Porto Alegre, sábado, 23 de maio de 2026

   
As provocações dos EUA em Taiwan

Raul K. M. Carrion | Historiador
22 de abril de 2026

     O imperialismo estadunidense – em declínio relativo já há alguns anos e com o seu projeto de domínio mundial colocado em xeque pelo desenvolvimento acelerado da China socialista, por sua aliança estratégica com a Rússia e pelo surgimento de novos polos de poder no “Sul Global” – fomenta conflitos armados em toda parte, com o objetivo de enfraquecer os seus rivais e dar uma sobrevida à sua decadente hegemonia.

     É nessa perspectiva que deve ser entendida a sua guerra por procuração na Ucrânia, o apoio a Israel no genocídio em Gaza e em sua invasão ao Líbano, a tentativa de estrangular Cuba, o sequestro do Presidente Maduro, os ataques ao Irã.

     Mas é preciso não esquecer a intensificação do cerco à China socialista, as provocações no Mar Meridional da China e, em especial, o fornecimento do mais moderno armamento à Taiwan, acompanhado de ameaças militares caso a China use a força em resposta a uma eventual declaração de independência por parte de Taiwan. A tudo isso soma-se a proibição à Taiwan de vender chips avançados para a China e todas as sanções e embargos tecnológicos. Para uma comparação, é como se a China fornecesse armas ao Texas para independizar-se dos Estados Unidos e lhe proibisse vender petróleo aos EUA...

     Tendo em conta a desinformação difundida pelos monopólios midiáticos do Ocidente, que apresentam o imperialismo estadunidense e o governo reacionário de Taiwan como paladinos da democracia e da autodeterminação dos povos e a China como a vilã, que desrespeita a soberania nacional de Taiwan, é necessário contextualizar historicamente o conflito.

O INDISCUTÍVEL PERTENCIMENTO DE TAIWAN À CHINA

     A Ilha de Taiwan foi inicialmente habitada por populações malaio-polinésios. Em 1633, os holandeses da Companhia das Índias Orientais se estabeleceram no Sul de Taiwan, mas desde o final do século XVI havia ocorrido uma massiva imigração chinesa. Os holandeses foram expulsos pelos chineses em 1662 e Taiwan foi incorporada à China em 1685 como uma divisão administrativa da província de Fujian. Em 1885, então com uma população de três milhões de habitantes, tornou-se uma província chinesa.

     Em sua expansão imperialista, o Japão invadiu a China em 1895, forçando-a a assinar o tratado de Shimonoseki, através do qual a obrigou a pagar uma vultuosa indenização de guerra, a conceder-lhe quatro portos livres e a entregar-lhe a província de Taiwan, Liaodong na Manchúria e as ilhas Pescadores.

     Em 1937, o Japão voltou a invadir a China, ocupando toda a Manchúria e nela instalando um governo títere, a seu serviço.

     Em 1945, com a vitória dos aliados, o Japão foi obrigado a devolver Taiwan à China, assim como a Manchúria e os demais territórios ocupados, conforme os acordoa de Yalta. Na ocasião, a China era governada por Chiang Kai-shek e seu Kuomintang.

     Quando, em 1949, a revolução liderada pelos comunistas foi vitoriosa, dois milhões de apoiadores do Kuomintang – incluídos 600 mil soldados – se refugiaram em Taiwan, com o apoio e a proteção dos Estados Unidos.

A LONGA LUTA DE LIBERTAÇÃO DA CHINA

     Depois da Primeira Guerra Civil Revolucionária (1924-1927) e da Segunda Guerra Civil Revolucionária (1927-1937), o Exército Popular de Libertação, sob a liderança do Partido Comunista da China, suportou o esforço principal da Guerra contra o Japão – que havia invadido e ocupado grande parte da China (1937-1945) –, tendo que lutar em duas frentes: contra os imperialistas japoneses e contra o Kuomintang de Chiang Kai-shek, que sabotava a luta contra o inimigo comum e colaborava abertamente com os japoneses, com o objetivo de enfraquecer o Exército Popular Libertador.

     Quando, em agosto de 1945 o exército soviético passou à ofensiva na Manchúria, aniquilando as principais tropas japonesas, o Exército Popular de Libertação também lançou uma grande ofensiva, libertando 150 cidades e ampliando os territórios controlados na China Central e do Norte, aproximando-se de Pequim, Nanquim e Shangai.

     Para opor-se ao avanço das tropas revolucionárias, os Estados Unidos desembarcaram um exército de mais de 100 mil homens em várias regiões da China e, junto com o Kuomintang, ocuparam Pequim, Nanquim e Shangai.

     Após a derrota dos japoneses, os comunistas propuseram a retirada de todas as tropas estrangeiras e a formação de um governo de coalizão, com a participação de todos os partidos, mas o Kuomintang recusou a proposta.

     Em julho de 1946, depois de uma trégua de sete meses, os exércitos do Kuomintang atacaram as áreas controladas pelo Exército Popular de Libertação, no Norte e no Centro do país. Eram quatro milhões e trezentos mil homens – abastecidos pelos EUA e com o armamento mais moderno –, contra um milhão e duzentos mil homens das forças revolucionárias, precariamente armados.

