O imperialismo estadunidense – em declínio relativo já há
alguns anos e com o seu projeto de domínio mundial colocado
em xeque pelo desenvolvimento acelerado da China socialista,
por sua aliança estratégica com a Rússia e pelo surgimento
de novos polos de poder no “Sul Global” – fomenta conflitos
armados em toda parte, com o objetivo de enfraquecer os seus
rivais e dar uma sobrevida à sua decadente hegemonia.
É nessa perspectiva que deve ser
entendida a sua guerra por procuração na Ucrânia, o apoio a
Israel no genocídio em Gaza e em sua invasão ao Líbano, a
tentativa de estrangular Cuba, o sequestro do Presidente
Maduro, os ataques ao Irã.
Mas é preciso não esquecer a
intensificação do cerco à China socialista, as provocações
no Mar Meridional da China e, em especial, o fornecimento do
mais moderno armamento à Taiwan, acompanhado de ameaças
militares caso a China use a força em resposta a uma
eventual declaração de independência por parte de Taiwan. A
tudo isso soma-se a proibição à Taiwan de vender chips
avançados para a China e todas as sanções e embargos
tecnológicos. Para uma comparação, é como se a China
fornecesse armas ao Texas para independizar-se dos Estados
Unidos e lhe proibisse vender petróleo aos EUA...
Tendo em conta a desinformação
difundida pelos monopólios midiáticos do Ocidente, que
apresentam o imperialismo estadunidense e o governo
reacionário de Taiwan como paladinos da democracia e da
autodeterminação dos povos e a China como a vilã, que
desrespeita a soberania nacional de Taiwan, é necessário
contextualizar historicamente o conflito.
O INDISCUTÍVEL PERTENCIMENTO DE
TAIWAN À CHINA
A Ilha de Taiwan foi inicialmente
habitada por populações malaio-polinésios. Em 1633, os
holandeses da Companhia das Índias Orientais se
estabeleceram no Sul de Taiwan, mas desde o final do século
XVI havia ocorrido uma massiva imigração chinesa. Os
holandeses foram expulsos pelos chineses em 1662 e Taiwan
foi incorporada à China em 1685 como uma divisão
administrativa da província de Fujian. Em 1885, então com
uma população de três milhões de habitantes, tornou-se uma
província chinesa.
Em sua expansão imperialista, o
Japão invadiu a China em 1895, forçando-a a assinar o
tratado de Shimonoseki, através do qual a obrigou a
pagar uma vultuosa indenização de guerra, a conceder-lhe
quatro portos livres e a entregar-lhe a província de Taiwan,
Liaodong na Manchúria e as ilhas Pescadores.
Em 1937, o Japão voltou a invadir a
China, ocupando toda a Manchúria e nela instalando um
governo títere, a seu serviço.
Em 1945, com a vitória dos aliados,
o Japão foi obrigado a devolver Taiwan à China, assim como a
Manchúria e os demais territórios ocupados, conforme os
acordoa de Yalta. Na ocasião, a China era governada por
Chiang Kai-shek e seu Kuomintang.
Quando, em 1949, a revolução
liderada pelos comunistas foi vitoriosa, dois milhões de
apoiadores do Kuomintang – incluídos 600 mil soldados – se
refugiaram em Taiwan, com o apoio e a proteção dos Estados
Unidos.
A LONGA LUTA DE LIBERTAÇÃO DA CHINA
Depois da Primeira Guerra Civil
Revolucionária (1924-1927) e da Segunda Guerra Civil
Revolucionária (1927-1937), o Exército Popular de
Libertação, sob a liderança do Partido Comunista da
China, suportou o esforço principal da Guerra contra o Japão
– que havia invadido e ocupado grande parte da China
(1937-1945) –, tendo que lutar em duas frentes: contra os
imperialistas japoneses e contra o Kuomintang de Chiang
Kai-shek, que sabotava a luta contra o inimigo comum e
colaborava abertamente com os japoneses, com o objetivo de
enfraquecer o Exército Popular Libertador.
