, Beto, Carlos Augusto de Souza, Nilza de Santi, André Foster, Diana e Raquel Gay da Cunha, entre outros –, Carrion começou a atuar com José Freitas no movimento sindical da Região Metropolitana de Porto Alegre, especialmente entre os metalúrgicos, calçadistas e trabalhadores do vestuário.
Em 1965, participou da campanha da chapa de oposição ao sindicato dos metalúrgicos de Porto Alegre, que enfrentou a negativa do DOPS em fornecer o “atestado ideológico” para diversos candidatos da oposição. Pouco depois, Carrion participou da articulação e da campanha da chapa de oposição ao Sindicato dos Sapateiros de Porto Alegre, elegendo Adão da Graça como seu Presidente. A partir da vitória no Sindicato dos Sapateiros de Porto Alegre, Raul estreitou as suas relações com os calçadistas do Vale do Sinos, em especial da cidade de Novo Hamburgo, principal centro operário da região.
Nesse período, Carrion lecionou Desenho e Geometria Descritiva no Curso Pré-Vestibular do DCE/UFRGS e trabalhou como calculista no GEIPOT (Grupo Executivo de Integração da Política de Transportes).
Em 1966, ocorreram mudanças no Comando Regional da AP do Rio Grande do Sul, cujo núcleo executivo passou a ser formado por Raul Carrion, José Freitas e Pedro Calmon, este último vindo da cidade de Pelotas.
Em 1967, para poder dedicar-se integralmente à tarefa de direção da AP e ao trabalho junto ao movimento operário, Carrion interrompeu os seus estudos de Engenharia Química, onde já cursava o quarto ano, e passou a atuar junto aos calçadistas de Novo Hamburgo, onde existia uma forte organização da JOC. Devido às crescentes exigências do trabalho, Carrion passava boa parte do tempo em Novo Hamburgo, residindo na casa de companheiros.

A luta contra a ditadura e o AI-5

Armados de paus e pedras, estudantes enfrentam pelotão da polícia na "sexta-feira sangrenta" (21/06/1968) que encerrou uma semana de protestos cujo saldo foi de 28 mortos.

Em julho de 1964, o “mandato” do ditador Castelo Branco foi prorrogado por 14 meses. Em março de 1965, a ditadura foi derrotada nas eleições para a Prefeitura de São Paulo, sendo eleito o Brigadeiro Faria Lima, com o apoio do cassado Jânio Quadros. Em outubro de 1965, ocorreram eleições para Governador em 11 Estados. A oposição venceu na Guanabara e Minas Gerais – os principais Estados em disputa –, além de Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Mato Grosso.
Em resposta, Castelo Branco editou ainda em outubro o Ato Institucional n° 2, que extinguiu todos os partidos – só permitindo a ARENA (“governista”) e o MDB (“oposição responsável”) –, tornou indireta as eleições presidenciais, alterou a composição do STF (para garantir a maioria ao regime militar, passou para os tribunais militares o julgamento de civis com base na “lei de segurança nacional” e retomou as cassações e as suspensões de direitos políticos.
Mesmo proibida, a UNE realizou em julho de 1965, em São Paulo, o seu 27º Congresso, que reorganizou a entidade. Em julho de 1966, em Belo Horizonte, realizou o seu 28º Congresso e lançou o “Movimento Contra a Ditadura” (MCD).
O Ato Institucional nº 3, em fevereiro de 1966, eliminou as eleições diretas também para governadores. No RS, onde o MDB tinha a maioria na Assembleia Legislativa e a ARENA estava dividida, a cassação do mandato de quatro deputados do MDB e uma regra de fidelidade partidária asseguraram a eleição do governador imposto pelos militares. O Ato Institucional nº 4, em dezembro de 1966, delegou a um Congresso mutilado a aprovação da constituição imposta pelo generais, formou o Colégio Eleitoral para eleger o general Costa e Silva como o novo ditador de turno e criou os decretos-lei por decurso de prazo. Em março de 1967, Castelo Branco foi substituído por Costa e Silva.
Em que pese o fechamento do regime, o ano de 1967 registrou uma retomada das lutas sindicais e populares em todo o país e o surgimento de diversas articulações sindicais, entre elas o Movimento Intersindical Anti-Arrocho (MIA), que realizou importantes mobilizações, duramente reprimidas. A vitória de José Ibrahim, candidato da oposição ao Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, e o fortalecimento da oposição à direção “pelega” do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, impulsionaram ainda mais as lutas operárias. No movimento estudantil, através do Movimento contra a Ditadura (MCD), a AP passou a protagonizar importantes mobilizações em todo o país
Em 1968, a resistência à ditadura ampliou-se ainda mais. No dia 28 de março, foi assassinado pela polícia o secundarista Edson Luís, ao participar de uma manifestação contra o fechamento do restaurante estudantil do Calabouço. Isso desencadeou grandes protestos estudantis em todo o país. Pouco depois, em abril, teve início a greve dos metalúrgicos de Contagem, Minas Gerais, que conquistou um abono salarial de 10% para todos os trabalhadores brasileiros. No 1º de maio de 1968, na Praça da Sé, em São Paulo, os trabalhadores investiram contra o palanque oficial e puseram a correr as autoridades presentes. Em junho, violenta repressão policial a estudantes no Rio de Janeiro – causando 3 mortos, 52 feridos e 400 presos – levantou uma onda de protestos em todo o país, culminando com a “Passeata dos 100 mil” no Rio de Janeiro e com grandes mobilizações nos demais Estados, inclusive em Porto Alegre.
No mês de julho, eclodiu a greve dos metalúrgicos de Osasco, São Paulo, com a ocupação de fábricas e detenção pelos operários de engenheiros e chefias. Na área rural ocorreram a greve dos canavieiros de Pernambuco, a luta dos camponeses do Vale do Pindaré, Maranhão, e dos camponeses de Água Branca, Alagoas. Intelectuais, artistas e religiosos passaram a participar das manifestações de oposição ao regime.
Nesse contexto de crescimento da luta contra a ditadura, o Congresso Nacional negou-se a conceder licença para que o Deputado Márcio Moreira Alves fosse processado pelo regime, após fazer um discurso contra os militares. Em resposta, a ditadura editou o Ato Institucional nº 5, fechando por tempo indeterminado o Congresso Nacional e seis Assembleias Legislativas Estaduais; suspendendo as eleições em todos os níveis; cassando os mandatos e os direitos políticos de 1 governador, 6 senadores, 110 deputados federais, 161 deputados estaduais e 3 Ministros do STF, num total de 4877 cidadãos brasileiros atingidos.
A criação das penas de morte, prisão perpétua e banimento; a suspensão do habeas corpus, a oficialização da incomunicabilidade dos presos e a generalização das torturas, assassinatos e desaparecimentos dos opositores ao regime, criaram no Brasil um Estado de caráter fascista!

A adesão ao marxismo e o progressivo afastamento da AP

Em sua atuação junto ao movimento sindical, Carrion conviveu com diversas lideranças operárias da época, como José Freitas, Pedro Machado Alves, Castilhos, Antônio Losada, Adão da Graça, Rancheirinho, João de Deus Canha, Aldomiro Scherer, Agenor Castoldi, Luís Carlos Xavier, entre outros.
Foi um período em que os militantes da AP que atuavam no movimento operário se aproximaram do marxismo, sob a influência de José Freitas, que já conhecia diversas obras marxistas. A partir de então, a questão do partido da classe operária se colocou na ordem do dia e o próprio sentido da Ação Popular começou a ser questionado.
 

Surgido em 1968, o jornal Libertação era o órgão oficial de comunicação
 da Ação Popular (AP).

Nessa época, a AP havia se aproximado da China e o “maoísmo” se tornara hegemônico em seu Comando Nacional. Jair Ferreira de Sá, o “Dorival” – que junto com outros companheiros da AP havia acabado de voltar de um curso na China – propôs, então, o chamado Esquema dos Seis Pontos, onde afirmava: 1) A revolução mundial vive a etapa da ruína total do capitalismo e da vitória mundial do socialismo; em conseqüência, o marxismo-leninismo ingressou em uma nova etapa, a etapa do Pensamento Mao Tse-Tung; 2) A sociedade brasileira é semi-colonial e semi-feudal; 3) A revolução brasileira é nacional e democrática; 4) A Guerra Popular é o caminho da revolução; 5) É preciso “reconstruir o partido proletário no Brasil”; 6) Os militantes de origem pequeno-burguesa (a ampla maioria) devem “integrar-se na produção” – trabalhando como operários ou camponeses – para alcançar a sua transformação ideológica e fazer com que a AP se torne o “partido do proletariado brasileiro”.
Os pontos “1”, “2” e “5” geraram controvérsias entre os companheiros da AP do Rio Grande do Sul que atuavam no movimento sindical e o ponto “6” foi o mais contestado. Ainda que fosse justa a preocupação da AP em direcionar o seu trabalho prioritariamente para as massas operárias e camponesas, a orientação de “integração na produção” expressava na prática a tentativa da pequena-burguesia revolucionária de substituir e dirigir a classe operária e os camponeses, através da transformação de seus militantes de origem pequeno-burguesas em “líderes” operários e camponeses.
Em seguida, essa orientação tornou-se obrigatória para todos os militantes e assumiu um caráter quase religioso de “purificação” e “autotransformação ideológica”, chegando-se ao ponto de estabelecer normas diferenciadas a serem seguidas pelos militantes – segundo tivessem origem operária, camponesa ou pequeno-burguesa –, definindo o que cada um poderia possuir e o estilo de vida que deveria levar...
Para Carrion, Freitas e outros militantes operários – que já haviam assimilado a concepção leninista, segundo a qual o partido do proletariado era a fusão do movimento operário espontâneo com o socialismo científico –, a concepção de que a “integração na produção” de militantes de origem pequeno-burguesa transformaria a AP no “partido do proletariado brasileiro” era falsa e alheia ao marxismo.
Partindo da concepção leninista, entendiam que os intelectuais revolucionários – portadores da teoria revolucionária – deviam unir-se aos movimentos operários e contribuir para a formação de lideranças proletárias, sem pretender substituí-las. Portanto, até poderia ser aceitável a “integração na produção” como um caminho para facilitar a aproximação e a formação de lideranças operárias, ajudando-as a assimilarem o marxismo e a se transformarem em “intelectuais revolucionários proletários”. Nunca, porém, com o objetivo de ocupar o seu lugar.
Formularam, então, por escrito, uma crítica teórica a essas concepções equivocadas, discutindo-a amplamente entre os militantes que atuavam no movimento operário. Isso se deu por iniciativa local, sem relação com qualquer “dissidência” nacional. Infelizmente, por ocasião da prisão de alguns militantes, esse documento de crítica foi queimado por razões de segurança.
Nesse ínterim, o Comando Nacional da AP enviou para o Rio Grande do Sul o dirigente Altino Dantas – que mais tarde viria a romper com a AP e formar o PRT – com o objetivo de “enquadrar” a AP gaúcha nas novas orientações. Altino teve, então, um embate com Carrion e Freitas que, junto com Pedro Calmon, formavam o núcleo executivo da direção estadual da AP no Rio Grande do Sul e criticavam essa visão. Esse processo sedimentou uma forte divergência entre os militantes que atuavam no meio operário e o Comando Nacional da AP. Fruto dessas divergências, Carrion e Freitas foram afastados do Comando Regional da AP, que passou a ser dirigido por Altino Dantas, com o apoio de Pedro Calmon e outros militantes que aderiram às novas teses.

Atuação junto aos calçadistas de Novo Hamburgo

Frente a essa situação, Carrion decidiu mudar-se para Novo Hamburgo – principal pólo da indústria calçadista no Rio Grande do Sul –, com o objetivo de ajudar na organização e na luta dos trabalhadores calçadistas. Seja para tornar mais fácil a sua atuação entre os calçadistas, seja para deixar claro que a sua divergência era de concepção e não por falta de disposição para “integrar-se na produção”, Carrion optou por trabalhar em uma fábrica, mas com uma concepção diametralmente oposta a defendida no Esquema dos Seis Pontos.
Realizou um rápido curso de “cortador” na escola do sindicato e empregou-se em uma importante fábrica de calçados, utilizando uma documentação falsa, em nome de Antônio Ferreira da Costa. Passou nos testes e chegou a trabalhar durante uma semana, mas não conseguiu obter a vaga por não ter toda a documentação exigida pela empresa.

A realização de cursos e a difusão de materiais de formação política contribuíam para o fortalecimento do trabalho nas fábricas.

Conseguiu um emprego, então, em uma fábrica de componentes de calçados, como operador de máquina. Ali trabalhou durante quase um ano, compartindo a vida cotidiana da classe operária. Para morar, alugou um quarto em uma pensão de trabalhadores. À noite e nos finais de semana, dedicava-se à politização e à organização dos trabalhadores. Periodicamente, ia a Porto Alegre, onde visitava os pais, que nada sabiam de suas atividades.
Em pouco tempo, estruturou a AP na cidade, atraindo importantes lideranças calçadistas, entre elas os principais dirigentes da Juventude Operária Católica (JOC). Destacavam-se, entre outros, Renatinho, Sebastião Velho, Nelson Sá e Astrogildo, que passaram a compor o Comando Municipal da AP de Novo Hamburgo, junto com Carrion. Pequenas lutas, em diferentes empresas, serviram para melhor preparar as forças.
Na medida em que o trabalho cresceu e mais trabalhadores ingressaram na AP, aumentaram as demandas organizativas e tornou-se necessária a publicação regular de um pequeno jornal mimeografado. Para dar conta dessas e de outras tarefas, Carrion deixou o seu emprego, para dispor de mais tempo. Isso foi considerado pelos membros do novo Comando Regional da AP como um “recuo no processo de integração na produção no RS”. Ou seja, era mais importante para a AP ter um militante de origem pequeno-burguesa trabalhando em uma fábrica do que a formação o ingresso e de inúmeras lideranças operárias na Ação Popular.

O dissídio dos calçadistas de NH

O dissídio dos calçadistas de Novo Hamburgo, em maio de 1969, serviu como uma prova de fogo para o trabalho que vinha sendo realizado. Depois de debater a situação, a direção da AP em NH decidiu lançar uma ampla mobilização entre os calçadistas de Novo Hamburgo, com a palavra de ordem "40% ou greve!". Panfletos foram impressos e amplamente distribuídos nas fábricas, de maneira semi-clandestina, utilizando os mais variados métodos.
Apesar da direção pelega à frente do sindicato e da recente edição do Ato Institucional Nº5, em dezembro de 1968 – o que causou um inevitável refluxo das lutas sindicais –, a categoria mobilizou-se. Temendo a greve, os patrões apelaram para a repressão. Na véspera da assembleia decisiva, agentes do DOPS prenderam nas fábricas dez lideranças calçadistas e as levaram para o DOPS, em Porto Alegre, tentando desarticular o movimento. Entre os presos estava Renatinho, da direção municipal da Ação Popular em Novo Hamburgo.
Em reunião realizada nessa mesma noite, decidiu-se manter a mobilização e fazer uma panfletagem, de carro, durante a madrugada, nas principais fábricas, conclamando os operários a participarem da assembleia. Um dos objetivos era demonstrar que os presos não eram os responsáveis pela mobilização, para assim aliviar a pressão sobre eles. Milhares de panfletos foram impressos em um mimeógrafo de tinta e Carrion combinou com Hélio Corbellini – que morava em Porto Alegre – a realização dessa panfletagem em seu SIMCA CHAMBORD.
Às 5h da manhã, Carrion e Corbellini partiram do Bairro Canudos, em direção a Porto Alegre, onde chegaram em apenas 25 minutos. Em seu percurso, passaram por mais de 20 fábricas, que amanheceram com suas calçadas cobertas de panfletos com a convocação da assembleia. No DOPS, os policiais vociferaram indignados, reclamando que tinham ficado de “campana” até as 3h da manhã, só se retirando após. Não é preciso dizer o quanto isso elevou a moral dos detidos.
Na assembleia daquela noite, mais de 700 trabalhadores lotaram o salão do Sindicato. A repressão policial não se fez esperar. Ao final da assembleia, mais de 30 trabalhadores que haviam se pronunciado defendendo a paralisação foram detidos e levados para Porto Alegre, inviabilizando a greve. Finalizada a mobilização e libertados os detidos, o balanço mostrou que a estrutura organizativa da Ação Popular não havia sido detectada nem golpeada.
Em meados de 1969, depois de algum tempo afastado da produção, Carrion retomou o trabalho fabril, agora em uma metalúrgica, como operador de prensa, ao mesmo tempo em que seguia realizando o trabalho organizativo da AP. Depois de alguns meses, sofreu um acidente de trabalho, tendo o dedo médio da mão esquerda esmagado em uma prensa, acidente rotineiro na empresa. Ficou, então, por alguns meses no seguro. Com o dinheiro da indenização pelo acidente, adquiriu uma carabina Itajubá, calibre 22, que depois serviu para atividades de treinamento da militância, em um processo inicial de preparação militar. Ao final do período de seguro, desligou-se da empresa.

1969: o rompimento com a AP e o ingresso no PCdoB

Durante esse período, ocorreram diversas reuniões com a direção da AP, inclusive com dirigentes nacionais que tentavam “enquadrar os rebeldes”. Mas as divergências eram insanáveis e no segundo semestre de 1969 a totalidade dos militantes que atuavam no movimento operário e sndical da região metropolitana de Porto Alegre – entre eles José Freitas, Pedro Machado Alves, Agenor Castoldi, João de Deus, Raul Carrion e as lideranças calçadistas do Vale do Sinos – desligaram-se da Ação Popular.
Nos meses que se seguiram, Carrion e a maioria dessas lideranças operárias ingressaram no Partido Comunista do Brasil. Pesaram nessa decisão diversos fatores: 1) A postura explicitamente marxista do PCdoB; 2) A sua luta intransigente contra a ditadura; 3) A sua proposta programática de combate “à espoliação do país pelo imperialismo, em particular o norte-americano, ao monopólio da terra e à crescente concentração de riquezas nas mãos de uma minoria de grandes capitalistas” e de luta por “um novo regime (...) antiimperialista, antilatifundiário e antimonopolista”; 4) A sua crítica ao “foquismo” e a sua defesa da “Guerra Popular” como o caminho da luta armada no Brasil; 5) A sua história de lutas, desde 1922, e o seu enfrentamento ao revisionismo soviético no Brasil, reorganizando o PCdoB em 1962.

A incorporação da AP-ML ao PCdoB

Livro de Haroldo Lima e Aldo Arantes conta a História da Ação Popular - AP, desde seu surgimento até a incorporação ao PCdoB em 1973.

Três anos e meio depois, a maioria da Ação Popular chegou a esse mesmo entendimento e integrou-se ao PCdoB. Antes disso, porém, foi preciso ultrapassar diversas etapas. Em maio de 1971, aprovou um “Programa Básico” e um novo “Estatuto”, transformando-se em “Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil”. A AP-ML defendia a criação de “um partido proletário (...) de tipo inteiramente novo, marxista-leninista-maoísta”, tendo por fundamento o Programa Básico da AP-ML. Mas, reconhecia a existência de um partido marxista-leninista no país – o PCdoB – e de “outras forças marxista-leninistas”, às quais propunha unificar.
Em novembro de 1971, A Classe Operária publicou a resposta do PCdoB à proposta de criar “um partido inteiramente novo” (que fora divulgada pela AP-ML), no artigo “A proposta da Ação Popular”. Ali o PCdoB afirmava: “Os comunistas (...) quando, recentemente, souberam que militantes e dirigentes da AP evoluíam no sentido da aceitação das idéias marxista-leninistas, saudaram jubilosos o fato (...) esperavam sinceramente que essa evolução não os conduzisse à formação de um novo partido marxista-leninista nem, muito menos, à pretensão de fundir o Partido Comunista do Brasil com outras organizações supostamente marxista-leninistas num 'partido inteiramente novo' (...) a situação exige dos marxista-leninistas não a multiplicação voluntarista de partidos marxista-leninistas e sim o fortalecimento do que já existe.”
Antes disso, porém, no segundo semestre de 1971, a maioria do Bureau Politico do CC da AP-ML havia proposto a unificação com o PCdoB, ainda que mantivesse a opinião de que o marxismo vivia uma nova etapa – a etapa do pensamento de Mao Tse-Tung – e que era necessário formar “um partido inteiramente novo”.
Posteriormente, três dos seis membros do seu Bureau Político – Haroldo Lima, Aldo Arantes e Renato Rabelo – abandonaram a proposta de criação de “um partido inteiramente novo” e assumiram a defesa da incorporação imediata da AP-ML ao PCdoB, considerando que ele já era o partido marxista-leninista do Brasil e o pólo de aglutinação dos demais marxista-leninistas do país. Essa posição foi submetida ao Comitê Central da AP-ML e aprovada por ampla maioria.
Acirrou-se, então, a luta entre a maioria da AP-ML – que defendia a incorporação ao PCdoB – e a minoria, que se opunha a isso e continuava a defender a necessidade da criação de “um partido inteiramente novo”. O início da luta guerrilheira do Araguaia sob a direção do PCdoB e a dura repressão que se abateu sobre os comunistas fizeram com que a questão da incorporação da AP-ML ao PCdoB se colocasse com maior força e urgência. As conversas se aceleraram e finalmente, em 17 de maio de 1973, o Bureau Político do CC da AP-ML divulgou sua última circular, intitulada “Incorporemo-nos ao PC do Brasil”. Os anos seguintes comprovaram a justeza e a importância dessa decisão, que fortaleceu enormemente a luta dos comunistas no Brasil.

