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Entre os dias 26 e 29 de março, realizou-se em Porto Alegre, – berço
do Fórum Social Mundial –, a “Iª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL
ANTIFASCISTA PELA SOBERANIA DOS POVOS”.
Inicialmente prevista para maio de 2024, ela foi inviabilizada pela
terrível inundação que atingiu o Rio Grande do Sul e Porto Alegre
naquele ano. A sua organização foi retomada em 2025, através da
convocatória da “I Conferência Internacional Antifascista”, assinada
pelas direções no Rio Grande do Sul do Partido dos Trabalhadores
(PT), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e do Partido
Comunista do Brasil (PCdoB). Nela, se afirmava:
“A extrema direita
governa ou é a força política alternativa em quase toda a Europa.
Governam a maior potência militar do Planeta. Governam ou tensionam
governos democrático-populares em toda a América Latina. [...] A
partir da iniciativa do PSOL, do PT e do PCdoB do Rio Grande do Sul,
convocamos as forças antifascistas internacionais a [...] enfrentar
a destruição promovida pelos arautos do conservadorismo ultraliberal
[...] queremos coordenar e nos reunir em março de 2026 em Porto
Alegre, para organizar [...] uma luta capaz de derrotar as
expressões de extrema direita e o fascismo, abrindo caminho para a
solidariedade entre os povos em luta, a defesa dos direitos sociais
e econômicos e das liberdades democráticas, do ambiente, da ciência
e da arte e contra todas as formas de exploração, xenofobia ou
qualquer outro tipo de opressão.”
Fica claro que a convocatória inicial – da mesma forma que o “I
Fórum Internacional Antifascista” de Minsk, em abril de 2023, e o
“Congresso Antifascista” de Caracas, em setembro de 2024 – tinha
como centro a luta contra o fascismo, mas não enfrentava
explicitamente a luta anti-imperialista e as crescentes agressões
dos Estados Unidos e seus aliados contra os povos que resistem aos
seus ditames.
Desde o primeiro momento em que foi retomada a construção da
referida Conferência Internacional, o PCdoB colocou a necessidade de
transformar a “Conferência Antifascista” em uma conferência
“antifascista e anti-imperialista”, inclusive argumentando que o
fascismo nasce do ventre do imperialismo e sem enfrentá-lo é
impossível derrotar o fascismo.
Depois de um profícuo debate, o nome da Conferência foi alterado
para “I CONFERÊNCIA INTERNACIONAL ANTIFASCISTA PELA SOBERANIA DOS
POVOS”, onde a expressão “pela soberania dos povos” foi a forma
encontrada para expressar de maneira propositiva a luta
anti-imperialista. Em decorrência desta decisão, a programação
passou a incluir novas mesas para abordar a temática
anti-imperialista, e outras mesas ampliaram o seu escopo, para
tratar dessa luta.
Da mesma forma, o PCdoB trabalhou incansavelmente pela participação
de representações de Cuba e de Venezuela nas mesas – o que
inicialmente não estava previsto – e, após o ataque dos EUA e Israel
ao Irã, pela vinda de uma representação iraniana e pela criação de
uma mesa especial sobre essa agressão criminosa.
Atendendo o chamamento do PT, PSOL e PCdoB, somaram-se em um
primeiro momento à organização da Conferência Internacional, o MST,
o CPERS, a ADUFRGS e o Fórum das Centrais Sindicais, em especial a
CUT e a CTB. A partir de então, as principais entidades e
organizações sociais do Rio Grande do Sul e do Brasil se integraram
à organização do evento. Por ocasião da primeira plenária do Comitê
Organizador Local, mais de 70 entidades e instituições já havia se
integrado ao mesmo, entre elas a CONTAG, a CONAM, a UNE, a UBES, o
ANDES, a CNTE, a FEPAL, o Comitê Brasileiro do FSM e dezenas de
entidades sindicais, estudantis e populares.
Em 28 de novembro de 2025, foi criado um Comitê Internacional, com o
objetivo de difundir em todo o mundo o evento e incentivar a vinda a
Porto Alegre de delegações internacionais. Participaram dessa
reunião em torno de 80 lideranças de 28 países de cinco Continentes.
Através do trabalho desse Comitê – além da vinda de inúmeras
representações internacionais – foi lançada, por iniciativa do
CATDM, uma “Convocação” para a Conferência Internacional, assinada
por mais de 1.500 lideranças mundiais.
Com a adesão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul à
Conferência Internacional – com o integral apoio da Reitora Márcia
Barbosa (ex-Secretária de Políticas e Programas Estratégicos do
MCTI) e o empenho da Pró-Reitora de Extensão, Daniela Pavani
(presidenta da FMG-RS) –, viabilizou-se o uso dos espaços mais
nobres da UFRGS para as atividades do evento e este ganhou maior
amplitude. Alguns dias antes da sua realização, o Partido Socialista
Brasileiro no Rio Grande do Sul (PSB-RS) também se integrou à
Conferência Internacional.