Quando, em agosto de 1945 o
exército soviético passou à ofensiva na Manchúria,
aniquilando as principais tropas japonesas, o Exército
Popular de Libertação também lançou uma grande ofensiva,
libertando 150 cidades e ampliando os territórios
controlados na China Central e do Norte, aproximando-se de
Pequim, Nanquim e Shangai.
Para opor-se ao avanço das tropas
revolucionárias, os Estados Unidos desembarcaram um exército
de mais de 100 mil homens em várias regiões da China e,
junto com o Kuomintang, ocuparam Pequim, Nanquim e Shangai.
Após a derrota dos japoneses, os
comunistas propuseram a retirada de todas as tropas
estrangeiras e a formação de um governo de coalizão, com a
participação de todos os partidos, mas o Kuomintang recusou
a proposta.
Em julho de 1946, depois de uma
trégua de sete meses, os exércitos do Kuomintang atacaram as
áreas controladas pelo Exército Popular de Libertação,
no Norte e no Centro do país. Eram quatro milhões e
trezentos mil homens – abastecidos pelos EUA e com o
armamento mais moderno –, contra um milhão e duzentos mil
homens das forças revolucionárias, precariamente armados.
Utilizando a tática de guerrilhas –
em combinação com a guerra de movimentos e a guerra de
posições –, o Exército Libertador resistiu aos
ataques e, a partir de 1947, passou à contraofensiva em
escala nacional. Em pouco mais de dois anos, o Exército
Popular libertou toda China Central e Setentrional,
penetrou no Sudoeste e tomou Shangai, Hanchou e outras
cidades.
A FUGA DE CHIANG KAI-SHEK PARA
TAIWAN, SOB A PROTEÇÃO DOS EUA
Em meados de janeiro de 1949,
diante dos apelos de Chiang Kai-shek, o PCCh colocou as suas
condições para firmar a paz. Em 31 de janeiro, Pequim foi
libertada, depois que sua guarnição se retirou sem luta.
Diante da recusa do Kuomintang em aceitar as condições para
a paz, em 23 de abril o Exército Popular de Libertação
(EPL) tomou Nanquim – sede do governo do Kuomintang – e,
em 1º de outubro, proclamou em Pequim a criação da
República Popular da China.
Em dezembro de 1949, o EPL
cercou Chengou, a última grande cidade sob o contrôle do
Kuomintang. Derrotado, Chiang Kai-shek fugiu para Taiwan,
acompanhado pelas tropas que lhe restavam, sob a proteção da
Força Aérea e da 7ª Frota Naval dos Estados Unidos, que
bloquearam o estreito e os transportaram para a ilha,
impedindo que o Exército Popular a libertasse. Chiang
Kai-shek proclamou Taipei – a capital de Taiwan – a nova
capital da “República da China”.
A seguir, os EUA e a maioria das
potências ocidentais impuseram um bloqueio total à República
Popular da China, retiraram os seus embaixadores e as suas
empresas, transladando-as para Taiwan. A República Popular
da China – que representava 98% do território e quase toda a
população do país – foi impedida de assumir a sua cadeira na
ONU, por oposição dos EUA.
Em junho de 1950, os Estados Unidos
e seus aliados – Inglaterra, França, Itália, Holanda,
Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Grécia, Turquia, Canadá,
Austrália, África do Sul, Filipinas e Colômbia – uniram-se
em um grande ataque à Coreia do Norte, sob a bandeira da
ONU. O Brasil, mesmo pressionado, não se somou a essa
cruzada contra a Coreia do Norte, devido à forte campanha
contrária, liderada pelo PC do Brasil. Os EUA buscavam,
através dessa guerra, enfraquecer a China e viabilizar a
retomada do seu domínio pelo Kuomintang, mas fracassaram
pois sofreram uma dura derrota na Coreia, apesar de lhe
causarem uma imensa destruição.