     Utilizando a tática de guerrilhas – em combinação com a guerra de movimentos e a guerra de posições –, o Exército Libertador resistiu aos ataques e, a partir de 1947, passou à contraofensiva em escala nacional. Em pouco mais de dois anos, o Exército Popular libertou toda China Central e Setentrional, penetrou no Sudoeste e tomou Shangai, Hanchou e outras cidades.

A FUGA DE CHIANG KAI-SHEK PARA TAIWAN, SOB A PROTEÇÃO DOS EUA

     Em meados de janeiro de 1949, diante dos apelos de Chiang Kai-shek, o PCCh colocou as suas condições para firmar a paz. Em 31 de janeiro, Pequim foi libertada, depois que sua guarnição se retirou sem luta. Diante da recusa do Kuomintang em aceitar as condições para a paz, em 23 de abril o Exército Popular de Libertação (EPL) tomou Nanquim – sede do governo do Kuomintang – e, em 1º de outubro, proclamou em Pequim a criação da República Popular da China.

     Em dezembro de 1949, o EPL cercou Chengou, a última grande cidade sob o contrôle do Kuomintang. Derrotado, Chiang Kai-shek fugiu para Taiwan, acompanhado pelas tropas que lhe restavam, sob a proteção da Força Aérea e da 7ª Frota Naval dos Estados Unidos, que bloquearam o estreito e os transportaram para a ilha, impedindo que o Exército Popular a libertasse. Chiang Kai-shek proclamou Taipei – a capital de Taiwan – a nova capital da “República da China”.

     A seguir, os EUA e a maioria das potências ocidentais impuseram um bloqueio total à República Popular da China, retiraram os seus embaixadores e as suas empresas, transladando-as para Taiwan. A República Popular da China – que representava 98% do território e quase toda a população do país – foi impedida de assumir a sua cadeira na ONU, por oposição dos EUA.

     Em junho de 1950, os Estados Unidos e seus aliados – Inglaterra, França, Itália, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Grécia, Turquia, Canadá, Austrália, África do Sul, Filipinas e Colômbia – uniram-se em um grande ataque à Coreia do Norte, sob a bandeira da ONU. O Brasil, mesmo pressionado, não se somou a essa cruzada contra a Coreia do Norte, devido à forte campanha contrária, liderada pelo PC do Brasil. Os EUA buscavam, através dessa guerra, enfraquecer a China e viabilizar a retomada do seu domínio pelo Kuomintang, mas fracassaram pois sofreram uma dura derrota na Coreia, apesar de lhe causarem uma imensa destruição.

OS GOVERNOS DITATORIAIS DE CHIANG KAI-SHEK E DE SEU FILHO EM TAIWAN

     Ao contrário da falácia do apoio a Taiwan “para defender o mundo livre e a democracia”, a Ilha ocupada pelas tropas de Chiang Kai-shek e dos EUA foi mantida sob a Lei Marcial até julho de 1987, ali imperando o “Terror Branco”, tendo suspensas as garantias constitucionais e os direitos humanos, civis e políticos. A ditadura de Chiang Kai-shek se notabilizou por sua violenta polícia política – dirigida pelo seu filho Chiang Ching-kuo –, acusada de cometer reiteradas violações de direitos humanos.

     Em 1972, Chiang Kai-sheck foi reconduzido pela 5ª vez à presidência de Taiwan, ainda sob a vigência da Lei Marcial. Em 1975, ele faleceu, depois de 26 anos à frente do governo de Taiwan, sempre contando com o apoio incondicional das ditas “democracias ocidentais”. Por um breve período, o ditador foi substituído pelo seu vice-presidente, mas em seguida foi sucedido pelo filho Chiang Ching-kuo, chefe da temida polícia política.

     A Lei Marcial só foi suspensa 12 anos depois, em 1987, e somente em 1996 foi permitida a participação de partidos de oposição nas eleições presidenciais e pela primeira vez foi adotado o sufrágio universal.

     Essa é a “democracia” que o ocidente gosta...

A ONU RESTABELECE OS DIREITOS DA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA E EXPULSA TAIWAN

     Em outubro de 1971, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução 2.758 / 71, expulsando os representantes de Chiang Kai-shek e transferindo o assento chinês no Conselho de Segurança à República Popular da China.

     A Resolução afirmava que a Assembleia Geral da ONU “decide restaurar todos os seus direitos à República Popular da China e reconhecer os representantes do seu Governo como os únicos representantes legítimos da China nas Nações Unidas, e expulsar imediatamente os representantes de Chiang Kai-shek do espaço que ocupam ilegalmente nas Nações Unidas e em todas as organizações a ela relacionadas."

     A partir da aprovação da Resolução 2.758/71, a ONU passou a aceitar a existência de uma única China – a República Popular da China –, desconsiderando a existência da pretensa “República da China”, que sequer foi citada na resolução. A única referência feita é a “representantes de Chiang Kai-shek”, expulsos da ONU e de todos os seus organismos.