A retomada do curso de Engenharia Química

No início de 1970, Raul Carrion foi eleito para o Comitê Estadual do PCdoB e assumiu a sua secretaria de organização, adotando o nome de guerra “Vitor”. O secretariado era composto ainda por Roberto Martins (“Nelson”), secretário político, e por Agenor Castoldi (“Gurjão”), secretário de agitação e propaganda. Também participavam da direção estadual, entre outros, o psiquiatra Bruno Mendonça Costa, o dentista Júlio Zancanaro, o ferroviário Delfino Lobo, o agrônomo Delfino Reis, o metalúrgico Pedro Machado Alves.
Por orientação partidária – com o objetivo de fortalecer o PCdoB no movimento estudantil –, Carrion retomou o seu curso de Engenharia Química e voltou a residir em Porto Alegre, ainda que tenha continuado acompanhando o trabalho junto à categoria calçadista de Novo Hamburgo.
Na UFRGS, a maioria dos Diretórios Acadêmicos, Centros de Estudantes e o DCE estavam em mãos da direita. A primeira tarefa foi reverter essa situação e, ao mesmo tempo, construir o PCdoB, que era bastante débil no movimento estudantil gaúcho.
O primeiro embate se deu nas eleições para o CEUE. Aglutinando um combativo grupo de estudantes – entre os quais Renato Dagnino, Peter Peng, Flávio Presser, Pedro Bisch, Nelson Rolim, Erno Zimpel, Carlos Schmidt, Pezzi e outros – foi formada uma chapa de oposição, tendo por base as demandas mais sentidas dos estudantes, destacadamente a luta contra o Decreto 464 que desligava sumariamente da universidade os estudantes reprovados em um certo número de créditos, problema comum em cursos difíceis como o de engenharia. A chapa, apesar de ser acusada de “comunista”, foi vitoriosa, encerrando anos de domínio da direita.
A vitória da esquerda na Engenharia logo contagiou outros cursos, a começar pela vizinha Faculdade de Economia, onde também foi vitoriosa a chapa de esquerda para o DAECA. Várias vitórias ocorreram em outras unidades da UFRGS, alterando a correlação de forças no Conselho do DCE/UFRGS – a quem cabia a eleição da diretoria do DCE. Convocado o referido Conselho, a diretoria direitista usou de todos os meios para tentar impedir a realização da eleição, inclusive sumindo com o livro de Atas. Este só reapareceu quando o responsável por ele foi ameaçado de ser jogado pela janela... Também na PUC/RS e em outras universidades ocorreram vitórias da esquerda. Nesse processo, a principal força a se fortalecer foi o PCdoB.
Em fins de 1970 – refletindo a hegemonia que o PCdoB havia conquistado no movimento universitário gaúcho – Carrion foi escolhido para ser o delegado único do Rio Grande do Sul na reunião do Conselho Nacional da UNE, realizada clandestinamente, no início de 1971, na cidade de Salvador. Ao retornar dessa reunião – que teve que ser encerrada abruptamente, no meio da noite, por razões de segurança – Carrion prestou vestibular para o curso de Química da UFRGS, sendo aprovado em 2º lugar.
No decorrer dos anos de 1970 e 1971, além de cursar Química, Carrion lecionou Desenho e Geometria Descritiva no 2º grau do Colégio Israelita Brasileiro e trabalhou como professor de Matemática no Educandário Nossa Senhora do Carmo e no Curso Pré-Vestibular do Instituto Pré-99. E, até 28 de maio de 1971 – quando foi preso pelo DOPS –, Carrion lecionou Desenho Geométrico e Geometria Descritiva no Instituto Pré-Vestibular (IPV).

Prisão, torturas, exílio

Em conseqüência de sua luta, Raul foi preso
 em 1971 e barbaramente torturado. Acima,
a ficha de identificação no DOPS.

No dia 28 de maio de 1971, à noite, ao chegar à residência de João Flores da Silva, onde eram datilografados os jornais “A CLASSE OPERÁRIA” e “O PROLETÁRIO”, Carrion foi preso e imediatamente conduzido ao DOPS, no Palácio da Polícia. Ali, já encontrou sob tortura João Flores da Silva e sua esposa Flávia Röessler, além de diversos membros do Comitê Estadual do PCdoB, entre os quais Bruno Mendonça Costa, Delfino Lobo, Delfino Reis, Júlio Zancanaro e João Barbosa.
Acusado de ser o secretário de organização do PCdoB no Rio Grande do Sul – conhecedor, portanto, dos contatos do Partido em todo o Estado – e de haver entregue a João Flores “pentes” de balas calibre 45, encontradas no seu apartamento, Carrion foi submetido durante dez dias seguidos às mais bárbaras torturas, sob o comando do delegado Pedro Seelig e de seus sicários, entre os quais Nilo Hervelha e Didi Pedalada.
No DOPS, foi dependurado de cabeça para baixo, nu e encapuçado, com as mãos amarradas sobre os joelhos flexionados e com uma barra de ferro entre as pernas – o chamado “pau-de-arara”. Nessa posição, foi mantido dependurado horas a fio, causando-lhe dores indescritíveis e dificuldades de circulação, o que poderiam causar-lhe um grave comprometimento muscular. Periodicamente, era jogado no chão, de costas, com barra e tudo, com o objetivo de golpear-lhe a coluna vertebral, causando-lhe traumatismos irreparáveis.
Dia após dia, foi vitima de choques elétricos de até 400 Volts (mas de baixa amperagem, para evitar a mortes) nos pés, nas mãos, no crânio, nos ouvidos, nos órgãos genitais. Uma das formas mais sádicas de aplicação dos choques elétricos era a chamada “bicicleta”, quando o supliciado é posto de bruços no chão, completamente nu, com os braços amarrados nas costas e fios presos nos dedos dos pés, também voltados para traz. Ao serem aplicadas as descargas elétricas, o resultado é um movimento convulsivo das pernas, lembrando o pedalar de uma bicicleta, acompanhado de terríveis dores.
 

O Pau-de-Arara consistia numa barra de ferro que era atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, sendo o conjunto colocado entre duas mesas, ficando o corpo do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30 centímetros do solo. Este método quase nunca era utilizado isoladamente, seus complementos normais eram eletrochoques, a palmatória e o afogamento.

Carrion sofreu por várias vezes violentos espancamentos – com socos, chutes e porretes –, que ocorriam a qualquer hora do dia ou da noite. Também foi submetido à “palmatória” – violentos golpes nas palmas das mãos com pedaços de madeira – e o chamado “telefone” – golpes simultâneos nos dois ouvidos, tendo como conseqüência o rompimento dos tímpanos. Enfrentou execuções simuladas com armas de fogo e sofreu todo tipo de agressões e torturas psicológicas, buscando destituí-lo de toda dignidade e desestruturá-lo psiquicamente. Em mais de uma ocasião ficou desacordado e coberto de hematomas, em conseqüência das torturas. Apesar de tudo isso, Carrion resistiu à essas bárbaras torturas e não forneceu qualquer informação que pudesse prejudicar o partido ou os seus camaradas.
Uma das questões que mais preocupava os agentes do DOPS – chefiados pelo sádico e criminoso delegado Pedro Seelig – era onde estava e quem era o secretário político do PCdoB no Rio Grande do Sul, do qual só sabiam o “nome de guerra” – “Nelson”. O problema é que na véspera de sua prisão, Carrion havia marcado um encontro com “Nelson” no Parque Farroupilha, na parada de ônibus em frente ao Instituto de Educação Flores da Cunha. O procedimento de segurança acertado era o seguinte: Carrion aguardaria na parada, “Nelson” desceria do ônibus, não o abordaria e continuaria caminhando. Carrion observaria se tudo estava em ordem e o seguiria, abordando-o mais adiante, durante a caminhada. O detalhe é que haviam combinado que se por algum motivo Carrion não estivesse no ponto, “Nelson” deveria ir até a residência de João Flores, exatamente onde a polícia estava de campana. Portanto, se nada fosse feito, “Nelson” seria inevitavelmente preso. Enquanto era torturado, Carrion pensou no que fazer para impedir que isso acontecesse.
Tomou, então, uma decisão extremamente arriscada: fingir que estava disposto a colaborar e levá-los até o ponto de encontro marcado. Como, Carrion não o seguiria, “Nelson” perceberia que havia algo de errado e, ao dar-se conta disso, não iria até a casa do João Flores. Assim, no meio da madrugada, Carrion disse aos seus torturadores que tinha um ponto marcado com “Nelson” e conseguiu convencê-los que estava disposto a colaborar. Descreveu “Nelson” de forma diferente da realidade e prometeu indicar-lhes quem era, no momento em que ele lhe abordasse. Ao tomar essa decisão, Carrion assumiu o maior risco de toda sua vida, pois se algo desse errado e “Nelson” fosse preso, ele seria tido como um delator... Mas, aceitou correr esse risco para preservar o Partido da queda de seu secretário político e outras eventuais prisões.
Assim, alguns minutos antes da hora marcada, Carrion foi levado até a referida parada de ônibus do Instituto de Educação – onde circulava grande número de colegas da UFRGS – e, em seguida, os agentes do DOPS montaram a campana. Um pouco antes da hora marcada, passou um estudante que parou para falar com Carrion e após seguiu caminhando. Os agentes quiseram saber quem era e Carrion informou que era um conhecido da universidade, pois naquele local havia muitas pessoas que o conheciam. Mas, que avisaria quando fosse o “Nelson”.
Pouco depois o “Nelson” desceu do ônibus e – contrariando todas as normas de segurança acertadas –, ao invés de seguir caminhando, foi até Carrion e o cumprimentou. Como este lhe respondeu secamente, “Nelson” seguiu caminhando. Por sorte os agentes não desconfiaram de nada e como Carrion não o seguiu, “Nelson” percebeu que algo estava errado e não foi até a casa de João Flores, escapando da prisão. Mais por sorte do que por juízo, porque se os agentes fossem inteligentes, teriam detido todos os que falassem com Carrion, para depois esclarecer quem era cada um. Como ninguém mais apareceu e passou o horário do ponto, retornaram ao DOPS, onde retornaram as torturas.
Nessa noite, “caiu a ficha” dos agentes. Carrion que estava dormindo, depois de mais um dia de torturas, foi acordado a altas horas da noite por cinco agentes enfurecidos, que gritavam que ele os tinha enganado e passaram a espancá-lo na própria cama, deixando-o em tal situação, que depois mal podia caminhar.

A transferência para o centro de torturas da Operação Bandeirante-SP

Rua Tomás Carvalhal, 1030, fundos da 36ª Delegacia de Polícia, onde funcionava a OBAN.

Como os agentes do DOPS-RS não conseguiram arrancar qualquer informação de Carrion, ele foi enviado, em 6 de junho – junto com o psiquiatra Bruno Costa, tesoureiro do Partido – para a Operação Bandeirantes (OBAN), em São Paulo, o maior centro clandestino de torturas do país, comandado pelo famigerado Major Brilhante Ustra. Arrastando-se, coberto de hematomas, com costelas fraturadas, um tímpano descolado e urinando sangue, Carrion foi carregado algemado, assim como Bruno Costa, até o Aeroporto Salgado Filho e embarcado em um avião “DC3”, da FAB. Ironicamente, foi a sua primeira viagem de avião.
Tão logo chegou à OBAN – apesar de encontrar-se em péssimas condições de saúde e sem qualquer atenção médica –, foi enviado diretamente para as câmaras de tortura e submetido novamente ao “pau-de-arara” e a choques elétricos generalizados. Ambos permaneceram em torno de 45 dias na OBAN, submetido a interrogatórios e torturas permanentes. Presos em fins de maio, só tveram a sua incomunicabilidade quebrada em meados de julho, através de uma visita vigiada de seu irmão Eduardo Carrion.

O retorno a Porto Alegre e a libertação

Em meados de julho, Carrion e Bruno Costa – que também teve um comportamento exemplar frente às torturas, da mesma forma que Delfino Lobo e Delfino Reis – foram “devolvidos” ao DOPS de Porto Alegre. Nessa ocasião, viajaram na companhia de Fanny Seixas, viúva de Joaquim de Alencar de Seixas – que acabava de ser assassinado sob torturas na OBAN – e de seus filhos Ivan, Ieda e Iara. Tomaram conhecimento, então, que Ivan, um menino de apenas 16 anos, também havia sido barbaramente torturado na OBAN, junto com seu pai.
Mal chegado a Porto Alegre, Carrion foi conduzido de volta às torturas, para uma acareação com o estudante Nei De Grandi, preso sob a acusação de haver buscado um local para esconder “Nelson” da polícia. Como Nei DeGrandi dizia que quem lhe havia solicitado isso fora Carrion – algo impossível, pois nesse momento ele já estava preso – Carrion percebeu que se Nei afirmava isso era para não delatar quem de fato lhe havia feito essa solicitação. Assim, depois de negar durante certo tempo essa acusação, aceitou que “talvez tivesse feito essa solicitação”, aliviando a pressão sobre Nei DeGrandi.
Posteriormente, Raul e Bruno foram mantidos encarcerados no DOPS por diversos dias, até que no dia 2 de agosto a 1ª Auditoria Militar da 3ªCJM negou unanimemente prisão preventiva de ambos, por absoluta falta de provas, e determinou a sua imediata libertação, com a condição de se apresentarem semanalmente na Auditoria Militar.

Início do exílio em Buenos Aires,
1971, após sair da prisão em
Porto Alegre.

Vigiado e ameaçado pelos órgãos de repressão; sob o risco de ser novamente preso a qualquer momento; sem poder contatar qualquer membro do PCdoB, por razões de segurança óbvias; a única alternativa que lhe restou para prosseguir a luta foi o exílio. Assim, na madrugada do dia 6 de agosto, Raul Carrion partiu de carro – com seu irmão Francisco Carrion Júnior e sua então cunhada Rejane Xavier – para Santana do Livramento. Como Santana do Livramento faz fronteira com a cidade uruguaia de Rivera, bastaria atravessar uma rua para estar no país vizinho. Combinaram que, se fossem parados no caminho, diriam que estavam indo visitar parentes da Rejane, moradores de São Gabriel, cidade próxima à Rivera.
Tendo chegado a Rivera sem problemas, Raul solicitou o visto de entrada em uma delegacia dessa cidade, viajando em seguida, de ônibus, até Montevidéu. De Montevidéu, seguiu para Buenos Aires e de lá voou para Santiago do Chile, onde o Presidente Salvador Allende despertava a admiração dos progressistas de toda América Latina.

No Chile de Salvador Allende

Depois de ter concorrido à Presidência do Chile por três vezes sem êxito (52, 58, 64), o socialista Salvador Allende concorreu pela quarta vez por uma ampla frente de centro-esquerda – a Unidade Popular, formada pelo PS, PC, MAPU (dissidência da DC), API e Partido Radical e Social-Democrata – e venceu as disputadíssimas eleições de 4 de setembro de 1970, derrotando o direitista Jorge Alessandri e o democrata-cristão Radomiro Tomic. Ao obter 36,3% dos votos, Allende foi o mais votado, mas não obteve a maioria absoluta dos votos, precisando submeter-se a aprovação do Congresso Pleno, em sessão a realizar-se no dia 24 de outubro.
A eleição de Salvador Allende foi considerada “inaceitável” pelos Estados Unidos, que – como comprovam documentos desclassificados dos EUA e o Informe da Comissão Church, do Senado estadunidense – haviam despejado milhões de dólares nas campanhas de seus adversários, já durante o processo eleitoral, inundado o país de fake news (como se diz hoje) e financiado regiamente a imprensa conservadora, em especial “El Mercurio”, para que atacasse dia e noite o candidato socialista.
Logo após a vitória de Allende, Nixon convocou Henri Kissinger – seu assessor para Assuntos de Segurança Nacional – e Richard Helms, diretor da CIA, para comunicar-lhes que “um governo allendista era inaceitável para os Estados Unidos e instruiu a CIA a desempenhar um papel direto na organização de um golpe de Estado no Chile, para evitar que Allende assumisse a Presidência.” (Informe Church). De imediato, foram liberados dez milhões de dólares para isso.
A partir de então, foi tentado de tudo. Desde a compra de votos de congressistas democrata-cristãos, para que – rompendo com uma longa tradição republicana – não ratificassem a vitória de Allende e elegessem o direitista Jorge Alessandri (o segundo mais votado), até o golpe de Estado. Só estava excluída a invasão direta por marines “ao estilo República Dominicana”. Fracassada a tentativa de suborno aos congressistas, ganhou força a alternativa do golpe militar, envolvendo os generais Roberto Viaux e Camilo Valenzuela, além de altos escalões da Marinha, Força Aérea e Carabineiros, mas o golpe esbarrou na postura legalista do General René Schneider, comandante-em-chefe do Exército chileno.
A CIA decidiu, então, remover esse obstáculo e forneceu armas e dólares para o assassinato do General Schneider. Depois de duas tentativas frustradas, o general Schneider foi emboscado por cinco homens que o metralharam em seu carro oficial. O atentado ocorreu no dia 22 de outubro, antevéspera da reunião do Congresso Pleno que ratificaria ou não a vitória de Allende. Gravemente ferido, Schneider foi levado às pressas para um Hospital Militar, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu em 25 de outubro.
O atentado contra o general Schneider criou uma comoção nacional que paralisou os generais golpistas e favoreceu a confirmação pelo Parlamento da vitória de Salvador Allende, que lhe deu 153 votos, contra 35 votos para Alessandri e 7 abstenções. Finalmente, no dia 3 de novembro, Salvador Allende assumiu a Presidência do Chile. Desde então as elites dominantes do Chile e dos Estados Unidos não lhe deram um só minuto de trégua, tudo fazendo para desestabilizar o seu governo, até derrubá-lo e assassiná-lo através do golpe fascista de Pinochet!

O exílio e a retomada da luta no Chile

 
Cursando Química na UCC, 1971.

Foi nesse contexto de acirrada luta de classes que Raul Carrion chegou ao Chile em agosto de 1971. De imediato, contatou Paulo Renato de Souza – ex-colega do Colégio Anchieta e concunhado de seu irmão Carrion Júnior –, que lá se encontrava trabalhando na CLACSO e que lhe abrigou em sua residência, enquanto Carrion regularizava a sua situação no país.
Para isso, Carrion procurou o Professor Ernani Maria Fiori – Professor expurgado da UFRGS, que lecionava na Universidade Católica do Chile – que lhe conseguiu uma matrícula no curso de Química da Universidad Católica de Chile. Matriculado na UCC, Carrion passou a frequentar o curso e obteve um visto de permanência provisória para fins de estudo.
Nesse momento, cerca de cinco mil brasileiros viviam exilados no Chile, convivendo com exilados de todo o continente. Com a ajuda de Paulo Renato de Souza, Carrion retomou o contato com o PCdoB, através do ex-dirigente nacional Amarílio Vasconcelos, um dos participantes na Conferência da Mantiqueira que reorganizou o Partido em 1943. Ele e sua mulher Raquel haviam trabalhado durante alguns anos na Rádio Pequim, fazendo suas transmissões em português para o Brasil. Depois de relatar-lhe detalhes sobre as prisões que haviam atingido a direção do partido no Rio Grande do Sul, Carrion informou de sua intenção de retornar ao Brasil logo que possível.
Enquanto aguardava o contato com algum dirigente partidário, vindo do Brasil, constatando que não havia trabalho organizado do PCdoB entre os exilados, Carrion propôs a criação de um organismo partidário em Santiago que além de organizar a solidariedade à luta do povo brasileiro contra a ditadura, publicasse em espanhol os principais documentos partidários e o jornal “A Classe Operária”, divulgando-os entre os exilados brasileiros e latino-americanos.
Assim, foi constituída uma organização de base do PCdoB em Santiago, que reunia alguns comunistas exilados, debatia e divulgava os documentos partidários, planejava as ações de solidariedade ao povo brasileiro e denunciava dos crimes da ditadura.

 
No início de 1972, Carrion conheceu Elvira Ballester Lafertt – que tornou-se sua companheira de vida – e sua filha Maria Victoria, então com sete anos.

Através de Elvira e de sua família (que era ligada ao PC do Chile), Carrion teve contato com os principais dirigentes do PC do Chile – Luis Corvalán, Volodia Teitelboim, Mireya Baltra e outros –, o que muito ajudou o trabalho de solidariedade internacional à luta do povo brasileiro.
Chamado pela mãe de Elvira de “Rúcio” (que em castelhano significa “Ruivo”), Carrion adotou esse apelido como seu “codinome” no Chile. É desnecessário dizer que a ditadura militar brasileira além de transformar a embaixada em um centro de espionagem, buscava infiltrar os seus agentes entre os exilados, fazendo com que a adoção de um “nome de guerra” fosse recomendável. Carrion passou, então, a participar de reuniões e atividades dos exilados e a acompanhar as lutas e mobilizações do povo chileno.


Amplia-se a solidariedade à luta do povo brasileiro contra a ditadura

   

Diógenes Arruda

Dynéas Aguiar

No primeiro semestre de 1972, logo após o início a Guerrilha do Araguaia, o Comitê Central do PCdoB enviou para o Santiago dois importantes dirigentes nacionais – Diógenes Arruda e Dynéas Aguiar – com a tarefa de intensificar a luta no exterior contra o regime militar. Com a sua chegada ao Chile, foi decidido que Carrion permaneceria no Chile, para colaborar com o trabalho de solidariedade internacional, adiando o seu retorno ao Brasil. Foram organizadas, então, diversas atividades de denúncia da ditadura, algumas de grande repercussão. Para proporcionar uma maior amplitude ao trabalho, passou a ser publicado o jornal “La Lucha Popular”.
Em fins de 1972, por determinação partidária, Carrion viajou até a Albânia, representando a juventude do PCdoB em um Congresso Internacional de Juventudes Revolucionárias. Como não possuía passaporte brasileiro, teve que solicitar um documento de viagem chileno para refugiados. Como, por razões óbvias, o vôo não poderia passar pelo Brasil, fez um vôo pela costa do Pacífico, cuja última parada foi na Venezuela. De lá, o voo fez uma escala em Dakar, de onde seguiu para Paris. De Paris, Carrion, depois de encontrar-se com Diógenes Arruda, tomou um vôo para Tirana, capital da Albânia.
Na Albânia, além de participar do Congresso – onde se pronunciou em nome da juventude comunista brasileira – Carrion permaneceu cerca de um mês, conhecendo a sua experiência de construção socialista, visitando locais históricos, fábricas, cooperativas e universidades, além de acompanhar um curso de duas semanas sobre o a revolução albanesa.
Ao visitar a Rádio Tirana, reencontrou um antigo companheiro da Ação Popular – a quem havia, nos anos 60, ajudado a cruzar a fronteira com o Uruguai –, que trabalhava com a esposa nas transmissões da Rádio Tirana, em português, para o Brasil.
No seu retorno, Carrion fez uma nova escala em Paris, onde teve a oportunidade de se encontrar com o seu irmão Eduardo e sua esposa Maria Conceição, que ali faziam uma pós-graduação. De volta ao Chile, Carrion retomou as atividades de solidariedade com a luta do povo brasileiro e de denúncia da ditadura militar.

