Porto Alegre, quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

   
A revolução chinesa e a "invenção" de Taiwan

Raul K. M. Carrion | Historiador
15 de janeiro de 2024

     Diante da não unificação dos partidos de oposição – que chegou a ser tentada –, o atual vice-presidente de Taiwan, membro do Partido Democrático Progressista venceu as eleições, com 40,05% dos votos, contra 33,49% do candidato do Kuomintang e 26,46% do candidato do Partido Popular.
O PDP alinha-se incondicionalmente ao imperialismo estadunidense e ocidental e se opõe à reintegração de Taiwan à China, no que se choca frontalmente com o governo chinês, que desde 1949 insiste que Taiwan é uma província rebelada da China e propõe a sua reintegração pacífica à nação chinesa.
Apesar de ter vencido as eleições, o PDP perdeu a sua maioria parlamentar. Os dois partidos de oposição – que juntos somaram 59,95% – têm uma postura de maior aproximação e diálogo com a China.
Tendo em vista a desinformação difundida pela mídia ocidental, que apresenta o imperialismo estadunidense e o governo reacionário de Taiwan como paladinos da democracia e da autodeterminação dos povos, e a China como o vilão que pretende desrespeitar a soberania nacional de Taiwan, é necessário contextualizar historicamente esse conflito..

A LONGA LUTA PELA LIBERTAÇÃO DA CHINA

Depois da Primeira Guerra Civil Revolucionária (1924-1927) e da Segunda Guerra Civil Revolucionária (1927-1937), o Exército Popular de Libertação – sob a liderança do Partido Comunista – suportou o esforço maior da Guerra contra o Japão (1937-1945), lutando em duas frentes – contra os imperialistas japoneses e contra o Kuomintang de Chiang Kai-shek que sabotava a unidade contra o inimigo comum e colaborava abertamente com os japoneses, com o objetivo de enfraquecer o Exército Popular Libertador.
Quando, em agosto de 1945 o exército soviético passou a ofensiva na Manchúria, destruindo as principais forças do exército japonês, o Exército Popular de Libertação aproveitou para lançar uma grande ofensiva, libertando 150 cidades e ampliando os territórios por ele controlados, na China Central e do Norte, aproximando-se de Pequim, Nanquim e Shangai.
Para se opor ao avanço das tropas revolucionárias, os Estados Unidos desembarcaram um exército de mais de 100 mil homens em várias regiões da China e, junto com o Kuomintang, ocuparam Pequim, Nanquim e Shangai.
Derrotados os japoneses, os comunistas propuseram a retirada de todas as tropas estrangeiras e a formação de um governo de coalizão, com a participação de todos os partidos, o que o Kuomintang recusou.
Em julho de 1946, depois de uma trégua de sete meses, os exércitos do Kuomintang atacaram as áreas dominadas pelo Exército Popular de Libertação, no Norte e no Centro do país. Eram quatro milhões e trezentos mil homens – abastecidos pelos EUA com o armamento mais moderno – contra um milhão e duzentos mil homens das forças revolucionárias, precariamente armados.
Utilizando a tática de guerrilhas combinada com a guerra de movimentos e a guerra de posições, o Exército Libertador resistiu a esses ataques e em 1947 passou à contraofensiva em escala nacional. Em pouco mais de dois anos, o Exército Popular libertou toda China Central e Setentrional e penetrou no Sudoeste, tomando Shangai, Hanchou e outras importantes cidades.

CHIANG KAI-SHEK FOGE PARA TAIWAN, SOB PROTEÇÃO DOS EUA

Em meados de janeiro de 1949, diante de apelos de Chiang Kai-shek, o PCCh colocou suas condições para firmar a paz. Em 31 de janeiro, Pequim foi libertada, depois que sua guarnição se retirou sem luta. Diante da recusa do Kuomintang às condições para a paz, em 23 de abril o Exército Popular de Libertação tomou Nanquim, sede do governo do Kuomintang, e em 1º de outubro, em Pequim, foi proclamada a República Popular da China.
Chiang Kai-shek e o que restou de suas tropas fugiram para a ilha de Formosa (Taiwan) sob a proteção da 7ª Esquadra dos Estados Unidos, que bloqueou o estreito e estacionou tropas na ilha, impedindo que Exército Popular a libertasse. Chiang Kai-shek proclamou Taipei como a nova capital da República da China.
Os EUA e a maioria das potências ocidentais impuseram um bloqueio à China Popular, retiraram os seus embaixadores e empresas, transladando-as para Taiwan. A Republica Popular da China – que representava 98% do território e quase toda a população do país – não pôde assumir a sua cadeira na ONU, por oposição dos EUA. Só em novembro de 1971 a China Popular voltou a ocupar o seu assento na ONU e no seu Conselho de Segurança.
Em junho de 1950, poucos meses depois da proclamação da República Popular da China, os EUA e seus aliados deflagraram a guerra da Coreia, vendo nela um meio de enfraquecer a China e viabilizar a retomada do seu controle pelo Kuomintang, mas fracassaram no seu intento, devido à derrota na Coreia.