     Atualmente, dos 193 Estados membros da ONU, 182 mantém relações diplomáticas com a República Popular da China e apenas 11 – o Reino de Essatini, Palau, Tuvalu, São Cristóvão e Neves, Santa Luzia, São Vicente e Granadinas, Ilhas Marshall, Belize, Haiti, Paraguai e Guatemala (que totalizam menos de 0,005% da população mundial) – mantém relações diplomáticas com o governo de Taiwan.

     Só em dezembro de 1978 – sete anos depois – os Estados Unidos reconheceram a República Popular da China como a única representante do povo chinês e deixaram de reconhecer a Ilha de Taiwan e a ter relações diplomáticas com ela.

O DESRESPEITO DOS ESTADOS UNIDOS À POLÍTICA DE UMA SÓ CHINA

     Apesar dos Estados Unidos aceitarem “da boca para fora” a existência de uma única China e que Taiwan é parte do território chinês, continuam atuando de forma descarada para fomentar o separatismo, vendendo-lhe as mais modernas armas, estabelecendo relações oficiosas com o seu governo, proibindo Taiwan de vender chips avançados à China, patrulhando o estreito de Taiwan com suas belonaves e ameaçando uma intervenção militar caso a China use a força para efetivar a reunificação.

     Em 1979, o Congresso estadunidense aprovou o Taiwan Relation Act, assegurando o fornecimento de armas à Taiwan e considerando uma ameaça aos EUA qualquer boicote, embargo ou coerção militar à Taiwan. E, em 2010, os EUA autorizaram suas indústrias a venderem armas diretamente à Taiwan, sem necessitar de autorização governamental.

     Recentemente, a 1ª Ministra do Japão – potência invasora e ocupante da China por várias vezes – também ameaçou militarmente a China, caso reintegre Taiwan pela força, tendo recebido uma dura resposta de Pequim.

     A China repele qualquer ingerência estrangeira na questão da reunificação de Taiwan e reafirma a sua intenção de promover a reintegração pacífica de Taiwan – no modelo de “um país, dois sistemas”, usado em Macau e Hong Kong –, mas aprovou em 2005 a sua Lei Anti-Secessão, que prevê a intervenção militar no caso Taiwan proclamar a independência.

AS ÚLTIMAS ELEIÇÕES EM TAIWAN

     As últimas eleições de Taiwan ocorreram em janeiro de 2024, tendo participado da disputa pela presidência três partidos: o DPP (Partido Progressista Democrático) – partido submisso aos Estados Unidos, que se opõe à reintegração de Taiwan à China –, o KMT (Kuomintang) e o TPP (Partido do Povo de Taiwan). Os dois últimos são de oposição e têm uma postura de maior entendimento com a República Popular da China.

     Apesar de terem se comprometido a apresentar uma chapa única de oposição, o KMT e o TPP acabaram lançando cada um a sua própria chapa. Como em Taiwan não existe 2º turno, a desunião das oposições deu a vitória ao DPP, que obteve 40,05% dos votos, contra 33,49% do KMT e 26,46% do TPP.

     Apesar de haver vencido as eleições presidenciais, o PDP perdeu a maioria parlamentar pois, somada, a oposição conquistou 60% das vagas parlamentares. Mostrando não ter qualquer compromisso com a democracia, o presidente eleito lançou uma campanha para destituir através de um referendo 24 deputados do KMT, mas foi derrotado em todos os distritos eleitorais.

     Pequim afirmou que as eleições comprovaram que o DPP (que defende a independência de Taiwan) não representa a maioria do povo de Taiwan, tendo obtido apenas 40% dos votos. A China deixou claro que mantém a sua posição de que Taiwan pertence à China, que a reunificação é inevitável e que será feita se possível por meios pacíficos, mas que qualquer proclamação de independência por parte de Taiwan será respondida com o uso da força.

     No início deste mês, a presidenta do Kuomintang (KMT), Cheng Li-wun, realizou uma visita à China continental, reunindo-se com o presidente Xi Jinping. O objetivo oficial da visita da líder da oposição de Taiwan foi reduzir as tensões, promover a paz e fortalecer os laços entre o KMT (Kuomintang) e o Partido Comunista da China. Foi a primeira visita de uma liderança do KMT à China nos últimos dez anos.

CONCLUSÃO

     Pelo exposto, fica claro que a ilha de Taiwan é parte histórica do território chinês, que só não foi incorporada à República Popular da China em 1949 devido à intervenção militar direta dos Estados Unidos que – desrespeitando a autodeterminação do povo chinês – impediram a sua libertação pelo Exército Popular.

     Taiwan nunca existiu como nação autônoma, nada mais sendo do que uma província chinesa. A sua criação (“invenção”) foi um atropelo à soberania chinesa e precisa ser reparada, como já aconteceu com Hong Kong e Macau, enclaves coloniais da Grã-Bretanha e de Portugal. A China se propõe a fazê-lo pacificamente. Quem está desrespeitando a soberania nacional e a autodeterminação do povo chinês e fomentando o conflito são os EUA e não a China!

     Com a sua proverbial paciência e com o apoio dos povos do mundo, a China prevalecerá!