A preparação do golpe militar no Chile

O Chile passava por momentos de suma gravidade. As forças de direita e os EUA articulavam o golpe de Estado contra Allende. Os documentos desclassificados comprovam que o temor dos EUA é que o Chile chegasse ao socialismo através de eleições democráticas...
No primeiro ano do governo Allende, o PIB havia crescido 8,5%, o desemprego baixara 4% e os trabalhadores haviam aumentado de 51 para 63% a sua parcela na renda nacional. Esses avanços se refletiram nas eleições municipais de 1971, quando a Unidade Popular obteve 50,2% dos votos. As eleições seguintes, para o parlamento, ocorreram em 4 março de 1973. Ainda que a Unidade Popular não tenha obtido a maioria, teve uma nova vitória, conquistando 43% dos votos e acabando com as esperanças da direita de ter maioria suficiente para destituir Allende. Um Informe da CIA, de 06.03.1973, dizia: “Estamos discutindo futuras opções à luz dos decepcionantes resultados eleitorais, que permitirão a Allende e à UP levar adiante o seu programa com maior força e entusiasmo.”
Os golpistas decidiram, então, acelerar a preparação do golpe e desestabilizar a economia chilena. Para isso, suspenderam todo e qualquer investimento, refrearam a produção; causaram o desabastecimento de produtos de primeira necessidade, ocultaram produtos para vendê-los a preços exorbitantes no “mercado negro”, especularam contra a moeda chilena, bloquearam os empréstimos externos ao Chile, financiaram greves de caminhoneiros com dólares da CIA, desataram uma campanha midiática implacável contra o governo e aliciaram altos oficiais das Forças Armadas para o golpe.
Para enfrentar o desabastecimento, o governo criou as “Juntas de Abastecimento e Preços” (JAPs) nas vilas e nos bairros, onde as famílias inscritas tinham direito a uma “cesta” de produtos básicos a um preço tabelado. Essa iniciativa, de profundo sentido social, foi apresentada pela imprensa como “mais um passo em direção ao comunismo”.
Falando sobre essa “guerra econômica” contra o governo Allende, o ex-agente da CIA Philip Agee afirmou, anos depois: “a CIA, ao financiar os caminhoneiros, comerciantes e outras associações contra o regime de Allende, pôde criar a aparência de caos e desorganização, que sempre atrai os líderes militares de direita, já que estes sempre advogam por ordem e disciplina. O quadro faria com que eles interviessem para restaurar a ordem, a paz e a dignidade da nação.” E o Informe Church revela que “a CIA gastou mais de um milhão e meio de dólares para apoiar El Mercúrio, o principal jornal do país e o mais importante canal de propaganda contra Allende.”
No contexto dessa escalada golpista, aconteceu no dia 29 de junho o “Tancazo” – uma tentativa de golpe a partir do Batalhão Blindado comandado pelo Coronel Souper, que só foi abortado devido à atitude firme do comandante-em-chefe do Exército – General Prats –, que percorreu os quartéis reunindo forças para deter os golpistas. Em 26 de julho, foi assassinado com um tiro o comandante Arturo Araya, ajudante naval do Presidente. Depois do golpe, se soube que o seu assassinato foi obra do grupo terrorista de ultra-direita Pátria y Libertad.
Mas, era preciso afastar o General Prats, o último obstáculo ao golpe. E isso foi conseguido através da sua renúncia, em 23 de agosto, depois de fortes pressões. Em seu lugar assumiu o General Pinochet. Estava aberto o caminho para o golpe, que veio a ocorrer 19 dias depois, sob o comando do próprio Pinochet.

O golpe fascista de Pinochet e o exílio na Argentina

No início de 1973, concluído um ano do seu curso de Química na UCC, Carrion suspendeu a matrícula, para dedicar-se integralmente ao trabalho partidário. Para renovar o visto, conseguiu através de conhecidos uma declaração do Partido Socialista de que trabalhava no seu jornal. Encaminhados os papéis, foi marcado o dia 11 de setembro para a retirada do seu novo visto.
O dia 11 de setembro amanheceu com o Palácio La Moneda sendo bombardeado pela aviação golpista. Poucas horas depois, Salvador Allende estava morto, o golpe consumado e iniciaram as prisões e os assassinatos. Em conseqüência, no próprio dia do golpe, Carrion – que obviamente não foi buscar o seu visto – ficou ilegal no Chile.
Depois de alguns dias aguardando os acontecimentos, na expectativa de que surgisse alguma resistência ao golpe, os militantes do PCdoB que estavam em Santiago tomaram a decisão de buscar asilo na Embaixada Argentina. Isso se fez necessário diante da campanha nas rádios e TVs conclamando a população a denunciar os “estrangeiros” e “subversivos” que conhecesse, em um verdadeiro processo de incentivo à delação coletiva.
Além de Carrion, se encontravam em Santiago Diógenes Arruda, sua companheira Tereza Costa Rego, Amarílio Vasconcelos e sua esposa Raquel. Dynéas Aguiar havia viajado recentemente para a Buenos Aires, com o objetivo de acompanhar o novo quadro que se havia criado na Argentina com a vitória do peronista Héctor Cámpora, nas eleições presidenciais de maio de 1973.
Foi acertado que Teresa – cuja vinculação ao PCdoB não era conhecida – permaneceria em Santiago, no apartamento de Elvira. Assim, Carrion, Arruda, Amarílio e Raquel asilaram-se na Embaixada Argentina. Poucos dias depois, o apartamento de Elvira foi invadido e vasculhado por militares armados. Elvira e Teresa, depois de interrogadas, foram deixadas em paz. Não é difícil imaginar o que teria acontecido se Carrion ainda estivesse no apartamento...
Na Embaixada Argentina, estavam refugiados mais de 400 brasileiros, número que aumentava a cada dia que passava. Lá tiveram que permanecer durante quase dois meses, em condições precárias, dormindo no chão e preparando as suas próprias refeições. Héctor Cámpora, recém eleito, negou-se a conceder-lhes o asilo solicitado e só permitiu a sua entrada na Argentina depois que o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) garantiu que lhes conseguiria asilo em outros países.

O irmão Francisco, Rejane e as irmãs Otília e Vera viajaram até Empedrado para encontrar com Raul.

Após esse acerto, os asilados foram levados, para Empedrado, na Província de Corrientes, onde ficaram alojados em um hotel. Só em fins de dezembro – quando Perón já assumira a Presidência – os refugiados puderam ir para Buenos Aires, sendo alojados em um prédio público desocupado, na Calle Combate de los Pozos. Perón, porém, manteve a decisão de não conceder asilo aos refugiados brasileiros.
Só então, Carrion pôde reencontrar Elvira e Maria Victória, que haviam permanecido em Santiago e viajaram para Buenos Aires. Depois de demorados trâmites junto ao ACNUR, quando estava tudo acertado para que Carrion, Elvira e Maria Victória viajassem para a França – que lhes havia concedido asilo político e bolsas de estudos –, Carrion comunicou ao Partido a decisão sua e de Elvira de permanecerem na Argentina, para mais facilmente retornar ao Brasil e prosseguir a luta contra a ditadura. Levando à prática essa decisão, Carrion desligou-se do ACNUR, saiu do alojamento disponibilizado pelo governo argentino e mudou-se com Elvira e Maria Victória para a casa de amigos da esquerda argentina que os acolheram.
Durante os meses em que ficaram aguardavam os trâmites do ACNUR, Carrion, Diógenes Arruda, Dynéas Aguiar, Amarílio, Raquel, Carlos e Loreta Valadares e outros militantes do PCdoB que estavam em Buenos Aires organizaram uma base do PCdoB que entre outras atividades realizou um curso de marxismo, ministrado por Diógenes Arruda.
Apesar de ter ficado em situação irregular na Argentina, Carrion conseguiu – por meio de companheiros da esquerda argentina – um trabalho na Livraria Hernandez, na Calle Corrientes. Para dar cobertura à sua permanência no país, viajou até Colônia de Sacramento, no Uruguai, retornando com um visto de turista (que não lhe autorizava trabalhar), válido por três meses e renovável por outros três meses. A partir de então, precisou viajar a cada seis meses ao Uruguai ou ao Paraguai, retornando como turista e renovando o seu visto três meses depois.
Também por indicação de conhecidos argentinos, Elvira conseguiu um trabalho de tradução de textos técnicos russos, recebendo por tarefa. Alguns meses depois, obteve emprego em uma indústria química, com o que pôde receber um visto provisório para fins de trabalho. Com ambos trabalhando, foi possível alugarem um pequeno apartamento para morar e matricularem Maria Victoria em uma escola pública.
Depois que Arruda, Teresa, Amarílio e Raquel viajaram para a Europa, os que ficaram na Argentina – entre ele Dynéas Aguiar – mantiveram a base partidária funcionando e passaram a fazer o trabalho de denúncia dos crimes da ditadura e de divulgação da luta do povo brasileiro, formando o “Comité de Solidaridad con la Lucha de los Pueblos Latino Americanos” e publicando o “Noticiero Brasilero”.
Visando criar melhores condições para o seu retorno ao Brasil, Carrion matriculou-se em um curso de eletrônica nas “Escuelas Técnicas Industriales – IADES”, formando-se técnico eletrônico no início de 1976. Elvira realizou um curso de português, incluindo dicção. A partir de sua formatura como técnico eletrônico, Carrion saiu da Livraria Hernandez e abriu uma pequena oficina de consertos, para ganhar experiência prática e preparar o seu retorno ao Brasil.

A crise argentina e o golpe de Videla

A Argentina vivia – como toda a América Latina – um período de grande instabilidade política. Para compreendê-la, é preciso voltar um pouco no tempo. Depois dos dois governos de Juan Domingo Perón (1946-51 e 1952-55), a Argentina havia vivido uma sucessão de governos militares, com pequenos intervalos civis. Com a deposição de Perón em 1955, assumiu o poder o general Aramburu, que governou até 1958, A ele lhe seguiu o governo civil de Arturo Frondizi (1958-62), derrubado por outro golpe militar. O presidente provisório, José Maria Guido, (1963-63) teve como sucessor Arturo Illia (1963-66). Em 1966, os militares argentinos deram um novo golpe, colocando no poder o general Ongania (1963-70). Este dispensou qualquer Constituição e governou como ditador, com base no Estatuto de la Revolución Argentina. Durante o seu governo, surgiram diversas organizações que optaram pela luta armada contra o regime – como o Ejército Revolucionário del Pueblo (ligado ao PRT) e Los Montoneros. Deposto em 1970, Ongania foi substituído pelo general Levingston, deposto em 1971 pelo general Lanusse, que convocou eleições para 11 de maio de 1973.
Estando Perón proibido de concorrer e exilado na Espanha, os peronistas formaram uma chapa com Héctor Cámpora, presidente, e Solano Lima, Vice. Sob o lema “Cámpora ao governo, Perón ao poder”, essa chapa venceu com 49,6% dos votos.
A primeira medida de Cámpora foi a anistia e o indulto, tanto para Perón como para os chefes das organizações armadas que lutavam contra o regime. Assim, em 20 de junho, após 18 anos de ausência, Perón retornou à Argentina e calcula-se que três milhões de argentinos o aguardaram ao longo do percurso entre o aeroporto de Ezeiza e Buenos Aires. Um conflito, inclusive armado – entre militantes Montoneros e militantes da burocracia sindical peronista, que aguardavam Perón no aeroporto –, deixou 13 mortos e 380 feridos, forçando Perón a descer em outro aeroporto.
Poucos dias depois, Cámpora convocou novas eleições para 21 de setembro, já com Perón anistiado, podendo participar delas. Nessas eleições, Perón concorreu tendo como vice sua esposa Maria Estela de Perón (“Isabelita”). Sua vitória foi avassaladora, com 62% dos votos, e Perón assumiu a presidência no dia 14 de outubro de 1973.
Em revide à morte de seus militantes no confronto ocorrido em Ezeiza, quando chegou Perón, os Montoneros assassinaram no dia 25 de setembro o secretário-geral da CGT, José Ignácio Rucci. A partir de então, explodiu um confronto aberto e “à morte” entre a ala sindical do peronismo e os Montoneros, causando vítimas de ambos os lados.
Em 1º de julho de 1973, Juan Domingo Perón faleceu e assumiu em seu lugar Maria Estela de Perón, que pouco depois aliou-se a José Lopez Rega (“el Brujo”), da burocracia sindical peronista, o qual criou a “Triple A” (Alianza Anticomunista Argentina) para o extermínio físico dos Montoneros e dos militantes do ERP, mas que logo colocou toda a esquerda como alvo.
Durante o ano de 1975, em torno de 700 pessoas, a maioria de esquerda, foram vítimas de crimes políticos. Seqüestradas em suas casas ou nas ruas, os seus cadáveres apareciam crivados de balas ou parcialmente queimados, com marcas de torturas.
Em certa ocasião, Carrion teve um encontro com dois jovens de uma organização de esquerda argentina. Dois dias depois, tomou conhecimento pelos jornais que ambos haviam sido assassinados pela “Triple A” e seus corpos explodidos por bombas, junto com outras vítimas.
Em 24 de março de 1976, o general Videla, o almirante Massera e o brigadeiro Agosti deram um novo golpe militar e destituíram o desgastado governo de Isabelita Perón, instaurando uma ditadura terrorista, com o objetivo declarado de “destruição das organizações subversivas mediante a eliminação física de seus membros”, assassinando mais de 30 mil opositores. Durante essa ditadura fascista, os “voos da morte”, torturas seguidas de assassinato, vítimas queimadas vivas, bebês recém nascidos entregues a militares sem filhos, foram algumas das atrocidades realizadas contra o povo argentino.
Em 1981, Videla foi substituído pelo general Viola. Nesse mesmo ano, uma junta militar o destituiu e colocou o General Galtieri (1981-82). Este provocou a Guerra das Malvinas e, depois de derrotado pelos ingleses, foi substituído pelo general Bignone. Diante do profundo desgaste dos militares – Bignone decidiu entregar o governo aos civis e convocou eleições para 1983, as quais foram vencidas pelo “radical” Raúl Alfonsin (1983-87), retomando o ciclo civil.

O retorno clandestino de Carrion ao Brasil

Com a irmã Vera, Buenos Aires, 1976.

A instalação da ditadura terrorista de Videla, em março de 1976, tornou inviável a permanência de Carrion na Argentina, inclusive pela situação irregular em que se encontrava. Em junho de 1976, depois de conversar com Elvira – Carrion comunicou a Dynéas Aguiar a sua decisão de retornar ao Brasil. Da mesma forma, informou aos seus pais e à sua irmã Otilia Beatriz – que viajaram a Buenos Aires – dessa decisão. Por razões de segurança, foi acertado que Elvira e Maria Victória permaneceriam em Buenos Aires, até haverem condições para irem para o Brasil.
No Brasil, a situação era extremamente difícil, pois a Guerrilha do Araguaia fora derrotada no início de 1975 e – após o aniquilamento de todas as organizações foquistas – o PCdoB estava sob ataque concentrado da repressão.
Antes de retornar ao Brasil, Carrion acertou com Elvira um esquema indireto de comunicação por carta e com Dynéas Aguiar um sistema de “pontos” com a direção do PCdoB na cidade de Santos/SP. Decidiu, então, entrar no Brasil pela cidade de Libres, fronteira com Uruguaiana no Brasil.
Como, nessa época, em qualquer viagem de ônibus era exigida a apresentação de um documento de identificação – e os únicos documentos que Carrion possuía eram os originais e tudo indicava que o seu nome constava como “procurado” –, ele optou por fazer o trajeto entre Uruguaiana e Santos por trem, onde não havia essa exigência.
Assim, depois de atravessar a fronteira Libres-Uruguaiana, iniciou uma longa viagem de trem até Santos, com escala às noites em Santa Maria/RS, Marcelino Ramos/RS, Porto União/SC, Ponta Grossa/PR, e Ourinhos/SP. Depois de gastar cinco dias de viagem até Ourinhos, Carrion resolveu arriscar e seguiu de ônibus até Santos. Felizmente, tudo correu bem e ele chegou a Santos sem problemas.
Ali, alugou um quarto, em uma pensão, para morar e no dia e horário marcados foi ao “ponto” previamente acertado com Dynéas Aguiar. Nele, para sua surpresa, encontrou o mesmo ex-companheiro de AP que havia reencontrado na Radio Tirana, quando de sua viagem á Albânia. Uma vez estabelecido o contato com o PCdoB no Brasil, Carrion teve diversas conversas em São Paulo com membros do Comitê Central – entre eles Sérgio Miranda, Haroldo Lima e Pedro Pomar. Durante os meses que permaneceu em São Paulo, providenciando uma documentação falsa e aguardando a definição para onde ir, Carrion trabalhou como técnico eletrônico em Santos e em Campinas.

A CTPS em nome de Silvio Augusto Ferreira.

Nesse período, Carrion viajou para o Rio de Janeiro e Curitiba, com o objetivo de conseguir uma documentação em outro nome. Em uma de suas viagens à Curitiba – onde foi buscar uma certidão de nascimento para tramitar a sua nova identidade – marcou um encontro sua irmã Otília Beatriz, com quem havia combinado um local fixo de encontro e uma maneira de marcar, por carta, de forma cifrada, a data e o horário do encontro. Essa combinação foi essencial para, após a queda da Lapa, retomar o contato com a família e com o PCdoB.
Em outubro de 1976, por definição do Comitê Central, Carrion mudou-se para Goiânia, onde passou a residir, e fez “legalmente” uma nova documentação, em nome do “paranaense” Sílvio Augusto Ferreira. Poucos dias depois, conseguiu emprego em uma empresa de consertos de equipamentos eletrônicos.
Em novembro, na data previamente marcada para o “ponto” com o Partido em Goiânia, Carrion encontrou-se com João Batista Drummond – a quem não conhecia nem sabia o nome –, membro do Comitê Central e principal dirigente do PCdoB em Goiás. Depois de conversarem, foi marcado um novo “ponto”, dentro de 30 dias, a ser repetido mensalmente se por algum motivo um dos dois faltasse.


A Queda da Lapa e a perda de contato com o Partido


No mês de dezembro, na data marcada, somente Carrion compareceu ao “ponto”. Alguns dias depois, tomou conhecimento – através do jornal alternativo Movimento – da “Chacina da Lapa” e do assassinato de três dirigentes nacionais do PCdoB: Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Baptista Franco Drummond. Pelas fotos, constatou que Drummond era o dirigente com quem havia mantido contato em Goiás e que – graças ao seu comportamento revolucionário frente às torturas, o “ponto” marcado com ele não havia sido denunciado.

A Chacina da Lapa, que em 1976, vitimou, entre outros, João Batista Drummond.
 

Sem qualquer outro contato em Goiás ou com o Comitê Central, Carrion ficou completamente isolado do Partido. Buscou, então, retomar o contato com o PCdoB através de Elvira – que permanecia na Argentina e tinha contato direto com Dynéas Aguiar –, através do sistema indireto de correspondência acertado.
Em fevereiro de 1977, Elvira viajou com Maria Victória para Porto Alegre, onde permaneceu por alguns dias e teve contato com a família de Carrion. Em julho de 1977, Carrion viajou até Curitiba para encontrar-se com Elvira – que veio diretamente de Buenos Aires –, com sua mãe e sua irmã Otília. Após esse encontro em Curitiba – que serviu para restabelecer os contatos com a família e, de forma indireta, com o partido – Carrion viajou com Elvira para o Rio de Janeiro, onde passaram alguns dias juntos. Depois, foram até São Paulo, de onde Elvira seguiu para Buenos Aires e Carrion regressou a Goiânia.
Em Goiânia, Carrion filiou-se ao sindicato dos metalúrgicos, ao mesmo tempo que procurou aglutinar os técnicos eletrônicos, organizando a Associação dos Técnicos em Eletrônica (ASTEC), a qual, além de defender as reivindicações específicas dos técnicos eletrônicos, realizava cursos e editava um Boletim.
Admirador, desde muito tempo da arte-luta-dança da capoeira, Carrion aproveitou a sua estada em Goiânia para praticar capoeira na Academia de Capoeira Regional Mestre Osvaldo de Souza – discípulo de Mestre Bimba –, obtendo a graduação do Lenço Azul, em dezembro de 1977.
Através da empresa onde trabalhava, Carrion participou de um curso da Philco e pouco depois foi convidado a assumir a direção técnica da empresa. Para isso precisava, porém, comprovar o segundo grau completo. Como não possuía qualquer documentação referente a estudos, resolveu realizar o exame de madureza de 2º grau, fazendo todas as matérias de uma só vez. Obteve a aprovação em todas as disciplinas e recebeu o certificado de conclusão do 2º grau.
Poucos dias depois, quando se encontrava no trabalho. Carrion foi informado pelo seu patrão que a Polícia Federal estava na empresa, para entregar-lhe uma intimação. O primeiro que lhe passou pela cabeça é que havia sido descoberto. Mas, depois, pensou melhor e concluiu que nesse caso não teria sido intimado e sim preso sem maiores explicações. Decidiu, então, receber a intimação – que não esclarecia os motivos – e comparecer à Polícia Federal.
Como precaução, procurou lideranças do MDB em Goiás e explicou que quando morava no Paraná havia-se envolvido em movimentos contra a ditadura e temia que sua convocação pela PF tivesse algo a ver com isso. Solicitou, então, que um advogado lhe acompanhasse no depoimento à PF. Lá chegando, tomou conhecimento que havia ocorrido uma fraude nos referidos exames e – como havia passado em todas as provas de uma só vez – existia a suspeita de que tivesse participado dessa fraude. Esclarecido a razão da intimação, Carrion conseguiu provar a sua inocência, inclusive apresentando os cálculos e os rascunhos que havia feito durante as provas. Assim, foi inocentado, graças ao seu sangue frio.