OS GOVERNOS DITATORIAIS DE CHIANG
KAI-SHEK E DE SEU FILHO EM TAIWAN
Ao contrário da falácia do apoio a
Taiwan “para defender o mundo livre e a democracia”, a Ilha
ocupada pelas tropas de Chiang Kai-shek e dos EUA foi
mantida sob a Lei Marcial até julho de 1987, ali imperando o
“Terror Branco”, tendo suspensas as garantias
constitucionais e os direitos humanos, civis e políticos. A
ditadura de Chiang Kai-shek se notabilizou por sua violenta
polícia política – dirigida pelo seu filho Chiang Ching-kuo
–, acusada de cometer reiteradas violações de direitos
humanos.
Em 1972, Chiang Kai-sheck foi
reconduzido pela 5ª vez à presidência de Taiwan, ainda sob a
vigência da Lei Marcial. Em 1975, ele faleceu, depois de 26
anos à frente do governo de Taiwan, sempre contando com o
apoio incondicional das ditas “democracias ocidentais”. Por
um breve período, o ditador foi substituído pelo seu
vice-presidente, mas em seguida foi sucedido pelo filho
Chiang Ching-kuo, chefe da temida polícia política.
A Lei Marcial só foi suspensa 12
anos depois, em 1987, e somente em 1996 foi permitida a
participação de partidos de oposição nas eleições
presidenciais e pela primeira vez foi adotado o sufrágio
universal.
Essa é a “democracia” que o
ocidente gosta...
A ONU RESTABELECE OS DIREITOS DA
REPÚBLICA POPULAR DA CHINA E EXPULSA TAIWAN
Em outubro de
1971,
a
Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a
Resolução 2.758 / 71, expulsando os representantes de
Chiang Kai-shek e transferindo o assento chinês
no
Conselho de Segurança à República Popular da
China.
A Resolução afirmava que a
Assembleia Geral da ONU “decide restaurar todos os seus
direitos à República Popular da China e reconhecer os
representantes do seu Governo como os únicos representantes
legítimos da China nas Nações Unidas, e expulsar
imediatamente os representantes de Chiang Kai-shek do espaço
que ocupam ilegalmente nas Nações Unidas e em todas as
organizações a ela relacionadas."
A partir da aprovação da Resolução
2.758/71, a ONU passou a aceitar a existência de uma única
China – a República Popular da China –, desconsiderando a
existência da pretensa “República da China”, que sequer foi
citada na resolução. A única referência feita é a
“representantes de Chiang Kai-shek”, expulsos da ONU
e de todos os seus organismos.
Atualmente, dos 193 Estados membros
da ONU, 182 mantém relações diplomáticas com a República
Popular da China e apenas 11 – o Reino de Essatini, Palau,
Tuvalu, São Cristóvão e Neves, Santa Luzia, São Vicente e
Granadinas, Ilhas Marshall, Belize, Haiti, Paraguai e
Guatemala (que totalizam menos de 0,005% da população
mundial) – mantém relações diplomáticas com o governo de
Taiwan.
Só em dezembro de 1978 – sete anos
depois – os Estados Unidos reconheceram a República Popular
da China como a única representante do povo chinês e
deixaram de reconhecer a Ilha de Taiwan e a ter relações
diplomáticas com ela.
O DESRESPEITO DOS ESTADOS UNIDOS À
POLÍTICA DE UMA SÓ CHINA
Apesar dos Estados Unidos aceitarem
“da boca para fora” a existência de uma única China e que
Taiwan é parte do território chinês, continuam atuando de
forma descarada para fomentar o separatismo, vendendo-lhe as
mais modernas armas, estabelecendo relações oficiosas com o
seu governo, proibindo Taiwan de vender chips
avançados à China, patrulhando o estreito de Taiwan com suas
belonaves e ameaçando uma intervenção militar caso a China
use a força para efetivar a reunificação.