Apesar de não contar com qualquer apoio governamental, o Comitê
Organizador conseguiu, com grande esforço, garantir condições
mínimas para o evento, inclusive para a transmissão ao vivo pela
internet, com tradução simultânea em português, espanhol, francês e
inglês.
As inevitáveis diferenças entre forças tão díspares como o PT, o
PCdoB e o PSOL foram enfrentadas pelo Comitê Organizador com
sabedoria e amplitude, tratando as divergências com franqueza e
fraternidade, evitando o sectarismo e o hegemonismo, buscando a
unidade.
Como resultado desse esforço, a “I CONFERÊNCIA INTERNACIONAL
PELA SOBERANIA DOS POVOS alcançou enorme êxito, com cerca de 4.300
inscritos, de mais de 40 países e cinco continentes.
O evento teve início na tarde do dia 26 de março, com o “Fórum
de Autoridades Democráticas Antifascistas” – na Assembleia
Legislativa do Rio Grande do Sul – e com a mesa especial “A Agressão
Imperialista e a Resistência do Povo Iraniano” –, no auditório da
AIAMU.
A abertura formal ocorreu no final da tarde, através de uma
grande Marcha, com mais de 10 mil pessoas, que percorreu as ruas de
Porto Alegre.
Nos três dias seguintes, aconteceram 11 mesas estruturantes,
que abordaram os mais variados aspectos da luta antifascista e
anti-imperialista, 130 mesas autogestionadas e 20 atividades
diversas, como lançamento de livros, rodas de conversa e
apresentações culturais.
Entre as mesas autogestionadas, todas importantes, destaco
quatro: “A luta pelo socialismo, contra o fascismo e o
imperialismo”; “Cuba e Venezuela não estão sós!”, ambas inscritas
pelo PCdoB (a segunda em conjunto com a ACJM-RS); “Fórum Social
Mundial, 25 Anos”; “La Internacional neofascista de Trump, Milei,
Bolsonaro, Kast, y la extrema derecha europea (Le Pen, Viktor Orban,
Meloni, Vox, Chega, etc.)”.
O evento se caracterizou pela diversidade e pela pluralidade,
com a presença da corrente comunista internacional – representada
pelos Partidos Comunistas de Cuba, Portugal, Chile, Uruguai,
Argentina, Colômbia e Brasil –, diferentes correntes trotskistas
(entre elas a 4ª Internacional), correntes sociais democratas, o
Partido Socialista Unificado da Venezuela, a Frente Ampla do
Uruguai, o Fórum de São Paulo, o Pacto Histórico da Colômbia, o
Partido “França Insubmissa”, o “Bloco de Esquerda” do Parlamento
Europeu, o Partido dos Trabalhadores da Turquia, os “Socialistas
Democráticos da América” (DSA-EUA), o Fórum Social Mundial, a
Internacional Antifascista-Capítulo Brasil, o CATDM (Comité para a
Abolição das Dívidas Ilegítimas), a ATTAC (Associação pela
Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos) e
lideranças anti-imperialistas e antifascistas de todo o mundo.
Entre as lideranças políticas e sociais brasileiras presentes,
destaco – sem demérito das demais – Nádia Campeão, presidenta do
PCdoB; Paula Coradi, presidenta do PSOL; ex-governadores e
ex-ministros Olívio Dutra e Tarso Genro; ex-Prefeito Raul Pont;
Márcia Barbosa, Reitora da UFRGS; Ana Maria Prestes, SRI do PCdoB;
João Pedro Stédile, líder do MST; Ualid Rabah, presidente da FEPAL;
Vânia Pinto, presidenta da CONTAG; Bianca Borges, presidenta da UNE;
Adilson Araújo, presidente da CTB; Fátima Silva, presidenta da CNTE;
Breno Altmann, do Opera Mundi; Socorro Gomes, diretora do CEBRAPAZ e
ex-presidenta do Conselho Mundial da Paz; Thiago Ávila, da Global
Sumud Flotilla; Mônica Valente, do Fórum de SP; Breno Almeida e
Valter Pomar, da FPA; Ricardo Abreu de Melo (“Alemão”), da FMG;
senadora Teresa Leitão, deputadas federais Daiana Santos, Maria do
Rosário, Fernanda Melchiona e Sâmia Bonfim; deputado federal Federal
Glauber Braga; deputadas estaduais Luciana Genro, Stela Farias,
Laura Sito: deputados estaduais Pepe Vargas, Matheus Gomes e Leonel
Radde; vereadores Roberto Robaina e Giovani Culau.
Entre as presenças internacionais, destaco – pelo peso de sua
representação – os embaixadores da Palestina, Marwan Jebril, da Liga
Árabe, Ibrahim Alzeben, da Frente Polisário, Ahmed Mulay; o Cônsul
Geral de Cuba, Benigno Perez; o vice-presidente da Casa das
Américas/Cuba, Fernando Rojas; o Senador Oscar Andrade, Secretário
Geral do PCU; Javier Miranda, ex-ministro de DH e ex-presidente da
Frente Ampla do Uruguai; Pietro Alarcón, da Comissão Internacional
do “Pacto Histórico” da Colômbia; Glória Ramirez, ex-ministra do
Trabalho e ex-senadora de Colômbia; Yhonny García, Coordenador do
Movimento de Amizade Solidariedade Venezuela-Cuba; as eurodeputadas
Ana Miranda (Galícia, Espanha), Estrella Galan (Espanha), Leila
Chaib (França), Manon Aubry (França) e o eurodeputado João Oliveira
(PC de Portugal); deputado Erkan Bas, presidente do PT da Turquia;
Éric Toussaint, do CADTM; Michael Lowy, diretor do Centre
National de la Recherche Scientifique da França; e Jana
Silvermann, da UFABC e do DSA-EUA.