Viagem à Buenos Aires para retomar o contato com o Partido

Em fins de 1977, Carrion recebeu carta cifrada de Elvira, solicitando a sua ida até Buenos Aires para encontrar o “Careca” – codinome pelo qual Dynéas Aguiar era conhecido. Pediu demissão do emprego – alegando a necessidade de retornar ao Paraná para resolver problemas familiares – e viajou para a Argentina, com sua nova documentação, por terra, no início de 1978.
Em Buenos Aires, além de reencontrar Elvira e Maria Victória, reuniu-se com Dynéas Aguiar e Sérgio Miranda que lhe informaram a preparação da 7ª Conferência e trataram de como retomar o contato do Comitê Central com o Partido no Rio Grande do Sul. Ficou acertado que Carrion viajaria a Porto Alegre, para estabelecer um sistema de “pontos” mensais, para a retomada do contato do CC com o PCdoB no Rio Grande do Sul. Também foi acertada um sistema de “pontos” mensais em Goiânia, para o Partido poder contatá-lo no Brasil.
Carrion viajou, então, para Porto Alegre onde contatou a direção estadual do PCdoB através de José Freitas e estabeleceu a sistemática de “pontos” acertada com Dynéas. Tomando todas as precauções possíveis, aproveitou para rever os seus familiares em Porto Alegre. Após, retornou a Goiânia, voltando a trabalhar na empresa onde havia pedido demissão.
Era o início de 1978. Desde então, Carrion cobriu religiosamente o ponto mensal combinado com Dynéas. Passou todo o ano de 1978 e “nem sinal de vida”. No início de 1979, Carrion e Elvira decidiram que era chegado o momento de retomarem a vida familiar e acertaram a sua vinda e de Maria Victoria para Goiânia. Elvira pediu as contas no emprego, entregou o apartamento, se desfez de todas suas coisas e viajou com Maria Victória para São Paulo, em janeiro de 1979, onde Carrion as encontrou. Depois de alguns dias juntos em Santos e em São Paulo, seguiram para Goiânia – onde Carrion havia alugado uma pequena casa – e retomaram a vida em comum, matriculando Maria Victoria em uma escola pública.
Em julho de 1979, para obter um novo visto de turistas e regularizarem a sua situação no Brasil, Elvira e Maria Victoria tiveram que viajar até a Argentina, de lá retornando ao Brasil como turistas.
Em setembro de 1979, já com a Anistia aprovada e sem qualquer contato com o Partido há mais de um ano e meio Carrion e Elvira decidiram retornar ao Rio Grande do Sul. Com os devidos cuidados, Carrion acertou com a família a sua volta a Porto Alegre.
Em outubro de 1979, já com tudo acertado para a viagem, Dynéas Aguiar apareceu no ponto combinado, “de mala em punho”, transgredindo as mais elementares normas de segurança. Diante da proposta de Dynéas de permanecer em Goiás, Carrion ponderou que não tinha militância política em Goiás nem era pessoa conhecida e que o sindicato a que pertencia era inoperante; portanto, o mais lógico era retornar a Porto Alegre, onde tinha raízes e era conhecido. Além do mais, o seu retorno já estava encaminhado e já não havia como dar volta atrás.

O retorno a Porto Alegre e a militância na categoria metalúrgica

De volta a Porto Alegre, Carrion logo conseguiu emprego na ELETRÔNICA OWADA e filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, onde o PCdoB tinha uma forte atuação, tendo como principal liderança José Ouriques de Freitas, antigo companheiro de AP.
Carrion teve, então, que optar entre duas alternativas: permanecer trabalhando na categoria metalúrgica e contribuir na construção do PCdoB entre os metalúrgicos e a classe operária; ou retomar os estudos e envolver-se na luta política institucional. Diante da opinião de Dyneas Aguiar de que devia continuar atuando no movimento operário, Carrion não retomou os estudos e continuou trabalhando como técnico eletrônico na categoria metalúrgica.
Depois de algum tempo na ELETRÔNICA OWADA, Carrion passou a trabalhar na CGR-CBR – multinacional francesa da área de eletro-medicina – que mantinha uma pequena filial em Porto Alegre, para instalar e dar manutenção aos Tomógrafos Computadorizados e aparelhos de Raios X e Ultrassom por ela vendidos.
Em dezembro de 1981, tendo em vista as próximas eleições para o sindicato, Carrion pediu demissão na CGR e passou a trabalhar (com um salário menor) na MULTIDIGIT – empresa de porte médio, localizada no Distrito Industrial de Gravatai, junto à DIGICON. Na MULTIDIGIT, Carrion implantou a linha de produção do primeiro disco rígido (Winchester) fabricado no Brasil e coordenou a sua produção. Logo que pôde, organizou a Associação dos Funcionários da DIGICON e da MULTIDIGIT e criou “O Olhão”, órgão de divulgação da AFDM. Em pouco mais que três meses, 90% dos funcionários das duas empresas já faziam parte da Associação, que realizava atividades sociais, esportivas e culturais, fortalecendo a união e a integração entre os funcionários. Da mesma forma, incentivou a sindicalização nessas empresas.
Nas eleições de 1982 para o sindicato dos metalúrgicos, foi candidato a Tesoureiro na chapa de oposição, que tinha como candidato a presidente José Freitas (PCdoB) e como Secretário Geral Jairo Carneiro (PT). Em um pleito extremamente acirrado, a chapa de situação venceu no segundo turno, por uma diferença de apenas 180 votos, em uma categoria com mais de 50 mil trabalhadores.
Passadas as eleições, Carrion voltou a trabalhar na CGR-CBR, retomando as suas antigas funções. Ali permaneceu até maio de 1984, quando as atividades dessa empresa foram encerradas no Rio Grande do Sul. Por decisão partidária, ficou em tempo integral ajudando no trabalho da direção estadual.
Em 1985, Carrion passou a trabalhar na empresa NARCOSUL, no Bairro Anchieta, que produzia equipamentos de eletro-medicina –, assumindo a coordenação da produção na área eletrônica. Em pouco tempo, a maioria dos trabalhadores foi sindicalizada e a NARCOSUL se tornou uma das empresas mais mobilizadas da categoria. Nas eleições para a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), Carrion foi o mais votado, tornando-se o seu Vice-Presidente (o Presidente é sempre indicado pela empresa).
Nas eleições de 1985 para o Sindicato, Carrion voltou a ser o candidato à Tesoureiro na chapa de oposição liderada por José Freitas. Infelizmente a oposição dividiu-se e a chapa de situação foi vitoriosa.
Na greve de 1986 – em que metalúrgicos de Porto Alegre foram a primeira categoria operária do Rio Grande do Sul a conquistar a redução da jornada de trabalho – Carrion participou da Comissão de Salários (pela quarta vez) e do Comitê de Greve. Nessa ocasião, a NARCOSUL paralisou completamente, sem necessidade sequer de um piquete e ainda foi essencial para a paralisação das demais metalúrgicas do Bairro Anchieta.
Encerrada a greve com uma vitória parcial, a direção da NARCOSUL passou a perseguir Carrion, situação que se acirrou ainda mais quando a empresa foi acionada na Justiça pelo sindicato para pagar os adicionais de insalubridade e periculosidade. Não podendo simplesmente demiti-lo – devido à sua estabilidade como membro da CIPA –, primeiro contrataram um ex-policial militar para vigiá-lo ostensivamente. Após, o afastaram da produção e colocaram “de castigo” na área administrativa, com a tarefa de elaborar a “ficha técnica” dos equipamentos produzidos.
Por fim, em janeiro de 1987, lhe aplicaram uma “justa causa” infundada e o afastaram da empresa. Todas as medidas legais foram infrutíferas para conseguir o seu retorno.
Quando chegou a nova eleição da CIPA, Carrion obteve uma liminar para retornar à empresa e poder concorrer, sendo novamente o mais votado entre os trabalhadores, em eleição acompanhada pela Superintendência Regional do Trabalho. A empresa, porém, registrou como nulos os votos recebidos por ele e o afastou definitivamente. Só dez anos depois a justiça do trabalho lhe deu ganho de causa e declarou nula a referida “justa causa”. Perseguido e “marcado” pela classe patronal, Carrion não conseguiu mais emprego na categoria metalúrgica.
Durante os anos 80, o PCdoB desenvolveu um forte trabalho entre os metalúrgicos da Grande Porto Alegre e José Freitas, Raul Carrion e João Carlos Moraes, entre outros, foram importantes lideranças da Oposição Sindical, sendo inúmeras vezes eleitos para suas Comissões de Salários – que negociavam o Dissídio junto com a Diretoria do Sindicato –, Comitês de Greve, delegações a congressos sindicais, etc.
Nesse período, Carrion participou ativamente das lutas e das eleições sindicais de diferentes categorias – metalúrgicos de Canoas, Caxias, Charqueadas e São Leopoldo; petroleiros e petroquímicos; comerciários, municipários, vigilantes, bancários e rodoviários de Porto Alegre, comerciários de Caxias do Sul e Ijuí; trabalhadores do gás e combustíveis do RS; etc. Foi delegado a inúmeros encontros estaduais e nacionais de trabalhadores (ENCLATs, CONCLATs) e esteve presente nos congressos de fundação da Central Geral de Trabalhadores e da Corrente Sindical Classista.

A construção partidária e a luta política e institucional

Na Conferência Estadual do PCdoB do RS, realizada na clandestinidade, em 1981, Carrion foi eleito presidente do PCdoB de Porto Alegre e membro do Comitê Estadual e do seu secretariado – formado ainda por Edson Silva, José Freitas Deo Gomes e João Pozenato.
Nos anos que se seguiram, teve ativa participação na Campanha das “DIRETAS JÁ”, na luta pela legalização do PCdoB – sendo um dos signatários do seu registro – e pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte.
Em 1986, nas primeiras eleições pós-ditadura para o Congresso Nacional, Assembleia Legislativa e Governo Estadual, Carrion foi lançado candidato do PCdoB ao Senado. Mas, como o seu suplente José Loguércio ainda não havia completado 35 anos, a chapa não foi aceita.
Em 1987, afastado da categoria metalúrgica por uma falsa “justa causa”, Carrion foi indicado Chefe de Gabinete da então vereadora Jussara Cony, que nessa ocasião assumiu a bancada do PCdoB na Câmara Municipal. Junto com Jussara, Carrion participou ativamente das lutas por moradia em dezenas de “ocupações” de toda a Região Metropolitana de Porto Alegre, quando milhares de trabalhadores “sem teto” ocuparam os imóveis dos conjuntos residenciais inacabados e abandonados do BNH – na Cohab Rubem Berta, Jardim Leopoldina, Parque dos Maias, Guapuruvu, Humaitá, Guajuviras, Umbu e tantos outros.
Em 1988, Carrion foi candidato do PCdoB à Prefeitura de Porto Alegre – tendo como vice José Loguércio – disputando com Antônio Britto (PMDB), Carlos Araújo (PDT), Guilherme Villela (PDS, PFL, PTB), Olívio Dutra (PT), Fúlvio Petracco (PSB), Sérgio Jockymann (PL) e Ecléa Guazelli (PSDB). Em uma campanha com forte participação cidadã e incontáveis debates na sociedade. Raul Carrion – apesar da absoluta falta de recursos para a campanha – chegou a pontuar 5% da intenção de votos.
Na prática, Carrion, Fúlvio Petracco e Olívio Dutra faziam uma “frente comum” contra os candidatos dos partidos conservadores. Na reta final, o apelo ao “voto útil” e a polarização entre Olívio Dutra, Carlos Araújo e Antônio Britto fez com que as votações de Carrion e de Petracco caíssem muito. Com a vitória de Olívio Dutra, teve início uma série de governos populares que governaram Porto Alegre por 16 anos.
Em 1989, por decisão partidária, Carrion mudou-se para Canoas, importante centro operário do Estado, onde assumiu a presidência do PCdoB e passou a desenvolveu um amplo trabalho partidário e de massas, em especial junto a metalúrgicos, rodoviários, petroleiros e trabalhadores do gás. Da mesma forma, Carrion liderou inúmeras lutas pela moradia nos bairros Mathias Velho, Santo Operário, Guajuviras, Niterói, Rio Branco, e outros. Junto com Lígia Chiarelli (“Biloca”), Geovani Machado, Antônio, Ituriel e outros camaradas –, foi realizado um amplo trabalho de construção do PCdoB em Canoas e em outros 10 municípios do Vale do Sinos.
Ainda em 1989, nas eleições presidenciais, Carrion percorreu o Rio Grande do Sul na campanha LULA PRESIDENTE, da Frente Brasil Popular, acompanhando José Paulo Bisol – candidato a Vice-Presidente – e Luís Inácio LULA da Silva.
Em 1990, Carrion percorreu novamente o Estado – agora como o candidato do PCdoB à suplente de Senador, na Frente Progressista Gaúcha, tendo Matheus Schmidt (PDT) como titular – junto com a chapa ALCEU DE DEUS COLLARES GOVERNADOR, JOÃO GILBERTO LUCAS COELHO VICE-GOVERNADOR, vencedora dessas eleições. Nessa ocasião, Carrion representou o PCdoB na Coordenação de Campanha de Alceu Collares e dirigiu a vitoriosa campanha de Edson Silva à Câmara dos Deputados e Jussara Cony à Assembleia Legislativa.

A experiência à frente da FUNDASUL


Carrion assumiu, em 1991, a presidência da FUNDASUL, instituição com mais de 1.000 funcionários, presente em cerca de 60 municípios, através dos seus Centros Sociais Urbanos. A frente da FUNDASUL – responsável pela promoção social em todo o Rio Grande do Sul – Carrion desenvolveu a gestão “Vida e Cidadania”.
Assim que assumiu, Carrion “enxugou” e racionalizou a estrutura da FUNDASUL. Deixou de preencher 49% dos CCs, valorizando os servidores concursados. Da mesma forma, solicitou o retorno de 104 servidores cedidos e direcionou o quadro funcional para suas atividades fim. Na proposta de Reforma Administrativa encaminhada ao Governador Alceu Collares, Carrion propôs a extinção de 103 CCs, 12 gerências regionais, sete núcleos e três assessorias de diretoria.
Para democratizar a ação da FUNDASUL, Carrion estabeleceu que cada Centro Social Urbano formasse um “Conselho Deliberativo”, com representação das diversas organizações e entidades sociais existentes em sua área de abrangência – associações de moradores, entidades sindicais, clubes de mães, instituições religiosas, esportivas, culturais, etc. –, com a tarefa de contribuir no planejamento e na gestão dos CSUs.
Foi elaborado um novo organograma e a prática de ações compartimentadas por programa – o que levava a múltiplas entradas na mesma comunidade, com sobreposição de esforços desarticulados – foi substituída por uma ação unificada em cada comunidade.
A inovadora “Gestão Vida e Cidadania” contou com a participação do excepcional corpo técnico da FUNDASUL, sob a direção da Socióloga Eridan Magalhães e da Assistente Social Jane Cruz Prates, ambas do PCdoB – que em distintos momentos ocuparam a Diretoria Técnica da FUNDASUL. Muitos outros camaradas cumpriram importante papel nesse trabalho, entre eles Venina Pureza de Freitas, Diorge Konrad, Glaucia, Paulo Wunsch, Arthur Bloise.
No “Informe FUNDASUL”, de agosto de 1991, Carrion explicitou sua concepção de trabalho: “Sem descuidar das atividades assistenciais – emergenciais ou não – mas rompendo com qualquer visão paternalista ou clientelista, ampliamos nossa ação para o terreno da cidadania e assim favorecemos a auto-organização popular, a descoberta das causas da situação em que vive, a consciência de seus direitos e de que só ele, povo, será capaz de alterar essa realidade. (...) Queremos romper com a prática de “só dar o peixe” (paternalista) e mesmo de “ensinar a pescar” (visão tuteladora), avançando para a proposta de “propiciar ao povo que descubra como, onde e quando pescar”.
Durante a sua Presidência, foram desenvolvidos importantes projetos, como “Alimentos para o Povo”, “Vida Centro Humanístico”, “Universidade do Trabalhador”, “Centro de Apoio à Mulher”, “Vida-Vacina”, “Defesa do Consumidor”, “Assistência Jurídica Gratuita”, etc.
No final de novembro, a FUNDASUL realizou o “Fórum Caminhos do Brasil Popular”, com palestrantes de todo o Brasil para debater um projeto para o país, em oposição ao projeto neoliberal de Collor de Melo.
Na “Carta de Porto Alegre”, depois de três dias de debates, foram aprovados questões que ainda hoje conservam atualidade: 1) “Defesa Intransigente da Soberania Nacional e da Integridade Nacional”; 2) “Defesa da Economia e da Produção Nacionais”; 3) “Desprivatização do Estado”; 4) “Reforma Agrária Anti-latifundiária”; 5) “Profunda Democratização e Reforma do Estado Brasileiro”; 6) “Avanços nos Direitos e Conquistas dos Trabalhadores da Cidade e do Campo”; 7) “Reforma Urbana”; 8) “Defesa do Meio-Ambiente e do Eco-sistema”; 9) “Ensino Público, Laico e Gratuíto”; 10) “Acesso Universal, Igualitário e Gratuito à Assistência à Saúde”; 11) “Democratização dos Meios de Comunicação de Massas”; 12) “Fim de quaisquer Discriminações”.
Em fins de 1991, tendo em vista a aprovação pela Assembleia Legislativa de uma “reforma administrativa” que extinguia a FUNDASUL a partir de 31.12.91, Carrion declinou do convite para participar da Direção da nova fundação a ser criada e colocou o seu cargo à disposição, deixando a presidência da instituição no último dia do ano.

Vereador em Porto Alegre (1993-1996)

Ainda em 1991, por orientação partidária e depois de quase três anos de atuação em Canoas, Carrion voltou a residir em Porto Alegre, para ser candidato pelo PCdoB a vereador em 1992. Nessas eleições, o PCdoB concorreu em aliança com o PMDB e elegeu Maria do Rosário vereadora, tendo faltado 125 votos para a eleição de Carrion, que ficou na 1ª suplência.
Como 1º suplente, Carrion ocupou a vereança em várias ocasiões e protocolou vários projetos. Em outubro de 1993, promoveu Sessão Solene em homenagem aos 40 anos da Petrobras e concedeu o Título de Cidadão de Porto Alegre ao ex-deputado federal Euzébio Rocha Fº – autor da emenda que em 1953 estabeleceu o Monopólio Estatal do Petróleo. Da mesma forma, Carrion conseguiu que a “Torre de Petróleo” – colocada em 1963, pelos estudantes gaúchos, na Praça da Alfândega – fosse restaurada e reinstalada em um lugar de maior visibilidade.
No início de 1996, Carrion assumiu de forma definitiva a titularidade do mandato de vereador – devido ao afastamento do Brasil de um dos vereadores do PMDB. Em apenas nove meses de mandato Carrion aprovou 14 projetos, entre eles a proibição do transporte de trabalhadores em veículos de carga; a moratória aos desempregados do pagamento das prestações do DEMHAB; obrigatoriedade dos Centros Comerciais (Shopping Centers) terem um clínico geral e um ambulatório para atendimentos de urgência; proibição do auto-abastecimento (self service) nos postos de combustível (preservando a segurança dos usuários e o emprego dos frentistas); adoção por particulares de praças e equipamentos de esporte, cultura e lazer; autorização e regulamentação da doação dos materiais descartados pela Prefeitura às entidades sociais.
Historicamente vinculado à luta pela moradia e pela Reforma Urbana, Carrion transformou a CMPA uma trincheira em defesa das comunidades ameaçadas de despejo, caso do Jardim Leopoldina, Parque dos Mayas, Fernando Ferrari, Humaitá, Vila Esperança, A. J. Renner, Liberdade, Cosme Galvão, Juliano Moreira, Beco da Solidão, Wenceslau Fontoura, Motel dos Coqueiros, Cristal, Restinga. Para que houvesse recursos para enfrentar esse grave problema, Carrion propôs e aprovou no Orçamento do Município a obrigatoriedade da aplicação de pelo menos 4% em habitação popular.