Em 1979, o Congresso estadunidense
aprovou o Taiwan Relation Act, assegurando o
fornecimento de armas à Taiwan e considerando uma ameaça aos
EUA qualquer boicote, embargo ou coerção militar à Taiwan.
E, em 2010, os EUA autorizaram suas indústrias a venderem
armas diretamente à Taiwan, sem necessitar de autorização
governamental.
Recentemente, a 1ª Ministra do
Japão – potência invasora e ocupante da China por várias
vezes – também ameaçou militarmente a China, caso reintegre
Taiwan pela força, tendo recebido uma dura resposta de
Pequim.
A China repele qualquer ingerência
estrangeira na questão da reunificação de Taiwan e reafirma
a sua intenção de promover a reintegração pacífica de Taiwan
– no modelo de “um país, dois sistemas”, usado em Macau e
Hong Kong –, mas aprovou em 2005 a sua Lei Anti-Secessão,
que prevê a intervenção militar no caso Taiwan proclamar a
independência.
AS ÚLTIMAS ELEIÇÕES EM TAIWAN
As últimas eleições de Taiwan
ocorreram em janeiro de 2024, tendo participado da disputa
pela presidência três partidos: o DPP (Partido Progressista
Democrático) – partido submisso aos Estados Unidos, que se
opõe à reintegração de Taiwan à China –, o KMT (Kuomintang)
e o TPP (Partido do Povo de Taiwan). Os dois últimos são de
oposição e têm uma postura de maior entendimento com a
República Popular da China.
Apesar de terem se comprometido a
apresentar uma chapa única de oposição, o KMT e o TPP
acabaram lançando cada um a sua própria chapa. Como em
Taiwan não existe 2º turno, a desunião das oposições deu a
vitória ao DPP, que obteve 40,05% dos votos, contra 33,49%
do KMT e 26,46% do TPP.
Apesar de haver vencido as eleições
presidenciais, o PDP perdeu a maioria parlamentar pois,
somada, a oposição conquistou 60% das vagas parlamentares.
Mostrando não ter qualquer compromisso com a democracia, o
presidente eleito lançou uma campanha para destituir através
de um referendo 24 deputados do KMT, mas foi derrotado em
todos os distritos eleitorais.
Pequim afirmou que as eleições
comprovaram que o DPP (que defende a independência de
Taiwan) não representa a maioria do povo de Taiwan, tendo
obtido apenas 40% dos votos. A China deixou claro que mantém
a sua posição de que Taiwan pertence à China, que a
reunificação é inevitável e que será feita se possível por
meios pacíficos, mas que qualquer proclamação de
independência por parte de Taiwan será respondida com o uso
da força.
No início deste mês, a presidenta
do
Kuomintang (KMT), Cheng Li-wun, realizou uma
visita à China continental, reunindo-se com o presidente Xi
Jinping. O objetivo oficial da visita da líder da oposição
de Taiwan foi
reduzir as tensões,
promover a paz e fortalecer os laços entre o KMT
(Kuomintang) e o Partido Comunista da China. Foi a primeira
visita de uma liderança do KMT à China nos últimos dez anos.
CONCLUSÃO
Pelo exposto, fica claro que a ilha
de Taiwan é parte histórica do território chinês, que só não
foi incorporada à República Popular da China em 1949 devido
à intervenção militar direta dos Estados Unidos que –
desrespeitando a autodeterminação do povo chinês – impediram
a sua libertação pelo Exército Popular.
Taiwan nunca existiu como nação
autônoma, nada mais sendo do que uma província chinesa. A
sua criação (“invenção”) foi um atropelo à soberania chinesa
e precisa ser reparada, como já aconteceu com Hong Kong e
Macau, enclaves coloniais da Grã-Bretanha e de Portugal. A
China se propõe a fazê-lo pacificamente. Quem está
desrespeitando a soberania nacional e a autodeterminação do
povo chinês e fomentando o conflito são os EUA e não a
China!
Com a sua proverbial paciência e com o apoio dos povos
do mundo, a China prevalecerá!