As mesas de debates, sempre lotadas e vibrantes, apontaram a
profunda crise que vive o sistema capitalista-imperialista, que vê o
seu domínio mundial ser posto em xeque e reage com crescente
belicosidade – do que o genocídio em Gaza, os ataques à Cuba, à
Venezuela e ao Irã são expressão –, fomenta o fascismo, impõe
políticas neoliberais e agride as nações mais fracas, buscando
recolonizá-las. Por isso, a luta antifascista é inseparável da luta
anti-imperialista, sendo necessário articulá-las internacionalmente
de forma unitária, pois isoladamente cada país é presa fácil do
imperialism0o e do fascismo.
A eliminação das liberdades democráticas, a destruição dos direitos
trabalhistas, o desmantelamento da previdência social, as
privatizações indiscriminadas, as políticas de “austeridade”, o
negacionismo climático e científico, a criminalização da imigração,
o racismo, a xenofobia, a opressão de gênero, a incitação ao ódio e
à crueldade foram denunciadas como manifestações do fascismo em todo
mundo.
Houve consenso quanto à necessidade de que seja dada continuidade à
1ª Conferência Internacional, mas sem criar uma nova organização
internacional, buscando articular-se em uma luta comum com as demais
organizações antifascistas e anti-imperialistas já existentes.
A CARTA DE PORTO ALEGRE procurou sistematizar este rico e polêmico
debate – onde a diversidade de opiniões sempre esteve presente –
mantendo o mesmo espírito unitário que presidiu a construção do
evento. Sem dúvida, foi um trabalho hercúleo, que priorizou as
convergências e minimizou as divergências, resguardando o direito de
cada um manter as suas opiniões, em relação aos pontos em que não
foi possível o consenso.
Penso que o resultado foi positivo – tanto que a CARTA foi aprovada
por consenso e sem contestações –, apesar de manifestar-se em
relação à quase totalidade das complexas questões internacionais do
momento. Assim, denunciou o genocídio em Gaza, perpetrado pelo
Estado sionista de Israel com o apoio incondicional dos EUA e a
conivência das demais potências imperialistas; condenou o bloqueio a
Cuba, agora intensificado com seu cerco naval, e conclamou à
solidariedade com Cuba; repudiou a invasão da Venezuela e o
sequestro do Presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores, e
comprometeu-se a lutar por sua libertação; solidarizou-se com a
heroica resistência do Irã, atacado criminosamente pelos Estado
Unidos e Israel; defendeu o fim da OTAN; manifestou apoio à
autodeterminação do povo haitiano, à independência, de Porto Rico e
do Sahara Ocidental, e de todos os territórios sob ocupação colonial
ou imperialista.
Registro, porém, uma lacuna - a não abordagem da guerra na Ucrânia,
que já dura quatro anos e tem causado um enorme número de vítimas.
Lamento que a proposta do PCdoB, construída com a máxima amplitude,
não tenha sido aceita. Para conhecimento, a reproduzo: “DEFESA DE UM
PROCESSO DE PAZ NA UCRÂNIA QUE REMOVA AS CAUSAS DE FUNDO DO
CONFLITO, ESTABELEÇA GARANTIAS DE SEGURANÇA PARA TODAS AS PARTES E
RESPEITE A AUTODETERMINAÇÃO E A VONTADE SOBERANA DAS POPULAÇÕES
ENVOLVIDAS NO CONFLITO.”
Mas, nem por isso deixamos de valorizar os consensos alcançados.
Agora, nos cabe reforçar a unidade conquistada, divulgar amplamente
a plataforma comum aprovada, realizar conferências nacionais e
regionais com o objetivo de construir, oportunamente, uma 2ª
Conferência Internacional, ainda mais ampla.
Para isso, penso ser importante uma maior aproximação com todas as
organizações e articulações antifascistas e anti-imperialistas já
existentes – como o Fórum Social Mundial, o Foro de São Paulo, a
Internacional Antifascista, a Internacional Progressista, o Fórum
Internacional Antifascista, a Tricontinental, o CATDM, ATTAC, ALBA,
e tantas outras.
Como afirma a Carta de Porto Alegre:
DERROTAR O FASCISMO E O IMPERIALISMO É TAREFA URGENTE DE NOSSA
ÉPOCA!
Raul Carrion é membro da Secretaria de Relações Internacionais do
PCdoB e faz parte do Comitê Organizador Local e Internacional da “Iª
Conferência Internacional Antifascista Pela Soberania dos Povos”.
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