Graduação em História pela UFRGS e luta no terreno das ideias

Tendo decidido envolver-se a fundo na “luta de idéias” Carrion prestou vestibular em 1995 para o curso de História da UFRGS – classificando-se em 1º lugar – e decidiu não concorrer à reeleição em 1996. Ao concluir o curso em apenas três anos, Carrion graduou-se em 1997 com a monografia “O Partido Comunista do Brasil no Rio Grande do Sul - 1922-1929”, obtendo a nota máxima. Na formatura – por sugestão de Carrion –, foi escolhido como paraninfo o Economista João Pedro Stédile, dirigente nacional do MST.
Ainda em 1995, junto com intelectuais marxistas, de diferentes orientações políticas – como Demétrio Ribeiro, José Fachel, Luiz Roberto Lopez, Gervásio Neves, Luís Dario Ribeiro, Mário Maestri, Florence Carboni, Robert Ponge, Marcus Vinicius Antunes –, Carrion foi um dos fundadores e coordenadores do Centro de Estudos Marxistas do Rio Grande do Sul (CEM-RS), que durante mais de sete anos travou a luta de idéias contra o “pensamento único neoliberal”, hegemônico no Brasil e no mundo, organizando dezenas de debates e publicando quatro livros coletivos – “Luz e Sombras” (UFRGS), “Fios de Ariadne”, “Os Trabalhos e os Dias” e “As Portas de Tebas” (os três pela UPF).
Em 1997, Carrion organizou – junto com prestigiados intelectuais, entre eles Paulo Visentini, Pedro Dutra Fonseca, Luís Dario Ribeiro e Luiz Miranda – o Centro de Debates Econômicos, Sociais e Políticos do Rio Grande do Sul (CEDESP-RS). Dele também faziam parte sindicalistas e representantes de diferentes entidades culturais e sociais.
Nos anos de 1997, 1998 e 1999, o CEDESP-RS realizou na UFRGS três grandes Seminários Internacionais – “Globalização, neoliberalismo, privatizações – quem decide este jogo?”, “Século XXI: Barbárie ou Solidariedade – Alternativas ao neoliberalismo” e “A Crise do Capitalismo Globalizado na Virada do Milênio”. Esses três seminários – que confrontaram o pensamento neoliberal – contaram com mais de dois mil inscritos e tiveram a participação de destacados conferencistas do Brasil, Argentina, Chile, México, Cuba, França, Inglaterra Espanha, Portugal, Bélgica, Índia e China. Essas conferências foram reunidas em três livros homônimos, publicados pela Editora da UFRGS, tendo como organizadores Raul Carrion e Paulo Fagundes Vizentini.
Em 1999, o CEDESP-RS organizou na UFRGS o debate “Globalização e neoliberalismo”, com o Professor e cientista social James Petras, da Universidade do Estado de Nova York, ensejando o lançamento de seu livro “Neoliberalismo - América Latina, Estados Unidos e Europa”.
Os seminários do CEDESP-RS prepararam o terreno para o Fórum Social Mundial. Foi através desses seminários que Bernard Cassen e Ignácio Ramonet – do Le Monde Diplomatique – vieram ao Rio Grande do Sul pela primeira vez e estabeleceram contatos com a Prefeitura de Porto Alegre e depois com o Governo Olívio Dutra, ponto de partida para a articulação do 1º FSM.
Carrion não só fez parte do Comitê Local organizador do 1º FSM, como – quando de sua viagem à Havana, em 2000, para participar do “II Encontro Mundial de Amizade e Solidariedade com Cuba”, – manteve contatos com diversos dirigentes cubanos, convidando-os a participarem no FSM. Nessa ocasião, também foi ao México e manteve contatos com esse mesmo objetivo na Universidade Autônoma do México.
Nos Fóruns Sociais Mundiais de 2001, 2002 e 2003, realizados em Porto Alegre, o CEDESP-RS esteve presente através dos seminários internacionais – “A Resistência à Globalização Neoliberal”, “Guerra, Terrorismo e Ameaça à Democracia” e “O Novo Brasil no Contexto Mundial”, respectivamente. Esses seminários contaram com mais de 1.000 inscritos e com a participação de prestigiados conferencistas do Brasil, Argentina, Chile, Equador, Colômbia, Venezuela, Cuba, Estados Unidos, Portugal, Bélgica, Egito, Índia e Vietnã.
Em janeiro de 2003, Carrion representou a Câmara Municipal de Porto Alegre na Mesa de Abertura do III Foro de Autoridades Locais pela Inclusão Social. Em seu pronunciamento, Carrion disse que “apesar das afirmações dos ideólogos do capital de que com a vitória do neoliberalismo a história havia acabado e que ingressaríamos em uma nova época de paz, democracia e progresso para os povos, nunca como hoje foram tão grandes os riscos à paz mundial, as restrições à democracia e aos direitos civis, a estagnação econômica e o retrocesso social.” E encerrou: “Por tudo isso, a defesa da PAZ, da DEMOCRACIA, da AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS são nos dias de hoje bandeiras de toda a humanidade.”
Em 2003 – durante o seu mandato – Carrion cursou na FAPA (Faculdades Portoalegrenses) o Curso de Especialização em História Afro-Asiática. O seu trabalho de conclusão – orientado pela Profª. Analúcia Danilevicz – foi “A Construção do Socialismo na China e as Reformas Econômicas Pós-Revolução Cultural”, no qual obteve a nota máxima.
No primeiro semestre de 2004, Carrion organizou no Rio Grande do Sul o Instituto Maurício Grabois (IMG-RS) e realizou o Seminário “Avanços e impasses do Novo Brasil”, com a participação de prestigiados pensadores do Rio Grande do Sul e do Brasil, entre os quais o Darc Costa (Vice-Presidente do BNDES), Haroldo Lima, Paulo Visentini e Pedro Fonseca, lotando o Plenarinho da Assembleia Legislativa do RS.

Servidor concursado do MPE e vereador de Porto Alegre

Em 1998, Carrion prestou concurso para o Ministério Público Estadual. Aprovado, assumiu suas funções como servidor do MPE, em janeiro de 1999. No final desse ano, foi cedido à Assembleia Legislativa, a pedido da então deputada Jussara Cony, passando a exercer no parlamento gaúcho a Coordenação da Bancada do PCdoB.
Nas eleições de 2000, Carrion foi candidato do PCdoB a vereador de Porto Alegre, tendo sido eleito com 8.405 votos, a 8ª maior votação da cidade. Na ocasião, a coligação PT-PCdoB-PSB-PCB elegeu Tarso Genro Prefeito de Porto Alegre. Em fevereiro de 2001, Carrion assumiu por segunda vez a Presidência do PCdoB de Porto Alegre.
Já no primeiro mês do seu mandato, Carrion foi eleito Presidente da Comissão de Urbanismo, Transporte e Habitação (CUTHAB) e abraçou de imediato, no que seria sua marca permanente, a defesa das comunidades ameaçadas ou em situação de despejo – como o Parque dos Maias, Vitória da Conquista, Ipê Glória, Jardim Marabá, Chácara da Fumaça, Vila dos Ferroviários, Mariano de Mattos, Vila Maria, Estrada dos Alpes, Unidão, Vila Athênis, São Judas Tadeu, Travessa do Banco Central, Rua Malvina e Condomínio Weinstein.
Na CUTHAB, Carrion também teve de atender grande número de comunidades que enfrentavam problemas de moradia, transporte e carência de equipamentos públicos – como Vila Cruzeiro, Vila Farrapos, Jardim das Colinas, Cohab Costa e Silva, Estaleiro Só, Foz do Arroio Cavalhada, Túnel Verde, Guapuruvu, Condomínio Dom Pedro, Santa Teresa, Vila dos Comerciários e Projeto Entrada da Cidade, para citar só as principais.
Em 2001, Carrion participou em Brasília da III CONFERÊNCIA DAS CIDADES – organizada pela Comissão de Desenvolvimento Urbano e Interior da Câmara dos Deputados –, tendo sido Relator do Grupo “Estatuto da Cidade e a gestão democrática”.
Outra importante ação de Carrion foi sua luta contra à lei que autorizava a abertura indiscriminada do comércio aos domingos, impondo à família comerciária uma situação de verdadeira escravidão. Após a mobilização para que o Prefeito Tarso Genro a vetasse, Carrion aprovou na CUTHAB um parecer comprovando a inconstitucionalidade e a inconveniência dessa lei para toda a sociedade. Na votação final, após um forte embate, o veto do Prefeito Tarso Genro foi mantido pelo plenário da Câmara.
Entre as ações políticas mais importantes desse seu mandato, podemos referir a luta contra a ALCA e contra a entrega da Base de Alcântara aos EUA; pela Reforma Urbana; contra a privatização da água; contra a redução da idade penal; em defesa da CLT; contra a privatização da Petrobras; e a sua ativa participação na organização e na realização dos Fóruns Sociais Mundiais de 2001, 2002 e 2003.
Nas eleições de 2002, Carrion foi candidato do PCdoB a deputado federal, em “dobradinha” com Jussara Cony, candidata à deputada estadual. Após percorrer o Rio Grande do Sul na campanha LULA PRESIDENTE - TARSO GOVERNADOR, Carrion obteve 54.415 votos – aumentando em 110% à votação do PCdoB em relação a 1998 –, dando a sua contribuição à eleição de LULA, mas não conseguindo ser eleito. Jussara Cony, em contrapartida, elegeu-se deputada estadual com consagradores 51.586 votos.
Passadas as eleições, Carrion retomou o seu mandato de vereador. Eleito novamente Presidente da CUTHAB, logo teve de enfrentar diversas ações de reintegração de posse em comunidades irregulares – como a Ocupação da Atílio Superti, Beco Beira-Rio Otaviano Pinto, Cooperativa Mário Quintana, Rua Liberal, Vila dos Coqueiros, Vila Valneri Antunes, Motel da Eduardo Prado e Ocupação do Montepio dos Servidores Municipais.
Entre os seus projetos aprovados nessa legislatura, destacamos o que destinou às mulheres chefes de família um mínimo de 30% das vagas dos projetos habitacionais da Prefeitura; a garantia de um local para a associação de moradores, nos loteamentos e nos conjuntos habitacionais do município; a disponibilização de banheiros públicos nas feiras livres: o Fomento ao Cooperativismo Habitacional; a proibição do transporte de valores em áreas de circulação de grande público nos Bancos e Centros Comerciais (Shopping Centers); Semana Municipal do Artesanato; Sessão Solene em homenagem ao Dia Internacional dos Trabalhadores; além de conceder o Título de Cidadão Emérito de Porto Alegre para Luís Fernando Veríssimo.
Defensor da comunidade negra e militante anti-racista, Carrion aprovou a Lei de Preservação do Patrimônio Afro-Brasileiro, o Dia Municipal de Controle da Anemia Falciforme, a Semana Municipal da Capoeira, o Largo Zumbi dos Palmares, a Sessão Solene Comemorativa do Dia da Consciência Negra e o Espaço Lanceiros Negros (no Parque Farroupilha). Através dos seus esforços, o busto de João Cândido Felisberto – o “Almirante Negro” – foi instalado no Parque Marinha do Brasil (apesar das restrições da Marinha) e a Esplanada Carlos Santos foi inaugurada na Avenida Ipiranga.

Carrion reeleito com a 4ª maior votação de Porto Alegre

Em 2004, Carrion concorreu à reeleição para a Câmara Municipal de Porto Alegre – junto com Manuela D'Ávila, Pedro Dias e Arthur Bloise, em coligação com o PT. Nessas eleições, o PCdoB obteve uma grande vitória, aumentando em 178% a sua votação, em relação a 2000, elegendo Raul Carrion com 11.651 votos – o 4º mais votado da cidade – e Manuela D'Ávila, com 9.498 votos – a 8ª mais votada da cidade.
Reeleito presidente da CUTHAB, Carrion logo teve que enfrentar a ameaça de despejo de diversas comunidades, entre elas a Morada da Colina, Santo Antônio, Ocupação Costa e Silva, Residencial Vitória, Vila Anita, PAR Santa Mônica, Ocupação da Eduardo Prado, Vila da Conquista, Ocupação Riacho Doce, Vitória da Conquista e Parque dos Maias. Diversos outros conflitos também tiveram que ser mediados pela CUTHAB, como a o reassentamento das Vilas Dique e Nazaré, a regularização e urbanização do Túnel Verde, Vila Hípica, N. S. de Belém, Vila da Amizade, Vila Amazônia, D. Pedro, Santa Fé, Recanto da Lagoa e Morada do Sol.
Entre as ações mais gerais do seu mandato, podemos referir sua luta permanente pela Reforma Urbana, pelos direitos da comunidade negra e titulação dos Quilombos urbanos, pela efetivação do Centro de Excelência em Tecnologia Avançada (CEITEC) – empresa pública federal, dedicada à produção de chips – em defesa dos direitos dos trabalhadores informais.
Entre 2005 e 2006, Carrion aprovou diversos projetos de interesse da cidade, entre os quais a Lei da Meia-Entrada para Estudantes em cinemas e atividades culturais e esportivas (através de substitutivo com Manuela D'Ávila e Paulo Odone); obrigatoriedade da Colocação de Obras de Arte em Prédios com mais de 2.000 m²; colocação de Caixa de Correspondência na Parte Externa das Residências (para facilitar o trabalho dos carteiros); Função Social do Solo Urbano; Afixação de Alvará e de Plano Contra Incêndios nas casas de diversões públicas; Dia de Luta dos Povos Indígenas; Semana de Combate ao Câncer de Próstata e Semana da Anemia Ferropriva.

Representante dos Vereadores no CONCIDADES (2003-2006)

Em 2003, após a criação do Ministério das Cidades e a indicação de Olívio Dutra para chefiá-lo, o Governo Federal convocou a 1ª Conferência Nacional das Cidades, precedida de 3.457 Conferências Municipais e 26 Conferências Estaduais, mais a Conferência do Distrito Federal. Participaram dessas conferências em torno de 350 mil lideranças comunitárias, sindicais, profissionais e empresariais, além de representações governamentais e parlamentares.
Tendo participado ativamente do processo, Carrion foi delegado do segmento “Legislativo Municipal” nas Conferências Estadual e Nacional e eleito membro do Conselho Nacional das Cidades, em representação da União de Vereadores do Brasil (UVB).
No ConCidades, Carrion compôs o Comitê Técnico de Trânsito, Transporte e Mobilidade Urbana, contribuindo na elaboração da nova política nacional de mobilidade urbana. Colaborou, ainda, na formulação do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social e do Sistema Financeiro de Habitação de Interesse Social. Ao ser formado no RS o Conselho Estadual das Cidades, Carrion passou a representar nele a União de Vereadores do Estado do Rio Grande do Sul (UVERGS).
Carrion também passou a fazer parte da Frente Nacional de Vereadores pela Reforma Urbana (FRENAVRU), que representou na Mesa de Abertura do “Seminário Internacional Legislação e Gestão Urbana”, realizado em junho de 2005, na Câmara dos Deputados.
Na 2ª Conferência Nacional das Cidades, realizada em 2005, Carrion fez parte de sua Comissão Organizadora no RS, sendo palestrante nas Conferências Municipais de Porto Alegre, Caxias do Sul, Passo Fundo, Cruz Alta e Novo Hamburgo. Nessa ocasião, foi reeleito membro do Conselho Estadual das Cidades e do ConCidades.
Em sua segunda gestão no ConCidades, Carrion compôs o Comitê Técnico de Planejamento e Gestão do Solo Urbano, contribuindo na elaboração da Política de Regularização Fundiária para famílias de baixa renda, da Política de Prevenção e Mediação de Conflitos Fundiários Urbanos e na Campanha “Planos Diretores Participativos”.

O primeiro Mandato de Carrion como Deputado Estadual

Em 2006, por decisão partidária, Carrion concorreu à Assembleia Legislativa, junto com outros seis candidatos do PCdoB – Júnior Piaia, Juliano Roso, Deo Gomes, Júlio Martins, Dina Machado e Pinheiro –, tendo sido eleito deputado estadual com 41.549 votos, obtidos em 245 municípios. Em Porto Alegre, Carrion fez 23.822 votos. No total, o PCdoB conquistou 98.504 votos para a Assembleia Legislativa. Nessas eleições, o PCdoB elegeu Manuela D'ávila como a deputada federal mais votada, com consagradores 271.939 votos. A então deputada estadual Jussara Cony concorreu a Vice-Governadora do Estado, na chapa com Olívio Dutra, mas não venceram.

Deputado da Moradia Popular e da Reforma Urbana

Ao iniciar o seu mandato de deputado estadual, Carrion foi eleito membro titular de três Comissões Permanentes – de Economia e Desenvolvimento; de Assuntos Municipais; e do Mercosul e Assuntos Internacionais. Tendo em vista a inexistência de qualquer Comissão voltada à temática da moradia e da Reforma Urbana, Carrion propôs a criação de uma Comissão Especial de Habitação Popular e Regularização Fundiária. Essa Comissão foi formada em abril de 2007, tendo Carrion como Presidente.
Entre as principais atividades desenvolvidas pela CEHPRF podemos destacar: 1) Pela urbanização e regularização da Nova Santa Marta, em Santa Maria (24 mil moradores); 2) Pela regularização dos bairros Getúlio Vargas, Santa Tereza, Mangueira, Barra Velha e Barra Nova, em Rio Grande (35 mil moradores); 3) Pela regularização das ocupações das ilhas Grande dos Marinheiros, das Flores, da Pintada e do Pavão (17 mil moradores); 4) Pela regularização fundiária dos imóveis da RFFSA em Porto Alegre (1.000 moradores) e Santa Maria (1.000 moradores).
A CEHPRF também negociou a regularização de áreas da RFFSA em Cruz Alta, Santo Ângelo e Montenegro; a regularização da Vila São Pedro, em Porto Alegre; a aquisição dos 300 apartamentos ocupados, no Parque dos Maias. Simultaneamente, na Comissão de Assuntos Municipais, Carrion acompanhou a luta de 2.500 famílias, de 37 municípios, ameaçadas de despejo pela AES Sul, por morarem em baixo de suas redes de Alta Tensão.
O seu Relatório final, além de fazer um relato pormenorizado das questões enfrentadas, propôs três projetos de lei, visando adequar a legislação estadual à legislação federal – Direito Real de Uso para famílias de baixa renda; criação do Sistema, do Fundo Estadual de Habitação de Interesse Social e do Conselho Estadual de Habitação; destinação das Terras Públicas e Devolutas nas áreas urbanas para projetos de habitação popular. O Relatório também propôs a alteração do nome da Comissão de Assuntos Municipais para “Comissão de Assuntos Municipais e Moradia Popular”, para que passasse a existir uma Comissão Permanente com essa atribuição. O que, infelizmente, não foi aprovado.
Assim que a CEHPRF encerrou o seu prazo regimental de funcionamento, Carrion requereu a criação de uma Sub-Comissão de Habitação Popular e Regularização Fundiária, para prosseguir o trabalho, e assumiu a sua Relatoria. A Sub-Comissão, além de dar continuidade ao atendimento às comunidades já citadas, buscou soluções para milhares de famílias de outras comunidades – como a Vila Izabel, Ocupação José Alexandre Zachia e Beira Trilho, em Passo Fundo; Beira Trilho, em Erechim; Jardim Castelo, em Viamão; Ocupação Dona Augusta em Campo Bom; comunidades “Beira Mar” em Cidreira e Pinhal; Vila Tio Zeca e Areia, DAB-DAB, Jardim Marabá, São Judas Tadeu, Ocupação Unidão, Vila da Conquista, Recanto do Sabiá, Vila dos Coqueiros, Vila Unidos, Riacho Doce, Ocupação Morada do Sol, Ocupação Costa e Silva, Juliano Moreira, Mariano de Matos, Vila Nova e Vila União, todas em Porto Alegre.
Ao final dos trabalhos da Sub-Comissão, Carrion constituiu o Fórum Permanente de Habitação Popular, com a participação de instituições federais, estaduais e municipais – do executivo, legislativo, judiciário e ministério público – e de representações comunitárias, com o objetivo de buscar a mediação e prevenção dos conflitos fundiários urbanos. Em agosto de 2009, o Fórum Permanente de Prevenção e Mediação dos Conflitos Fundiários Urbanos realizou, sob a coordenação de Carrion, o Seminário More Legal, no Auditório da CEF-RS.
Para fortalecer a luta, Carrion também constituiu a Frente de Parlamentares Estaduais pela Reforma Urbana – de abrangência nacional, que teve a adesão de 45 deputados gaúchos – a qual organizou o 1º Seminário Estadual sobre a Função Social da Propriedade do Solo Urbano, em junho de 2008, no auditório do Ministério Público do Rio Grande do Sul, ao final do qual foi aprovada a “Carta de Porto Alegre”.
Em 2010, outra importante ação de Carrion foi a sua luta contra o projeto da governadora Yeda Crusius que propunha vender, a preço vil, uma área de 75 hectares – pertencente à FASE, no Morro Santa Teresa, região nobre da cidade – para especuladores imobiliários interessados na sua localização próxima ao Estádio Beira Rio, onde seria realizada a Copa do Mundo. Caso essa venda acontecesse, causaria a expulsão de 1.500 famílias que aí vivem há décadas e que já fazem jus ao Direito Real de Uso para fins de Moradia. Depois de uma grande mobilização, o governo foi obrigado a recuar e retirou o seu projeto de pauta, para não ser derrotado.

Outras frentes de luta e projetos aprovados

Mas o mandato de Carrion não se limitou à luta pelo direito à moradia e pela Reforma Urbana. Entre outras ações, se destacam a sua luta contra o tarifaço do governo Yeda; pela extensão da linha do TRENSURB até Novo Hamburgo; por um novo marco regulatório para o Pré-sal; em defesa da REFAP; pela viabilização do CEITEC; em apoio ao Movimento Mais Saúde dos hospitais filantrópicos; em apoio à Indústria de Máquinas e Equipamentos; em defesa da carne brasileira diante do embargo da União Européia; contra a privatização do Banrisul; pelo fortalecimento da UERGS; contra o desmantelamento da Emater; pela exigência de nível superior para os Técnicos do Tesouro; fixação de subsídios para os Defensores Públicos; valorização da comunidade negra e titulação das áreas Quilombolas; contra a criminalização dos movimentos sociais; em defesa da Jornada de 40 horas e pela valorização do Piso Regional.
Entre os 21 projetos aprovados por Carrion nesses quatro anos, podemos citar a Meia-Entrada para Estudantes em Cinemas e Espetáculos Culturais e Esportivos; a Preservação do Patrimônio Histórico Cultural Afro-brasileiro; Cotas para PPDs nos estágios em órgãos estaduais; Obrigatoriedade de Cardápio em Braile em Bares e Restaurantes; redução em 80% nas taxas cobradas aos instrutores dos CFCs; Prioridade para o Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência nas cirurgias plásticas reparadoras; Sítio Histórico de Porongos como Patrimônio Histórico e Cultural do RS; Prêmio Zumbi dos Palmares; Semana Estadual da Capoeira; Semana Farroupilha da ALERS; Dia do Líder Comunitário; Semana Estadual de Artesanato.
No primeiro semestre de 2008, Carrion participou do processo da 3ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, sendo o único deputado estadual eleito para a sua etapa nacional, realizada no inicio de maio, em Brasília.
Em 2009, Carrion participou da obra coletiva “A Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985), editada pela ALERS – já com três edições publicadas – com o texto “A ditadura não foi uma criação de homens maus”.
Como membro da Comissão de História do PCdoB, Carrion também colaborou na elaboração da obra coletiva “Contribuição à história do Partido Comunista do Brasil”, publicada em março de 2010 (com 2ª edição em março de 2012), escrevendo o “Capítulo 2 – 1922-1929 – Os primeiros passos do Partido Comunista do Brasil”.
Em 2010, Carrion participou, em Brasília, no Seminário Internacional - Mudanças Climáticas – preparatório à Conferência Mundial da ONU sobre Mudanças Climáticas no México – que debateu com cientistas e estudiosos do Brasil e de outros países as graves mudanças climáticas que vêm ocorrendo em todo o mundo.
Também em 2010, por ocasião das comemorações dos 100 anos da Revolta da Chibata – que eliminou os castigos físicos na Marinha – Carrion concedeu a Medalha do Mérito Farroupilha, In Memoriam, a João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro”, que a comandou.
Além de fazer parte de diversas frentes parlamentares, Carrion propôs e presidiu as Frentes Parlamentares pela Reforma Urbana; por Reparações, Direitos Humanos e Cidadania Quilombola; em Apoio à Defensoria Pública; em Defesa dos Recursos do Pré-sal para todos os Brasileiros; em Apoio à Indústria de Máquinas e Equipamentos; e em Solidariedade ao Povo Cubano.
Carrion também propôs e coordenou a Sub-Comissão Mista sobre os Impactos da Construção de Barragens e Usinas Hidroelétricas no RS, publicando o Relatório aprovado, e teve destacada participação nas CPIs dos Pedágios (2007), do DETRAN (2008) e da Corrupção (2009).