OS GOVERNOS DITATORIAIS DE CHIANG KAI-SHEK E DE SEU FILHO EM TAIWAN

Ao contrário da falácia do apoio a Taiwan “para defender o mundo livre e a democracia”, a ilha foi mantida sob a lei marcial até julho de 1987, com as garantias constitucionais e os direitos humanos, civis e políticos suspensos. A ditadura de Chiang Kai-shek se notabilizou por sua violenta polícia política – dirigida por seu filho Chiang Ching-kuo –, acusada de cometer reiteradas violações de direitos humanos. Após a morte de Chiang Kai-shek, em 1975, e um breve período em que foi substituído pelo vice-presidente, assumiu a presidência seu filho Chiang Ching-kuo, o chefe da temida polícia política. Apesar da Lei marcial ter sido suspensa em 1987, só nas eleições presidenciais de 1996 foi permitida a participação de partidos de oposição e pela primeira vez o presidente de Taiwan foi eleito através de sufrágio universal.
Só em dezembro de 1978 – sete anos após as Nações Unidas terem devolvido à China socialista a sua cadeira na ONU – os Estados Unidos deixaram de reconhecer a “República da China” (Taiwan) e passaram a reconhecer a República Popular da China como a representação do povo chinês. Atualmente, dos 194 países da ONU, 181 mantém relações diplomáticas com a República Popular da China e apenas 13 mantém relações diplomáticas com o governo de Taiwan.

O DESRESPEITO ESTADUNIDENSE À POLÍTICA DE UMA SÓ CHINA

Apesar do governo dos Estados Unidos reconhecer “da boca para fora” a existência de uma única China e que Taiwan faz parte do território chinês, atua de forma descarada, fomentando o separatismo, vendendo-lhe as mais modernas armas, estabelecendo relações oficiosas com seu governo, proibindo a venda de chips avançados à China patrulhando o estreito de Taiwan com navios de guerra e ameaçando intervir caso a China busque a reunificação pela força.
Em contrapartida, a China – ao mesmo tempo que reafirma a sua intenção de promover a reintegração pacífica de Taiwan à China, aprovou em 2005 sua Lei Anti-secessão, que prevê a intervenção armada, caso Taiwan proclame formalmente a sua independência.
Comentando os resultados eleitorais, a China afirmou que não há qualquer alteração na sua posição de que Taiwan pertence à China, que a reunificação é inevitável e que será realizada se possível por meios pacíficos, mas que qualquer proclamação de independência por parte de Taiwan será respondida com o uso da força.
Pequim afirma, ainda, que as eleições comprovaram que o Partido Democrático Progressista – que defende a independência de Taiwan – obteve apenas 40% dos votos e não representa a maioria do povo de Taiwan.

CONCLUSÃO

Pelo relato, fica claro que a ilha de Taiwan é parte histórica do território chinês, que só não foi incorporada à República Popular da China no final de 1949 devido à intervenção militar direta dos Estados Unidos, que – desrespeitando a autodeterminação do povo chinês – impediram o Exército Popular de libertá-la.
Taiwan nunca existiu como nação autônoma, nada mais sendo do que uma província chinesa. A sua criação (“invenção”) foi um atropelo à soberania chinesa e precisa ser reparada, como aconteceu com Hong Kong e Macau, enclaves coloniais da Grã-Bretanha e Portugal. A China se propõe a fazê-lo pacificamente. Quem fomenta o conflito são os EUA...
Quem está desrespeitando a soberania nacional e a autodeterminação do povo chinês são os EUA e não a China!
Tenho a convicção de que, com a sua proverbial paciência, a China prevalecerá.