Carrion reeleito para a Assembeia Legislativa do RS

Nas eleições de 2010, o PCdoB lançou Carrion como candidato à Assembleia Legislativa, em coligação com o PSB, junto com outros 24 candidatos do PCdoB – entre eles Jussara Cony, Guiomar Vidor, Volnei Campagnoni, Rosane Simon, Todson Marcelo e Sandra Padilha. Apesar do PCdoB ter aumentado em quase 60% a sua votação para a Assembleia Legislativa – fazendo 156.400 votos – o único eleito foi Raul Carrion, com 34.791 votos, faltando em torno de 1.000 votos para a eleição de Jussara Cony.
Na eleição para a Câmara dos Deputados, o PCdoB elegeu Manuela D'Ávila, com expressivos 482.590 votos – fazendo dela a deputada mais votada do país –, e o metalúrgico Assis Melo, com 47.141 votos. No total, o PCdoB fez 544.773 votos para a Câmara dos Deputados, aumentando em 103% a sua votação.
Abgail Pereira, a candidata do PCdoB ao Senado, totalizou 1.551.151 votos, sendo a quarta mais votada no Estado, mas não alcançando eleger-se. Para o Governo do Estado, o PCdoB apoiou eleger Tarso Genro – eleito no primeiro turno – e, para a Presidência da República, Dilma Roussef – eleita no segundo turno.
Tão logo foram proclamados os resultados, Carrion comunicou ao Partido a sua decisão, em caráter irrevogável, de não mais concorrer a mandatos parlamentares, do que manteve a mais estrita reserva durante toda a legislatura. O objetivo dessa comunicação foi permitir que o Partido preparasse nomes alternativos para as eleições de 2014, inclusive utilizando-se para isso do seu mandato.
Carrion tomou essa decisão por entender que desde a derrota do socialismo na URSS e no Leste Europeu, o marxismo passou a viver uma crise que precisa ser enfrentada através de uma acirrada luta teórica, tendo como ponto de partida um rigoroso balanço das experiências históricas de construção socialista. Como afirmou João Amazonas: “instalou-se uma crise de certa profundidade no movimento marxista-leninista. Crise no campo da teoria, da Filosofia, da própria concepção de socialismo. (...) sem superar essa crise, não haverá revolução socialista, proletário-revolucionária, em nenhuma parte do mundo. (...) O combate pela superação da crise do marxismo é a grande tarefa histórica da atualidade. (...) a frente teórica adquire importância sobressalente, de primeiro plano.”
Para Carrion, esse é o terreno onde melhor poderá ajudar o Partido e a luta, o que exige uma dedicação integral, impossível de ter no exercício de um mandato parlamentar. Somou-se a isso o fato de já estar atuando na frente institucional há 20 anos e de completar setenta anos em 2015 – quando encerraria o seu mandato –, sendo hora de abrir espaço para novas lideranças partidárias, desejosas de atuarem na frente institucional. Essa decisão não significou, porém, qualquer esmorecimento em sua atuação como deputado, função a que dedicou-se integralmente até o último dia do seu mandato.

Comissão e Sub-Comissão de Habitação Popular e Regularização Fundiária

Inexistindo na Assembleia Legislativa qualquer comissão permanente para tratar da questão habitacional, Carrion requereu uma vez mais a criação de uma Comissão Especial de Habitação Popular e Regularização Fundiária. Assim que ela foi constituída, no início de 2011, Carrion passou a acompanhar as comunidades em situação de conflito, entre elas as Vilas Gaúcha, Ecológica, União, Figueira e Padre Cacique (Morro Santa Teresa), Grande Cruzeiro (obras da Copa do Mundo), Ilhas do Delta do Jacuí (30 ilhas, de 6 município, abrangendo cerca de 20 mil moradores), Vila dos Ferroviário de Porto Alegre, São Judas Tadeu, São Pedro, Salvador França, Vila Chocolatão, Núcleo Esperança do Campo Novo e Loteamento Cristiano Kraemer e, todas em Porto Alegre. Na Grande Porto Alegre, podemos citar Ocupação Resistência e Luta, em Campo Bom, e a Vila Pica-Pau, em Novo Hamburgo. No litoral, as áreas de Marinha em Cidreira e Pinhal.
No contexto de suas atividades, a CEHPRF realizou, em junho de 2011, no Auditório da CEF, em Porto Alegre, o “2º Seminário Estadual sobre a Função Social da Propriedade do Solo Urbano e os 10 Anos do Estatuto da Cidade”.
Concluídos os trabalhos da CEHPRF, o seu Relatório expôs a situação de cada comunidade, sugerindo soluções concretas, e apresentou orientações gerais a serem seguidas. Nesse sentido, além da necessidade dos municípios se adequarem à legislação federal, indicou a urgência da regularização – com base no Estatuto da Cidade – das áreas públicas municipais, estaduais e federais, ocupadas no nosso Estado por centenas de milhares de moradores de baixa renda. Sem que isso significasse deixar de lado a necessária ação dos Poderes Públicos para mediar e solucionar os conflitos decorrentes da ocupação de vazios urbanos privados por famílias sem-teto, para o que também há uma ampla base legal utilizável.
Em seguida, Carrion requereu a constituição de uma Sub-Comissão de Habitação Popular e Regularização Fundiária, para prosseguir o trabalho da CEHPRF. Além de dar continuidade às tratativas junto às comunidades do Morro Santa Teresa, São Judas Tadeu, São Pedro, Salvador França, Vila dos Ferroviários – todas em Porto Alegre – e Resistência e Luta, em Campo Bom, a Sub-Comissão foi demandada por diversa outras comunidades, como a Quinta do Portal, 4 de Junho, Santo Antônio (Lomba do Pinheiro), Morada da Colina, Pinheiros, Chácara das Bananeiras, Vila João Pessoa, Clareu, São Miguel, Chácara dos Bombeiros, Linha de Tiro, Campo da Tuca, Jardim Marabá, Túnel Verde, Túnel Verde II, Vila Amazônia, Ponche Verde Jardim da Amizade, Vila das Laranjeiras, Loteamento Dom Pedro, Vila Dique Velha, Nova Vila Dique, Vila Nazaré e Beco X – também em Porto Alegre –, além da Beira Trilho em Cruz Alta e as áreas de Marinha de Cidreira, Pinhal e Costa do Sol.
O Relatório final aprovado reiterou a necessidade da regularização fundiária e urbanística de das áreas públicas e privadas ocupadas de forma consolidada por dezenas de milhares de famílias de baixa renda, através dos novos mecanismos criados pelo Estatuto da Cidade e com recursos do Ministério das Cidades.

Outras frentes de luta e propostas do mandato


Em seu segundo mandato como deputado estadual, Carrion foi eleito para a Comissão de Constituição e Justiça – onde todos os projetos precisam ser apreciados, antes de tramitar nas demais comissões –, de Serviços Públicos e Segurança e de Ética. Na segunda metade do seu mandato, Carrion foi reeleito para a Comissão Constituição e Justiça e eleito para a Comissão de Economia e Desenvolvimento Sustentável, além de ser indicado Coordenador da Comissão de Reforma do Regimento Interno da ALERS.
Nos quatro anos de mandato, Carrion aprovou 20 projetos, entre os quais destacamos o Estatuto Estadual da Igualdade Étnico-Racial e Combate à Intolerância Religiosa; a Emenda Constitucional que destina os Royalties do Petróleo para a Saúde e a Educação; Assistência Técnica Gratuita para a Construção de Habitações de Interesse Social; Cotas para Negros nos Concursos Públicos Estaduais; Cotas para Negros e Indígenas na UERGS; Obrigatoriedade de Tradução de Palavras Estrangeiras nas peças de propaganda e divulgação; Anulação da Cassação, ocorrida em 1948, dos Mandatos dos Deputados Estaduais Comunistas; Dia Estadual de Solidariedade ao Povo Palestino; Política Estadual de Inclusão Digital; Dia Estadual contra a Homofobia.
Carrion também participou de forma ativa na luta pela repactuação da dívida do Estado com a União; na defesa da manutenção dos postos de fiscalização e das turmas volantes da Secretaria da Fazenda, para coibir o contrabando; por concursos públicos para Técnicos do Tesouro; por uma política permanente de valorização do Piso Regional.
Além das seis frentes parlamentares formadas no primeiro mandato – que permaneceram atuando – Carrion propôs e presidiu a Frente Parlamentar Gaúcha pela Ampliação e Qualificação das Ferrovias (FPGAQF) e a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos dos Comerciários.

A luta pela ampliação e qualificação do transporte ferroviário

A Frente Gaúcha pelas Ferrovias, instalada em julho de 2011, desenvolveu um amplo trabalho de conscientização da sociedade gaúcha em relação à necessidade do fortalecimento do modal ferroviário – seja no transporte de cargas, seja no transporte de passageiros – e pela extensão da Ferrovia Norte-Sul até o Porto de Rio Grande, como era previsto no Projeto original. Igualmente, denunciou o sucateamento da rede ferroviária pelas concessionárias privadas e cobrou a retomada das linhas que haviam sido desativadas, com prejuízos para a economia gaúcha.
Em seu trabalho, a FPGAQF organizou audiências públicas e debates em 15 cidades – Passo Fundo, Erechim, Santa Rosa, Cruz Alta, Cachoeira do Sul, Santa Maria, Cacequi, Uruguaiana, Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires, Estrela, Caxias, Canguçu, Rio Grande e Porto Alegre. Em agosto de 2011, promoveu na ALERS o “Seminário Diagnósticos e Estratégias das Ferrovias no Sul do País”, com a participação de representantes dos três Estados do Sul.
Além de várias viagens a Brasília para reuniões com a VALEC, EPL, ANTT, DNIT, SEINFRA e com a bancada federal do RS, Carrion participou no “1º Seminário de Chapecó da Ferrosul”, no Seminário da Federação das Indústrias de SC, no “Seminário Nacional Desenvolvimento e Ferrovias” – organizado em 2011 pela Frente Parlamentar Mista das Ferrovias (FPMF), e no “Seminário V Brasil nos Trilhos-2012”, promovido pela ANT. Em 2012, foi publicado pela FPMF o livro “FERROVIA E DESENVOLVIMENTO – ESSE É O CAMINHO”, no qual Carrion escreveu o texto “As Ferrovias têm de estar a serviço do Desenvolvimento Nacional”.
Com o avanço das tratativas entre o Chile e a Argentina para a construção de um túnel ferroviário-rodoviário nos Andes – estabelecendo um CORREDOR BIOCEÂNICO entre a Argentina e o Chile – a FPGAQF passou a defender a criação de um ramal entre Porto Alegre e Uruguaiana, com o objetivo de conectar a Ferrovia Norte-Sul ao MERCOSUL e viabilizar a ligação da Região Sul ao Oceano Pacífico por ferrovia.
Por ocasião da reunião da Mesa Diretora da União de Parlamentares Sul Americanos e do Mercosul (UPM) – realizada em março de 2013, em Buenos Aires –, Carrion participou do debate desse importante projeto de interligação ferroviária e rodoviária entre os países do Cone Sul.

Atuação na UNALE no CONCIDADES

Tão logo assumiu o seu primeiro mandato de deputado estadual, Carrion passou a participar da União Nacional de Legisladores e Legislativos Estaduais (UNALE) – entidade que congrega os 1059 deputados das 27 Unidades Federativas do país – e desenvolveu esforços para que ela colocasse em sua pauta a temática da Reforma Urbana e da Moradia Popular.
Com esse objetivo, Carrion trabalhou para que a UNALE participasse no ConCidades, onde os Executivos Estaduais haviam monopolizado toda a representação dos Estados e não havia uma única representação dos Legislativos Estaduais.
Em 2007 – através de um forte embate na 3ª Conferência Nacional das Cidades –, a UNALE conquistou uma vaga no ConCidades e Carrion foi indicado para essa representação, passando a compor o seu Comitê Técnico de Habitação e a participar do seu GT de Conflitos Fundiários.
Em abril de 2009, frente à crise econômica internacional, o Governo Federal – com base nas diretrizes habitacionais estabelecidas pelo ConCidades – criou o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), com o objetivo de enfrentar o enorme déficit habitacional das famílias de baixa renda e como um política econômica anti-cíclica. Em fins de 2009, o Ministério das Cidades aprovou o Plano Nacional de Habitação (PLANHAB 2009-2023) – fruto de quase seis anos de trabalho do Ministério das Cidades e do ConCidades.
Em 2010, Carrion criou na UNALE a Secretaria Especial das Cidades, assumindo a sua Presidência. Nesse mesmo ano, Carrion fez parte da Coordenação Executiva da 4ª Conferência Nacional das Cidades, sendo reeleito tanto para o Conselho Estadual das Cidades, quanto para o ConCidades, onde continuou trabalhando no Comitê Técnico de Habitação. Nessa ocasião, a UNALE conquistou uma segunda vaga no ConCidades, que passou a ser ocupada pelo Deputado Luciano Siqueira, ex Vice-Prefeito de Recife.
Da mesma forma, Carrion foi membro da Comissão Organizadora da 5ª Conferência Nacional das Cidades, realizada em 2013, inclusive propondo que o seu “lema” fosse “QUEM MUDA A CIDADE SOMOS NÓS: REFORMA URBANA JÁ!” Nessa 5ª Conferência das Cidades, Carrion voltou a ser eleito para o Conselho Estadual das Cidades e para o ConCidades.
Por seu trabalho no ConCidades, Carrion foi convidado a fazer a palestra de Abertura na 1ª reunião do Conselho Estadual das Cidades do Estado da Paraíba, em fevereiro de 2014.
No início de 2014, Carrion assumiu a Presidência da UNALE – na condição de Presidente do Comitê de Representação Político-Administrativo-Institucional da entidade – cabendo-lhe presidir a sua 18ª Conferencia Nacional, que ocorreu em maio, em Brasília. Em sua saudação aos mais de 1.000 participantes na 18ª Conferência, Carrion destacou a luta da UNALE pelas Reforma Política e Tributária, por um Novo Pacto Federativo, em Defesa da Amazônia, pela integração Latino-Americana e pelo fortalecimento do MERCOSUL, em Defesa da Reforma Urbana e pela saúde e educação públicas e de qualidade.
Em fins de 2014, tendo em vista sua decisão de não mais concorrer à Assembleia Legislativa, deixou a Presidência da UNALE e a sua representação no ConCidades, onde atuou durante doze anos consecutivos.

Carrion assume a Presidência do PCdoB-RS

Na Conferência Estadual que se realizou no segundo semestre de 2011, Carrion foi eleito Presidente do PCdoB do Rio Grande do Sul, para um mandato de dois anos, em substituição a Adalberto Frasson.
Em 2012, lhe coube coordenar os festejos dos 90 anos do PCdoB, organizando na Assembleia Legislativa um Grande Expediente em homenagem à data, ocasião em que foi entregue ao Presidente Nacional do PCdoB – Renato Rabelo – a Medalha do Mérito Farroupilha e uma placa comemorativa dos 90 anos do Partido.
Além desse Grande Expediente, foram concedidas medalhas da 53ª Legislatura In Memoriam, a personalidades históricas do PCdoB-RS já falecidas – como Abílio Nequete, Dyonélio Machado, Lila Ripoll, Bruno Segalla, João Carlos Haas e Pedro Alvarez –, entregues a seus familiares. Da mesma forma, foram entregues medalhas da 53ª Legislaturas a lideranças comunistas presentes de diversas gerações, como Danúbio Gonçalves, Lauro Hagemann, Venina Pureza de Freitas, José Ouriques de Freitas, Deo Gomes, Juliano Roso, Sandra Padilha e Bruna Rodrigues.
À noite, no Auditório Dante Barone da ALERS, foi realizado o grande Ato Comemorativo dos 90 anos, com a presença do Presidente Nacional do PCdoB Renato Rabelo e as principais lideranças do PCdoB no Estado, o Governador Tarso Genro, o Presidente de Honra do PT Olívio Dutra, o Presidente do PMDB Ibsen Pinheiro, o Presidente do PSB Beto Albuquerque e outras lideranças políticas e sociais do Rio Grande do Sul.
Carrion conduziu o PCdoB nas eleições municipais de 2012 e no complexo período das chamadas “manifestações de junho de 2013”, quando – através de um processo de “guerra híbrida” – as forças de direita e de ultra-direita buscaram desestabilizar os governos Dilma e Tarso Genro. Nesse período, Carrion fez parte da Coordenação Política do Governo Tarso Genro – formada pelos Partidos que compunham a base do governo – e foi um aguerrido defensor do Governo Popular nos embates que se deram no parlamento gaúcho.
Também coube a Carrion enfrentar com firmeza e sem vacilações a armação montada contra o PCdoB no primeiro semestre de 2013, quando a Polícia Federal prendeu sob falsas acusações o camarada Carlos Fernando Niedersberg – então Secretário Estadual do Meio Ambiente – em uma trama que fez lembrar o “Plano Cohen”, urdido em 1937 contra os comunistas para justificar a implantação da ditadura do Estado Novo. Libertado pela Justiça pela inexistência de qualquer fundamento para a sua prisão, Carlos Fernando nunca foi indiciado ou acusado de qualquer irregularidade, mas teve a sua honra atacada por essa prisão arbitrária, realizada pela PF do RS.
Em 2013, Carrion – então Presidente do Conselho Deliberativo do Movimento de Ex-Presos e Perseguidos Políticos do RS (MEPPP-RS) – participou representando a ALERS no ato de criação pelo Governador Tarso Genro da “Comissão Estadual Memória e Verdade”, assim como de várias atividades de denúncia dos crimes da ditadura militar, inclusive prestando o seu depoimento a essa Comissão.

Presidência da FMG-RS

Na Conferência Estadual realizada no segundo semestre de 2013, Manuela D'Ávila foi eleita Presidenta do PCdoB, para um mandato de dois anos, substituindo Carrion, que permaneceu na Comissão Política e assumiu a Presidência da Fundação Maurício Grabois-RS.
Em abril de 2014, quando se completaram 50 anos do golpe militar de 1º de abril de 1964, a FMG-RS organizou na UFRGS, em parceria com diversas entidades, o Seminário “50 anos do Golpe Militar no Brasil”, com cinco Mesas de debates e a participação de prestigiados intelectuais gaúchos e de todo o Brasil, entre os quais Pedro Dutra Fonseca, Luis Augusto Fischer, Diorge Konrad, Celi Pinto, Juremir Machado, Carlos Fico, João Quartim de Moraes, Aldo Arantes, Augusto Buonicore, Altamiro Borges, Laurindo Lalo Leal e Bernardo Joffily.
Em maio de 2014, tendo em vista o transcurso dos 90 anos da Coluna Prestes, que iniciou no nosso Estado e percorreu em dois anos mais de 25 mil Km, em constantes combates, sem nunca ser derrotada, Carrion organizou – em conjunto com a Fundação Maurício Grabois Nacional e com a participação de Maria Prestes e seus filhos Luiz Carlos e Mariana – uma caravana que percorreu o Rio Grande do Sul para rememorar esse acontecimento histórico.
Nessa ocasião, Carrion publicou um relato histórico sobre esse acontecimento e concedeu – em solenidade realizada na Assembleia Legislativa – a Medalha do Mérito Farroupilha, In Memoriam, a Luiz Carlos Prestes, entregue a seus familiares. Após, a comitiva seguiu para as atividades comemorativas em Passo Fundo, Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga, Ijui, São Miguel das Missões e Santa Maria, retornando depois para Porto Alegre. Posteriormente, a FMG editou um livro e um DVD, com a cobertura desse périplo.
Em 31 de janeiro de 2015, Carrion concluiu os seus dois mandatos pelo PCdoB na Assembleia Legislativa – sendo sucedido por Manuela D'Ávila e Juliano Roso –, com um saldo de 41 projetos aprovados e uma extensa pauta de lutas pelas Reformas Urbana e Agrária, contra todo tipo de discriminação ou opressão – de gênero, raça, opção sexual, idade ou condição econômica –, em defesa da soberania nacional, das liberdades democráticas e dos direitos sociais do nosso povo.

O retorno ao Ministério Público-RS

Retomou, então, as suas funções no Ministério Publico Estadual e – tendo completado 36 anos e oito meses de contribuição e 69 anos de idade – solicitou a sua aposentadoria. Para sua surpresa, o MPE/RS lhe negou a aposentadoria, exigindo que completasse o “estágio probatório”, em que pese a Constituição Federal dispor em seu art. 38 que “ao servidor público (...) em qualquer caso que exija o afastamento para o exercício de mandato eletivo, seu tempo de serviço será contado para todos os efeitos legais, exceto para a promoção por merecimento.” De nada serviram os diversos recursos administrativos feitos, todos eles negados.
Não bastasse o desconhecimento da norma constitucional, Carrion ainda teve os seus períodos de férias, licença prêmio ou recesso – quando ultrapassaram 45 dias seguidos – descontados para efeito do estágio probatório, ainda que o “Estatuto e Regime Jurídico Único dos Servidores Públicos Civis do Rio Grande do Sul“ disponha, de forma explicita, que os períodos de férias e licença prêmio devem ser considerados, para todos os efeitos, de “efetivo exercício.” Isso fez com que Carrion tivesse que cumprir, na prática, quatro anos de “estágio probatório...
Como em 22 de dezembro de 2015 Carrion completaria 70 anos, caindo na aposentadoria compulsória, ele optou por não ingressar com uma ação judicial contra o MPE/RS. Mas, poucos dias antes de completar 70 anos, foi promulgada uma Emenda Constitucional – a “PEC da bengala” – que alterou para 75 anos a aposentadoria compulsória. Havendo perdido os prazos para ingressar com um Mandato de Segurança e sabedor da demora de uma ação normal no nosso judiciário, não restou a Carrion outra opção senão cumprir esse seu surreal “estágio probatório”, aos 70 anos de idade!
Começou, então, a trabalhar como Historiador no Memorial do Ministério Público Estadual, com uma jornada semanal de 44 horas, a qual – para quem estava acostumado a uma jornada semanal de mais de 70 horas como deputado – não foi nada extenuante, mas lhe impediu de dedicar-se ao trabalho de investigação e pesquisa histórica a que se havia proposto, ao deixar o mandato de deputado. Ao seu trabalho no MPE, somou-se a atuação na Comissão Política Estadual do PCdoB e na Presidência da Fundação Maurício Grabois do RS.
Apesar de desrespeitado em seus direitos, Carrion trabalhou com o profissionalismo de sempre e foi aprovado com louvor no seu surreal “estágio probatório”. No período em que trabalhou no Memorial do MPE, afora as atividades normais, Carrion elaborou um prospecto sobre a história do “Palácio do Ministério Público” (mais conhecido como “Forte Apache”) – que já abrigou a sede do Governo Estadual –, um DVD sobre a evolução histórica da Praça da Matriz e organizou– junto com sua colega historiadora Cíntia Vieira Souto – o livro “A atuação do Ministério Público na área ambiental”, lançado no primeiro semestre de 2017. Assim, Carrion só conseguiu aposentar-se em janeiro de 2018, aos 72 anos de idade, após 39 anos e sete meses de trabalho.

A FMG-RS na luta teórica


No segundo semestre de 2015 – no contexto do golpe que afastou Dilma Roussef da Presidência –, Carrion engajou-se ativamente na organização em Porto Alegre do Fórum Social Mundial Temático de janeiro de 2016, buscando que ao invés de um “caleidoscópio” dispersivo de múltiplas mesas e oficinas, ele tivesse um foco maior na conjuntura nacional e internacional. Com esse objetivo, a FMG-RS articulou algumas mesas de caráter mais geral, com destaque para a Mesa “Desenvolvimento em tempos de crise e golpismo” – organizada conjuntamente pelas fundações Maurício Grabois, Perseu Abramo e Leonel Brizola-Alberto Pasqualini – que trouxe Walter Sorrentino (PCdoB), Ruy Falcão (PT), Roberto Requião (PMDB), Roberto Amaral (ex-Presidente do PSB) e Carlos Michaelis (PDT), reunindo cerca de mil pessoas no Auditório Araújo Vianna.
Em abril de 2016 – por ocasião da “Semana Internacional contra o Apartheid Israelense” – a FMG-RS organizou na ALERS a Mesa “Conflito Palestino-Israelense – ontem hoje e amanhã”. Em maio, a FMG-RS realizou, junto com a Fundação Perseu Abramo e a Fundação do PSD alemão, a mesa “Mobilidade Urbana”. Ainda no 1º semestre, a FMG-RS realizou na UFRGS um debate sobre a Reforma Política, com a participação de Aldo Arantes, da Comissão Nacional da OAB sobre a Reforma Política. No 2º semestre, a FMG-RS realizou o seu 3º seminário interno sobre o neoliberalismo, a partir da análise de Marx sobre o “capital produtor de juros” e o “capital fictício”. Em fins de novembro, foram desenvolvidas diversas atividades para comemorar o “Dia Estadual de Solidariedade ao Povo Palestino” (lei de iniciativa de Carrion), destacando-se o Ato em Solidariedade ao povo Palestino e uma palestra do Sociólogo Lejeune Mirhan.

Os 100 Anos da Revolução Russa e a luta por um Socialismo Renovado

No final de março de 2017, a FMG realizou em SP um Seminário sobre os 100 anos da Revolução Russa, do qual Carrion participou, sendo um dos debatedores. Na ocasião, foi lançada a obra coletiva “100 anos da Revolução Russa – legados e lições”, no qual Carrion colaborou com o texto “A Grande Guerra Patriótica soviética”.
Pouco depois, entre 8 de maio e 12 de junho de 2017, a FMG-RS realizou em Porto Alegre o Seminário “100 anos da Revolução Russa”, tendo como co-promotoras 17 instituições e entidades, entre elas a FMG, IFCH-UFRGS, IHGRGS, CEBRAPAZ e ADUFRGS. Previsto para ocorrer no auditório do IHGRGS, com 150 lugares, a demanda de participação no seminário foi tanta que o evento teve de ser transferido para o auditório da FETRAFI, com capacidade para 450 pessoas. O Seminário contou com seis mesas de debate, com conferencistas de cinco Estados, mais Cuba, e de sete universidades. A ultima mesa, intitulada “A luta pelo socialismo no século XXI”, contou com a presença dos ex-presidentes do PCdoB, PT e PSB – respectivamente Renato Rabel, Tarso Genro e Roberto Amaral – e foi coordenada pela cientista política Celi Pinto.
As palestras desse seminário deram origem ao livro “100 anos da Revolução Russa” – organizado pelo Jornalista Walmaro Paz –, que contou com textos dos 19 palestrantes presentes no seminário. Carrion participou do livro com o texto “Vietnã: economia de mercado de orientação socialista”, tema que abordou no seminário.
Em setembro de 2017, a FMG-RS promoveu, junto com outras 26 instituições e entidades, o Seminário “O Capital - 150 anos (1867-1917)”, que teve quatro mesas e contou com palestrantes de seis universidades. O evento se realizou também no auditório da FETRAFI, contando sempre com um grande público.

A luta por um Projeto para o Brasil
e o Bicentenário de Marx


Em março de 2018, a FMG-RS abriu as suas atividades no ano como o debate “Conjuntura Mundial e Projeto Nacional”, realizado na ALERS, com a participação dos Professores Marco Cepik (UFRGS), Lucas Kerr (UNILA) e Ricardo Alemão Abreu (PROLAM-USP), com a mediação do Prof. Diego Pautasso (CMPA)
Entre 2 de abril e 8 de maio desse ano, a FMG promoveu no Auditório Dante Barone da ALERS – junto com as fundações do PT, PDT, PSB e PSOL, IHGRGS, SOCECON, SINDICON e mais 25 entidades – o Seminário “Desenvolvimento Nacional – Dilemas e Perspectivas”, com o objetivo de construir uma aproximação programática entre as principais forças do campo democrático e popular, tendo em vista as eleições presidenciais.
O evento teve seis mesas de debate e lotou o Auditório Dante Barone da ALERS, trazendo importantes lideranças políticas e intelectuais de todo o Brasil. No dia 9 de abril, diante da prisão de Luís Inácio LULA da Silva, os organizadores do evento convocaram, antes da Mesa de Debates, um ato em solidariedade à Lula e de repúdio à sua prisão arbitrária. Coube a Carrion coordenar esse importante ato.
Tendo em vista que em 2018 se comemoraram 200 anos do nascimento de Karl Marx, a FMG Nacional organizou uma obra coletiva para marcar essa data, intitulada “Karl Marx – Desbravar um Mundo Novo no Século XXI”. Carrion colaborou nessa obra com o texto “Concepção materialista e dialética da história”.
Em junho, a FMG-RS realizou junto com outras nove instituições e entidades o painel “Karl Marx 200 anos: 1818-2018”, que deveria ocorrer na Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, mas que na última hora teve de ser transferido para o DCE-UFRGS, devido a um problema na rede elétrica do Campus Central. Apesar disso, o evento foi um êxito de público e na qualidade do debate, que teve a participação da Economista Leda Paulani (USP), do Historiador Júlio Velloso (Mackenzie e FADISP) e do Filósofo João Carlos Brum Torres (UCS e UFRGS).
Em julho, a FMG-RS fez uma parceria com outras entidades para promover no Auditório da FCE-UFRGS o Painel “Rússia: da Revolução Soviética à era Putin” quando foi lançado o livro “Outubro Vermelho: 100 anos (1917-2017)”, de José Reinaldo Carvalho.
As atividades do ano foram encerradas no dia 29 de novembro, com a realização de um Ato em Solidariedade ao Povo Palestino, seguido do debate “71 Anos da Partição da Palestina e a questão de Jerusalém”, com palestras da Profª Sílvia Feraboli (UFRGS) e do Embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben.

Os 60 anos da Revolução Cubana e os 70 anos da revolução Chinesa

Em 2019, a FMG-RS organizou três atividades fundamentais.
A primeira delas, realizada no início de setembro, no Auditório da Faculdade de Farmácia da UFRGS – em parceria com outras 16 entidades, entre elas a ACJM-RS, a ADUFRGS, a ASSUFRGS e a SOCECON –, foi o painel “¨60 Anos da Revolução Cubana”, que teve como palestrantes o Embaixador Pedro Monzón, Cônsul Geral de Cuba no Brasil, o Dr. João Marcelo Goulart – neto de João Goulart e médico formado em Cuba –, e o Dr. Alcides de Miranda, Professor da UFRGS. Além de tratar da Revolução Cubana, a Mesa debateu a ação internacionalista de Cuba na área da saúde e o desmonte do Programa “Mais Médicos” pelo governo federal.
A segunda iniciativa, organizada por junto com outras 15 entidades, foi a mesa “80 Anos do início da Segunda Guerra Mundial”, no final de setembro, na Escola de Engenharia da UFRGS, tendo como palestrantes os Historiadores Paulo Visentini, Luís Dario e Daniel Sebastiani. O painel abordou a ascensão do nazi-fascismo, a diplomacia e a estratégia do III Reich e a vitória dos aliados na guerra, tendo como força decisiva a URSS. Essa mesa foi coordenada por Carrion.
A terceira atividade da FMG-RS foi o Seminário “China: 70 anos de Profundas Transformações”, realizada entre os dias 1º e 10 de outubro, na UFRGS e organizado em conjunto com outras 20 entidades, entre elas o ILEA-UFRGS, a FCE-UFRGS, o IHGRGS, o Instituto Confúcio e a FPBC-ALERS. O seminário contou com quatro mesas – “A Cultura Milenar da China”, “A Revolução Chinesa”, “As Reformas Econômicas Pós Década de 70” e “China hoje- o BRICS e a Rota da Seda” – com palestras de renomados estudiosos da experiência chinesa. Carrion foi palestrante na Mesa “As Reformas Econômicas Pós Década de 70”.

A ação internacionalista e a solidariedade internacional

Tendo vivido cinco anos no exílio, buscando a solidariedade internacional à luta do povo brasileiro contra o regime militar e convivendo com exilados de toda a America Latina – Carrion assimilou profundamente o caráter internacional da luta e a importância da solidariedade internacional, desprezando todo e qualquer nacionalismo estreito. Compreensão que sempre o acompanhou, tanto no parlamento, quanto fora dele.
Por isso, sempre esteve presente nas mais variadas ações internacionalistas, seja em defesa dos países socialistas – Cuba, China, Vietnã, Coreia, Laos –, seja em solidariedade às lutas dos povos de todo o mundo, especialmente a Palestina e a América Latina.
A realização em 1997, 1998 e 1999 de três seminários internacionais contra o neoliberalismo foi a expressão concreta de sua preocupação permanente em construir internacionalmente uma crítica teórica ao pensamento único neoliberal – hegemônico no ocidente –, na busca de um rumo revolucionário para a luta dos povos. No início do novo milênio, Carrion organizou outros três seminários internacionais nos Fóruns Sociais Mundiais de 2001, 2002 e 2003, em Porto Alegre.
Em setembro de 2001, a pedido do então Secretário de Relações Internacionais do PCdoB, José Reinaldo de Carvalho, Carrion participou em Montevideu do Encontro Internacional “Vigencia y Actualización del Marxismo en el Pensamiento de Rodney Arismendi”, organizado pela Fundação Rodney Arismendi, usando da palavra no ato de Abertura – realizado na Universidade da Republica – e contribuindo nos debates das diversas mesas.
Entre 10 e 12 de dezembro de 2007, Carrion esteve do Encontro Mundial “Democracia Participativa - para qual Desenvolvimento?”, realizado em Lyon e em Grenoble, na França, representando a CMPA. Na ocasião, Carrion interveio em diversas mesas de debate, abordando a experiência do Orçamento Participativo de Porto Alegre.
Em novembro de 2009, por solicitação do CC do PCdoB, Carrion acompanhou o 2º turno das eleições presidenciais no Uruguai – quando José Mujica venceu com 52% dos votos, contra 44% do seu opositor –, acompanhando a votação e participando da grande festa da vitória.
No final de maio de 2013 – enquanto aconteciam em Havana as negociações de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC-EP – realizou-se em Porto Alegre o “Fórum Pela Paz na Colômbia”, com a participação de mais de mil pessoas de diversos países. Por solicitação de Carrion – que fez parte do Comitê Organizador do evento– a ALERS cedeu suas dependências para a realização do Fórum pela Paz. Nele, Carrion organizou um encontro de parlamentares – intitulado “Parlamentares e Paz” – que aprovou uma DECLARAÇÃO PELA PAZ, a qual obteve em poucos dias a adesão de centenas de assinaturas de parlamentares de todo o mundo e foi enviada para a Colômbia.
Em abril de 2014 – a convite da Secretaria de Relações Internacionais da Frente Guasu, do Paraguai e por solicitação da Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB, Ricardo Abreu de Melo (“Alemão”) –, Carrion viajou à Assunção, representando a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da ALERS, com o objetivo de acompanhar o caso dos cinco líderes camponeses presos há mais de dois anos e em greve de fome há 55 dias, que corriam risco iminente de morte.
Em Asuncion, Carrion cumpriu uma intensa agenda, visitando os presos no Hospital Militar, participando de atos públicos, reuniões no Senado da República, encontros com entidades sociais e de Direitos Humanos e entrevistas aos meios de comunicação, culminando com uma audiência com o Procurador Geral da República Javier Dias Veron, em 11 de abril, seguida de uma entrevista coletiva na própria sede do Ministério Público. Na ocasião, Carrion afirmou que se algum dos presos viesse a morrer, o Estado e o Governo Paraguaio seriam responsabilizados.
No dia seguinte, o Judiciário paraguaio – tendo em conta “o exame médico forense e a recomendação do Ministério Publico” – revogou a prisão preventiva dos cinco presos, substituindo-a por prisão domiciliar. Com essa vitória, a greve de fome desses camponeses foi suspensa e as suas vidas foram salvas.
Em agosto de 2014, Carrion participou enquanto Presidente da UNALE no Encontro da Confederação Parlamentar das Américas (COPA), realizado no México, compondo a sua Mesa de Abertura e fazendo parte de diversos painéis de debate.
Entre os dia 13 e 15 de novembro de 2014, a convite do Secretário de Relações Internacionais do PCdoB, “Alemão”, Carrion acompanhou o 16º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários (16º EIPCO), realizado em Guaiaquil, Equador, que teve a participação de 85 delegados, de 53 partidos e organizações dos cinco continente, entre os quais os PCs da China, Cuba, Vietnã, Coréia e Laos.
Ao final do Encontro, os delegados participaram da marcha realizada todos os anos em Guayaquil, reverenciando 300 operários mortos em novembro de 1922, a mando do então Presidente José Luis Tamayo, que antes de serem jogados no Rio Guayas, tiveram os seus abdomes rasgadas com baionetas, para que os seus corpos não voltassem à tona!
De 12 a 14 de março de 2015, Carrion participou – a convite da Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB – do XIX Seminário Internacional “Los Partidos y uma Nueva Sociedad”, promovido pelo Partido del Trabajo de México, na Cidade do México. Participaram do evento um grande número de PCs e partidos da esquerda mundial, debatendo a contra-ofensiva imperialista contra os governos progressistas, através de “Golpes de Novo Tipo”.
No dia seguinte ao término do Seminário, Carrion acompanhou junto com “Alemão” a reunião do Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo, que tratou da organização do 21º Encontro do FSP.

Cuba: o socialismo que não se rende e desafia o império

Em 2000, Carrion – militante da solidariedade à Cuba desde os tempos da ditadura militar e membro ativo da Associação Cultural José Marti – visitou pela primeira vez a Ilha Revolucionária, com o objetivo de participar do “II Encontro Mundial de Amizade e Solidariedade com Cuba”, que ocorreu no Centro de Eventos Karl Marx, em Havana.
Em Havana, acompanhado do jornalista comunista português Miguel Urbano Rodrigues e do dirigente estudantil brasileiro Rubens Diniz – que atuava na OCLAE – Carrion manteve contatos com diversos intelectuais e dirigentes cubanos, para melhor conhecer a realidade cubana, convidando-os a participarem do 1º Fórum Social Mundial de Porto Alegre.
Oito anos depois, em novembro de 2008, Carrion organizou a ida de uma delegação oficial da Assembleia Legislativa/RS a Cuba. Além dele, participaram os deputados Daniel Bordignon (PT), Miki Breier (PSB), Adroaldo Loureiro (PDT), Iradir Pietroski (PTB), Álvaro Boésio (PMDB) e Luiz Fernando Záchia (PMDB). Diversas lideranças políticas e sociais acompanharam essa delegação parlamentar, como a ex-deputada Jussara Cony, Superintendente do GHC, Lúcio Vieira, da SEC-RS, Abgail Pereira, da UBM e da CTB e Oscar Plentz, Presidente da POA-TV.
Depois de conhecer de perto as conquistas da Revolução Cubana e conviver com o seu povo, a delegação retornou a Porto Alegre e fez um Relatório de viagem – do qual já foram publicadas duas edições –, que foi amplamente distribuído. Posteriormente, Carrion criou a Frente Parlamentar em Solidariedade ao Povo Cubano, que obteve a adesão de 47 dos 55 deputados e realizou inúmeras atividades de solidariedade a Cuba.
Em novembro de 2014, os deputados Raul Carrion e Gerson Burmann (PDT) viajaram a Havana, para uma visita a Cuba, em companhia da Cientista Política Mercedes Canepa, da UFRGS, e do Jornalista Pedro de Oliveira. Entre os dias 17 e 24 de novembro, realizaram uma intensa agenda em Havana, Santa Clara e Varadeiro, visitando universidades, centros de investigação, instituições governamentais, entidades sociais e populares, centros esportivos, museus, monumentos e complexos turísticos. Na volta, Carrion publicou e divulgou o Relatório detalhado dessa viagem, acompanhado de um breve histórico de Cuba.

China: a comprovação de que o socialismo dá certo

A primeira visita da Carrion à China se deu em novembro de 2008, quando ele fez parte da delegação do Conselho das Cidades ao 4º Fórum Mundial Urbano – promovido pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-HABITAT) –, em Nanjing, na China, que contou com a participação de 7.755 representantes de 157 países. Após o Fórum, Carrion viajou a Pequim para retornar ao Brasil, tendo a possibilidade de conhecer a moderna capital chinesa e adquirir extensa literatura histórica, política e econômica sobre a China. Nessa viagem, além de participar de um importante evento mundial sobre a temática habitacional, Carrion pôde adquirir um conhecimento direto da realidade chinesa.
Em fins de 2009, início de 2010, Carrion fez outra viagem à China, em caráter pessoal, visitando Pequim, Xian, Guilin, Hangzou, Suzhou e Shangai. Através dela, além de aprofundar o seu conhecimento da milenar cultura chinesa, Carrion pôde ter uma visão mais ampla da realidade do país, da maneira de viver do seu povo e a pujança da que hoje é a maior e mais dinâmica economia do mundo.
Entre 28 de novembro e 9 de dezembro de 2013, Carrion – junto com as deputadas Marisa Formolo (PT) e Mirian Marroni (PT) – visitou a República Popular da China, acompanhando o Governador Tarso Genro e uma comitiva de quase 70 pessoas, formada por secretários de Estado, prefeitos, empresários, universidades e meios de comunicação, com o objetivo de estreitar laços econômicos, sociais e políticos com a China. Nesses dez dias, a Delegação Gaúcha esteve em Pequim, Shangai e Wuhan (capital de Hubei, província irmã do Rio Grande do Sul), visitando universidades, centros tecnológicos, indústrias de ponta e instituições governamentais, prospectando oportunidades de negócios e de cooperação. Da mesma forma, assistiram palestras sobre a China, recolhendo valiosas informações. Após o retorno a Porto Alegre, Carrion elaborou um Relatório minucioso sobre a viagem, que foi publicado e amplamente divulgado.
A quarta viagem à China aconteceu em julho de 2014, quando a delegação que viajava a República Popular e Democrática da Coréia, liderada por Carrion, fez escala em Pequim, antes de seguir para Pyongyang. Na ocasião, Carrion e os demais membros da delegação aproveitaram essa escala de um dia para ter uma reunião com o Departamento de Relações Internacionais da China e com a Embaixada Brasileira em Pequim, trocando idéias sobre as realidades chinesa, brasileira e mundial.
Entre 20 e 30 de junho de 2016, por delegação do então Secretário de Relações Internacionais do PCdoB, José Reinaldo de Carvalho, Carrion viajou novamente à China, para representar o PCdoB no “Seminário sobre o Socialismo na América Latina”, no qual estiveram presentes delegações de Cuba, Brasil, Uruguai, Equador, Bolívia, Chile, Nicarágua, El Salvador e México. Em um primeiro momento, os participantes estiveram em Guagzhou, Província de Cantão, indo em seguida para Jinggangshan, na Província de Jiangxi – onde teve início a luta armada na China. Ali, ficaram alojados até 26 de junho, na China Executive Leadership Academy of Jinggangshan (CELAJ), assistindo palestras e debates sobre a realidade chinesa e visitando locais históricos da luta revolucionária.
Em 26 de junho, a delegação seguiu para Pequim, onde fez visitas a empresas de alta tecnologia e a órgãos governamentais e partidários. O dia 29 foi inteiramente dedicado ao seminário, no qual Carrion apresentou a intervenção “O Socialismo é o rumo, o fortalecimento da nação é o caminho”. No dia 30, assistiram uma palestra sobre a economia chinesa no Instituto de Estudos Macroeconômicos. A seguir, reuniram com o Vice-Ministro Zhou Li, do Departamento de Relações Internacionais do CC do PC da China,onde conversaram sobre a política externa chinesa e a realidade internacional. No dia seguinte, Carrion iniciou o seu retorno ao Brasil.

Vietnã: o socialismo heróico que derrotou três imperialismos

Em sua preocupação de conhecer as experiências socialistas vigentes, Carrion – recém eleito para o seu segundo mandato na ALERS – realizou uma viagem de caráter pessoal ao Vietnã em janeiro de 2011, ocasião em que visitou Hanói, Halong, Hoi An, Hué, Ho Chi Minh (ex-Saigon) e Cuchi. Em Hanói, Carrion teve uma reunião com representantes do Departamento de Relações Internacionais do PC do Vietnã, para combinar a ida de uma Delegação da Assembleia Legislativa do RS ao Vietnã.
De volta a Porto Alegre, Carrion organizou essa Delegação, da qual participaram, além dele, os deputados Heitor Schuch (PSB), Alceu Barbosa (PDT) e Marcelo Morais (PTB). Também acompanharam essa delegação o coordenador da bancada do PT, João Ferrer, o Presidente do IRGA, Cláudio Pereira, o Assessor do Governador Tarso Genro, Federico Fornazieri e o Professor Paulo Visentini, da UFRGS. Durante nove dias, a delegação realizou uma intensa agenda em Hanói e Ho Chi Minh, visitando a Assembleia Nacional, instituições governamentais, universidades, museus, centros de pesquisa e empresas de alta tecnologia, constatando os grandes avanços e o desenvolvimento acelerado da República Socialista do Vietnã.
Como resultado dessa viagem, ampliaram-se as relações entre o Rio Grande do Sul e o Vietnã e foi criada, em abril de 2012, a Secção Gaúcha da Associação de Amizade Brasil-Vietnã (ABRAVIET-RS), presidida por Carrion até o inicio de 2016, quando assumiu a presidência o Historiador Daniel Sebastiani.

RPD da Coreia: o socialismo sitiado e ameaçado

Em julho de 2014 – em articulação com a Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB –, Carrion organizou a visita de uma delegação brasileira à República Popular Democrática da Coreia. Participaram dessa delegação, além de Carrion, o Prof. Paulo Visentini e a Profª. Analúcia Danilevicz (ambos da UFRGS), o Subsecretário de Esportes do Espírito Santos, Anderson Falcão, e o Presidente da UJS de Goiás, Lucas Ribeiro Marques.
Na RPDC, em apenas sete dias, a delegação fez mais de 40 agendas, visitando monumentos, museus, centros culturais, esportivos e de lazer, indústrias e cooperativas agrícolas, além de uma esclarecedora reunião com Pac Gun Kwang, Vice-Diretor do Departamento Internacional do Partido do Trabalho da Coréia.
A Coreia que conheceram, convivendo com o seu povo, dista muito da imagem deturpada que a mídia internacional – a serviço do imperialismo estadunidense e de seus aliados – apresenta. Conheceram um país onde não existe miséria; os impostos foram abolidos há mais de 40 anos e o Estado assegura a todos o acesso à alimentação, vestuário e moradia. Uma nação moderna, de alta tecnologia, orgulhosa de seus feitos e de sua resistência ao maior e mais longo bloqueio econômico, diplomático e midiático que qualquer país já sofreu até os dias de hoje. Daí a sua determinação em basear-se em suas próprias forças e não depender de ninguém, mais por já haver experimentado na carne as conseqüências de depender dos outros, do que por qualquer visão “autárquica” ou “nacionalista estreita”.
Aliás, ao contrário do que muitos pensam, a RPDC permite os investimentos estrangeiros desde 1984 e – mantendo a predominância das formas socialistas de produção – estimula a associação das empresas coreanas com pessoas naturais e jurídicas estrangeiras e os investimentos estrangeiros nas Zonas Econômicas Especiais. A experiência melhor sucedida é o Complexo Industrial de Kaesong, gerido pela Hyundai sul-coreana, na fronteira entre os dois países, que em seu terceiro estágio englobará cerca de duas mil empresas e 300.000 trabalhadores.
Foi a sua intrepidez frente às graves ameaças estadunidenses que obrigou o destemperado governo Trump a abrir negociações com a RPDC e, inclusive, solicitar autorização para uma visita à região desmilitarizada de Panmunjon para encontrar-se com o Kim Jong Un, o líder da nação norte-coreana.
De volta ao Brasil, Carrion publicou pela ALERS o relato dessa viagem – ao que agregou um alentado estudo sobre a Guerra da Coreia e sobre a construção socialista na RPDC. Carrion também organizou na ALERS uma exposição de fotos, livros, revistas, peças de artesanato e promoveu um debate sobre a RPDC, com a participação da Embaixada norte-coreana no Brasil.

A Federação Russa e as ex-Repúblicas Socialistas da extinta URSS

Em 2013, Carrion visitou em caráter particular as três ex-Repúblicas Socialistas do Báltico – Estônia, Lituânia e Letônia –, que sempre tiveram uma relação complexa com a extinta URSS, onde observou uma política governamental de clara animosidade em relação à numerosa população de origem russa que aí vive, inclusive abolindo o ensino do russo em suas escolas. São países muito dependentes da indústria do turismo, com uma forte influência da ideologia burguesa reacionária, nos quais – desde a sua separação da URSS – boa parte da sua população precisa emigrar a outros países europeus para conseguir trabalho.
Após visitar esses países, Carrion foi a Berlim, tanto à sua região ocidental, como à ex- República Democrática da Alemanha. Nesta, é onde se encontra mais preservada a Berlim histórica e estão os monumentais museus alemães. Nesses museus, quando tratam da época contemporânea, se percebe o esforço para eliminar qualquer vestígio do período socialista e minimizar os crimes do nazismo.
Em abril de 2015, Carrion esteve pela primeira vez na Federação Rússia – visitando Moscou e São Petersburgo (ex-Leningrado) –, indo após à Bielo-Rússia, ex-República Socialista da extinta URSS.
Em Moscou, Carrion reuniu-se com Tatiana Deciatova – do Departamento de Relações Internacionais do CC do PC da Federação Russa – e com Leo Plaza, comunista chileno radicado em Moscou, que ajudou como tradutor nas diversas agendas que Carrion teve na capital Russa. Além de conhecer a belíssima capital russa, Carrion visitou o Parlamento Nacional – onde reuniu-se com a Deputada Olga Alimova do PCFR – e o Parlamento de Moscou – onde reuniu-se com o Deputado Leonid Ziuganov e com o Coordenador da Bancada do PCFR, Serguéi Tomojov. Em todas essas agendas, Carrion contou com a atenciosa companhia de Tatiana Deciatova e de Leo Plaza. Posteriormente, o portal do PCFR estampou com destaque a noticia da visita de Carrion à Moscou.
Essa visita permitiu a Carrion conhecer a realidade atual do país que realizou a primeira revolução socialista – transformando um país medieval em uma potência mundial –, construiu a União das Repúblicas Socialistas e salvou a humanidade – ao custo de milhões de vidas – da escravidão nazi-fascista. Pátria do socialismo que – pela ação de traidores como Gorbachov, Yeltsin e outros – foi desmantelada, mergulhada em uma profunda crise e transformada em uma nação de segunda categoria. Mas que hoje renasce como potência mundial, ainda que não mais socialista, e volta a jogar um importante papel na arena internacional, enfrentando os EUA em seu projeto de dominar o mundo e submeter pela força os que ousarem resistir.
Apesar da destruição de grande parte dos avanços sociais, políticos e econômicos da antiga URSS e a tentativa de apagar da memória do povo essa gloriosa experiência – como ocorre em seus atuais museus que glorificam o período czarista e desprezam a experiência socialista – ainda são perceptíveis as suas grandes conquistas. A própria força do PCFR, como cerca de 100 deputados nacionais, expressa isso. E as pesquisas indicam que a cada ano cresce a nostalgia em relação à antiga URSS.
Da Rússia, Carrion foi à Bielo-Rússia, onde se reuniu com o 1º Secretário do PC da Bielo-Rússia e Prefeito de Minsk, Igor Karpenko – a quem havia conhecido no XIX Seminário Internacional do Partido del Trabajo de México –, com os deputados da Assembleia Nacional da Bielo-Rússia Aleksei Kuzmich, Viktor Fesak e Valiantsina Zhurauskaya e com outros dirigentes do PC da Bielo-Rússia. Nessas reuniões foi realizado um valioso intercâmbio de idéias e informações.
Nos dias em que esteve em Minsk, Carrion – na companhia de dirigentes do PC da Bielo-Rússia – cumpriu uma intensa agenda para conhecer a realidade do país, visitando o Museu da Guerra, o Complexo Esportivo Nacional, o Hospital nº 10 de Minsk, a maior fábrica de tratores do país e assistiu um belíssimo espetáculo de Balé no Teatro Nacional. Também visitou – acompanhado pelo Embaixador brasileiro Paulo Antônio Pereira Pinto – a Universidade Estatal da Bielo-Rússia.
Carrion – que muito pouco conhecia sobre a Bielo-Rússia – constatou que apesar do sistema socialista soviético não mais existir, persiste nesse país uma forte economia estatal, planejada, convivendo com setores privados, com uma forte influência do Partido Comunista, o qual tem uma relação muito próxima com o Presidente Aleksandr Lukashenko. Pôde compreender, então, porque o governo da Bielo-Rússia, e o seu presidente, são tão atacados pela mídia internacional, que os caracteriza como “conservadores” e “não democráticos”.
Em outubro e novembro 2017, por ocasião das comemorações do centenário da Revolução Russa, Carrion percorreu as ex-Repúblicas Socialistas da Ásia Central – Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Turcomenistão – além da Ucrânia e da Rússia (esta pela segunda vez).
Na Ásia Central, Carrion pôde constatar – apesar de terem passado tantos anos da restauração capitalista – os avanços decorrentes da edificação do socialismo nesses países, transformando povos ainda nômades em sociedades modernas. Também foi possível perceber os primeiros efeitos nesses países da “Nova Rota da Seda”, impulsionada pela China. Conversando com algumas pessoas desses países, escutou que os mais velhos (as gerações que viveram a experiência do socialismo) têm “saudades” dos tempos da URSS. Já os mais jovens tendem a idealizar a realidade atual.
Da Ásia Central, Carrion viajou para Kiev, capital da Ucrânia, onde vigora atualmente um regime de caráter neo-fascista, que criminaliza e persegue os comunistas e a esquerda. Cidade histórica da Grande Rússia – que foi ocupada e destruída pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, sendo reconstruída pelos soviéticos –, Kiev ainda conserva uma imponente arquitetura e importantes museus, entre os quais se destaca o seu impactante Museu da Segunda Guerra.
Havendo estado em Kiev na semana em que era comemorada a revolta de 2013 – na qual atuaram, de forma organizada e com grande violência forças de ultra-direita, derrubando o governo de então, Carrion pôde observar na Praça Maidan, epicentro dos confrontos, uma forte propaganda neofascista em nome da “Liberdade”...
De Kiev, Carrion seguiu para Moscou, para participar dos grandes atos comemorativos dos 100 anos da Revolução Russa – na Praça Vermelha e na Praça da Revolução –, que reuniram milhares de comunistas russos e de todo o mundo, entre os quais cerca de 300 brasileiros, incluindo militantes e dirigentes do PCdoB. Da mesma forma, aproveitou para rever lugares históricos e museus que não visitara em sua primeira viagem a Moscou, entre eles o da Segunda Guerra Mundial.

Leste Europeu: regressão a um capitalismo periférico e fornecedor de mão de obra

A primeira viagem de Carrion ao Leste Europeu, com o objetivo de conhecer os efeitos da restauração capitalista nesses países, ocorreu em julho de 2011, quando visitou em caráter pessoal a Polônia - onde retornou em 2015 -, Eslováquia, República Tcheca e Hungria.
Em 2015, Carrion visitou a Romênia, Bulgária, Sérvia e Croácia – onde reuniu com dirigentes de seus Partidos Comunistas, debatendo os processos contra-revolucionários que neles ocorreram e a situação atual dos seus países. Nessa mesma ocasião, Carrion esteve na Eslovênia, Bósnia e Montenegro – ex-Repúblicas da Yugoslávia –, mas não teve a possibilidade de reunir com a direção dos seus Partido Comunistas.
Em 2016 voltou a visitar à Eslováquia, República Tcheca, Hungria e Polônia.
Em todas essas ocasiões, foi possível perceber a desindustrialização e a subalternização das economias desses países, que se transformaram em mercados consumidores de bens produzidos na Europa Ocidental e fornecedores de mão-de-obra barata – ainda que qualificada – para as empresas ocidentais.
A sua beleza arquitetônica – resultado do cuidado dos governos socialistas com a conservação de seus monumentos históricos, inclusive realizando vultuosos investimentos na sua restauração, como na “cidade antiga” de Varsóvia, que havia sido completamente destruída pelos nazistas – é um desmentido da ladainha dos reacionários de todo o mundo de que “os comunistas não preservam os monumentos do passado”.
Também foi perceptível a verdadeira “lavagem cerebral” feita a boa parte de seus guias turísticos que não enrubecem quando afirmam que os soviéticos – e não os nazistas – são os grandes responsáveis pelo massacre de seus povos durante a Segunda Guerra Mundial!
Infelizmente, ainda não se percebe o surgimento nesses países de uma alternativa revolucionária, a curto ou médio prazo.

A solidariedade à Palestina ocupada e martirizada

Todos os povos do mundo merecem a solidariedade de quem almeja um mundo mais justo e humano, mas povo palestino – que teve a sua pátria ocupada à força por imigrantes estrangeiros e que há mais de 70 anos luta pelo seu direito a um Estado Nacional, sofrendo todo o tipo de violências e massacres – necessita dessa solidariedade em um grau superior. Por isso, Carrion sempre teve essa bandeira como central. Afora múltiplas atividades de solidariedade ao povo palestino, podemos destacar que em 2010, Carrion protocolou na Assembléia Legislativa um projeto criando o Dia Estadual de Solidariedade ao Povo Palestino, transformado na Lei n.º 13.725, de 16 de maio de 2011
Em 30 de novembro de 2012 – quando da realização em Porto Alegre do Fórum Social Mundial Palestina Livre – Carrion organizou na ALERS o Fórum Parlamentar Mundial Palestina Livre, com a participação de parlamentares da América Latina, Europa, África e Ásia. A Mesa de Abertura do FSM-PL – presidida por Carrion – contou com a presença de Tarso Genro, Governador do Rio Grande do Sul, Nabil Shaath, representante da Autoridade Nacional Palestina, Fayez Saqqa, representante do Parlamento Palestino, e Ibrahim Al Zeben, Embaixador da Palestina no Brasil. Ao final do Fórum, foi aprovada a Carta de Porto Alegre, em apoio à luta do povo palestino pelo seu Estado Nacional e contra a opressão israelense, traduzida para o inglês, o espanhol e o árabe e amplamente divulgada.
Em março de 2013, Carrion se fez presente ao Fórum Social Mundial da Tunísia – que teve como uma de suas marcas a solidariedade ao povo palestino – e ao simultâneo Fórum Parlamentar Mundial. No FSM, Carrion fez uma palestra na Mesa “Apartheid de Israel contra a Palestina”, onde relatou o Fórum Social Mundial Palestina Livre de Porto Alegre, e divulgou a Carta nele aprovada. Nesse FSM, Carrion também participou da Oficina “Pelo Direito ao acesso universal dos bens comuns sobre Habitação, Saneamento, Energia e Água”, organizada pela CONAM.
Já no Fórum Parlamentar Mundial da Tunísia, Carrion compôs a Mesa de Encerramento, junto com o Deputado Ahmed Essefi, da Frente Popular da Tunísia, a Deputada do Parlamento Europeu Karima Delli, do Partido Verde, e a Deputada Marie Christine Vergiat, do GUE/NGL, defendendo entre outras questões a solidariedade à luta do povo palestino
Entre 26 de abril e 2 de maio de 2013, Carrion acompanhou o Governador Tarso Genro e uma comitiva de mais de 80 pessoas – incluindo órgãos do governo, universidades, empresários, prefeitos e veículos de comunicação – em sua viagem à Palestina e Israel, visitando Ramallah, Tel Aviv, Jaffa, Hebron, Haifa e Jerusalém. Além de Carrion, participaram da comitiva a deputada Marisa Formolo (PT), o deputado Aldacir Oliboni (PT), o deputado Miki Breier (PSB) e o deputado Gilmar Sossella (PDT).
Nessa viagem, os deputados puderam ver de perto o sistema de apartheid contra a população palestina – confinada em áreas cercadas por altos muros e vigiada dia e noite por soldados armados até os dentes, com ordem para matar qualquer palestino “suspeito”. No seu retorno, Carrion publicou e divulgou o Relatório da “Missão Oficial da ALERS à Palestina e Israel”.

Carrion passa a fazer parte da Comissão Nacional de Relações Internacionais e de sua Executiva

Em fins de 2018, a convite do novo Secretário de Relações Internacionais do PCdoB – Walter Sorrentino –, Carrion passou a fazer parte da Executiva da Comissão Nacional de Política e Relações Internacionais, ficando responsável pelo Cone Sul.
Nessa condição, participou, em abril de 2019 – junto com Walter Sorrentino e Ana Maria Prestes –, do Encontro de Partidos Comunistas da América do Sul, realizado em Montevidéu, que contou com a presença dos PCs do Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e Brasil (PCdoB e PCB). Também se fez presente o Embaixador de Cuba no Uruguai. Ao final do encontro – marcado pela unidade – foi aprovada uma Declaração consensual dos Partidos Sul-Americanos.

56 anos de atuação revolucionária e 50 de militância comunista

Em 2019, Raul Carrion completou 56 anos do seu ingresso na Ação Popular (AP) e 50 anos de atuação ininterrupta no Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
Nessa caminhada, Carrion iniciou a sua militância política nas lutas estudantis secundaristas e universitárias. Foi estudante de Engenharia Química da UFRGS durante quatro anos. Suspendeu os estudos para trabalhar como operário metalúrgico no Vale do Sinos, com identidade falsa, e participar da luta dos trabalhadores calçadistas. Após ingressar no PCdoB, retornou a Porto Alegre para fazer o curso de Química na UFRGS. Foi Professor em diversas escolas e cursinhos. Preso e barbaramente torturado em 1971, teve de exilar-se no Chile e Argentina, onde realizou um trabalho de solidariedade à luta do povo brasileiro contra a ditadura. Na Argentina formou-se técnico em eletrônica.
Retornou clandestinamente ao Brasil para retomar a luta no momento em que a Guerrilha do Araguaia havia sido aniquilada. Foi morar e trabalhar em Goiânia. Com a “Queda da Lapa” e o assassinato sob tortura do seu contato em Goiânia, ficou isolado do PCdoB. Viajou ao exterior para refazer os contatos com o Partido, voltando após para Goiânia. Com a Anistia retornou a Porto Alegre – agora com a esposa e a filha –, trabalhando como metalúrgico e tornando-se uma destacada liderança sindical.
Atuou no movimento comunitário, onde foi Vice-Presidente da Associação de Moradores do Jardim Ipiranga, Presidente da Associação de Moradores do Centro de Porto Alegre e duas vezes Presidente do Conselho Deliberativo da UAMPA (União das Associações de Moradores de Porto Alegre). Participou de grandes lutas pela Moradia e pela Reforma Urbana. Foi eleito para o Conselho Nacional das Cidades e para o Conselho Estadual das Cidades por cinco vezes, ali permanecendo por 11 anos. Presidiu em 2014 a União Nacional de Legisladores e Legislativos Estaduais (UNALE).
Anistiado, foi sócio fundador do Movimento dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Rio Grande do Sul (MEPPP-RS) e presidente por três vezes do seu Conselho Deliberativo, sendo atualmente o seu Vice-Presidente.
Na luta política institucional, foi oito vezes candidato do PCdoB – à Prefeito de Porto Alegre, suplente de Senador, deputado federal, deputado estadual e vereador. Cumpriu o mandato de vereador em três legislaturas e de deputado estadual em duas legislaturas. Foi Chefe de Gabinete da Vereadora Jussara Cony, na CMPA e Coordenador da Bancada do PCdoB na Assembleia. No executivo estadual, foi Diretor-Presidente da Fundasul, onde dirigiu mais de mil servidores. Servidor concursado do Ministério Público Estadual, só aposentou-se aos 72 anos de idade, após quase 40 anos de trabalho.
No PCdoB – além de compor o seu Comitê Estadual desde 1970 (salvo quando esteve fora do país ou do Estado) e participar desde então do seu Secretariado ou de sua Comissão Política –, presidiu por duas vezes o Comitê Municipal de Porto Alegre, o Comitê de Canoas e o Comitê Estadual do PCdoB. Atualmente, é membro da Comissão Política Estadual e da Comissão Executiva da Secretaria de Relações Internacionais do CC do PCdoB.
Sempre dedicado à luta de idéias, foi um dos fundadores do Centro de Estudos Marxistas do RS e do Centro de Debates Econômicos, Sociais e Políticos do RS. Participou da organização de diversos Fóruns Sociais Mundiais. Foi o primeiro Presidente do Instituto Maurício Grabois no RS e preside atualmente a seção gaúcha da Fundação Maurício Grabois. Organizou mais de uma dezena de importantes seminários de caráter nacional e internacional. É co-autor ou organizador de 14 livros e dezenas de publicações.
Estudioso do socialismo esteve por diversas vezes na China, Cuba e Vietnã, além de uma vez na RPD da Coreia e no Laos. Da mesma forma, visitou a maioria das ex-Republicas Socialistas que faziam parte da extinta URSS e viajou todo o Leste Europeu. Internacionalista convicto, participou de mais de duas dezenas de encontros, missões ou atividades internacionais. “Cidadão do mundo”, conheceu mais de 80 países e as mais distintas culturas.
Nos dias de hoje, quando impera no Brasil um governo ultra-neoliberal que ataca as liberdades democráticas, realiza o mais deslavado entreguismo e liquida com os direitos trabalhistas, previdenciários e civis, Carrion conclama à construção de uma ampla Frente Democrática, com o objetivo de barrar as ameaças neo-fascistas. Segundo ele, "a esquerda precisa aprofundar a sua união, para tornar-se o polo aglutinador de uma unidade mais ampla, que supere as suas fronteiras. Só assim deteremos o fascismo que ganha corpo!"
Esse livro busca relatar essa trajetória de 56 anos de lutas e de vivências de Raul Carrion – 50 dos quais no Partido Comunista do Brasil – na expectativa de que ela inspire os que dedicam a sua vida ao progresso da humanidade e comprove que a luta pelo fim da exploração do homem pelo homem e contra todo o tipo de opressão – por mais difícil e sinuosa que seja – vale à pena e que o importante é manter-se sempre do lado certo da História!