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   Porto Alegre, quarta-feira, 17 de outubro de 2018

   
A grande guerra da pátria soviética

Raul K. M. Carrion

Na madrugada do dia 22 de junho de 1941, a Alemanha nazista atacou de surpresa a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sem declaração prévia de guerra e apesar da plena vigência do Tratado Germano-Soviético de Não-Agressão. Iniciava-se a operação Barba Ruiva, que tinha como objetivo “esmagar a Rússia soviética numa breve campanha” (Diretiva nº 21 de 18.12.1940). O ataque se deu em uma frente de 2.800 quilômetros de extensão – do mar de Barents, no norte, ao mar Negro, no sul.

Antes de seu ataque à URSS, a Alemanha havia acumulado uma série de vitórias que evidenciavam a pouca disposição das democracias capitalistas em enfrentar o nazi-fascismo – considerado um dique contra o comunismo – e sua intenção de empurrar Hitler contra a URSS.

Assim, sem disparar um único tiro, a Alemanha anexou a Áustria e a Checoslováquia (1938); em quatro semanas, aniquilou a Polônia (1939); ocupou a Dinamarca e a Noruega, sem resistência (1940); derrotou a Holanda, Bélgica e França, em 30 dias, e expulsou as tropas inglesas do continente, em Dunkerque (1940); em questão de dias, dominou a Yugoslávia e a Grécia (1941). Por fim, obteve a adesão aos seus planos guerreiros dos regimes fascistas da Itália, Romênia, Hungria, Bulgária e Finlândia.

A decisão de atacar a URSS – tomada no 2º semestre de 1940 – fez Hitler adiar as operações “Leão Marinho” (Inglaterra), “Félix” (Gibraltar) e “Átila” (Sul da França), para concentrar todas as forças contra a URSS. Como afirmou o parlamentar inglês Arthur Woodburn, “o grande poderio da Rússia (...) era um peso de chumbo nos pés de Hitler que o impedia de saltar contra nós”.

“A URSS DE JOELHOS EM DUAS A TRÊS SEMANAS!”

Tendo por base seus êxitos militares fulminantes no ocidente capitalista, Hitler e seus generais prognosticaram uma rápida vitória contra a URSS: “Não é um exagero afirmar que a campanha da Rússia será vencida em duas semanas” afirmou o Comandante em Chefe das Forças Armadas da Alemanha Gal. Brauchitsch. “Três semanas após o início do nosso ataque, este castelo de cartas cairá”, prometeu seu Chefe do Estado-Maior, Gal. Alfred Jodl.

Para a Operação Barba Ruiva – maior operação militar da História – o Alto Comando alemão destinou 152 divisões – incluindo 19 divisões de tanques e 14 motorizadas – totalizando 3,3 milhões de soldados. A eles se somavam 1,2 milhões de homens da Força Aérea e 100 mil homens da Marinha de Guerra, o que perfazia 77% dos efetivos do exército alemão. Os países satélites aportaram 29 divisões e 16 brigadas, somando 900 mil soldados. Assim, os efetivos da Alemanha e seus satélites para o ataque ascendiam a 5,5 milhões de homens. O armamento incluía 47.260 canhões e morteiros, 2.800 tanques e 4.950 aviões.

Esse imenso exército – calejado em dois anos de combates invictos – tinha detrás de si a poderosa economia de guerra da Alemanha e de toda a Europa ocupada, com uma produção bélica muito superior à da URSS, e não precisava temer qualquer confronto militar sério a oeste, vista a total inatividade inglesa (os EUA ainda mantinham sua neutralidade). Seu objetivo era aniquilar as principais forças armadas soviéticas e ocupar a URSS européia – de Arkhangel no norte, a Astrakan no sul, antes do final do verão.

GUERRA DE EXTERMÍNIO

Diferentemente da guerra no ocidente, a guerra contra a URSS seria “uma guerra de extermínio”, com o objetivo de eliminar a população eslava – considerada “infra-humana” – e liberar terras para colonos alemães. Em maio de 1941, foi aprovada diretiva isentando oficiais e soldados alemães de quaisquer crimes em território soviético e determinando “matar a todos os guerrilheiros e suspeitos de simpatizar com eles e fuzilar sem processo a todos que opusessem a mínima resistência aos alemães. Foi decidido o fuzilamento imediato dos instrutores políticos e o extermínio dos prisioneiros do Exército Vermelho.

Deveriam ser expulsos dos lugares onde viviam 80 a 85% dos polacos, 65% dos ucranianos ocidentais e 75% dos bielo-russos. Hitler Afirmou: devemos exterminar à população; isso faz parte da nossa missão de proteger a população alemã. Temos que desenvolver a técnica de aniquilamento da população (...) Eu tenho direito a suprimir milhões de pessoas de raça inferior, que se multiplicam como vermes”. E o chefe do Estado Maior das forças terrestres alemãs, Gal. Halder anotou em seu diário, no 17º dia da invasão: “A decisão inabalável do Führer é arrasar Moscou e Leningrado, para se livrar totalmente da população dessas cidades, pois, de outra forma, seremos obrigados a alimentá-la durante o inverno.”

A BUSCA DA PAZ COM A INGLATERRA ANTES DO ATAQUE À URSS

Em 1940, quando invadiu a França, Hitler havia ordenado aos exércitos alemães que se dirigiam a Dunkerque – com o objetivo de aniquilar as tropas inglesas encurraladas – que se detivessem. Com isso, os ingleses puderam escapar para a Inglaterra, sem grandes perdas humanas. Ficou clara a intenção de Hitler de não fechar as portas para uma negociação com os ingleses. Desde então, os alemães fizeram várias tratativas de paz com a Inglaterra, com o objetivo de ter as mãos livres para atacar a URSS. Nisso, contavam com a conivência do Grupo de Cliveden e outros setores pró-nazistas da Inglaterra. Churchill não se opôs a essas tratativas, buscando encorajar o ataque nazista à URSS.

Em 10 de maio de 1941, Rudolf Hess – braço direito de Hitler – saltou de pára-quedas na Escócia, para informar os ingleses do ataque à URSS e propor-lhes um acordo, pelo qual a Inglaterra teria carta branca em suas colônias, em troca da devolução das ex-colônias alemãs, do reconhecimento da hegemonia nazista na Europa continental e do apoio inglês à invasão da URSS. Churchill incentivou as expectativas de Hitler em relação a um acordo nesses termos, para induzi-lo a atacar a URSS.

Sentindo-se seguro a oeste, Hitler atacou a URSS. Só então, Churchill divulgou que apoiaria a URSS contra Hitler e esclareceu os motivos: “Ele [Hitler] quer destruir a potência russa porque espera, se tiver êxito, poder trazer do Leste o grosso de seus exércitos e de suas forças aéreas e precipitá-los sobre nossa ilha. (...) Sua invasão da Rússia nada mais é do que um prelúdio a uma tentativa de invasão das ilhas Britânicas.

Meses depois, a URSS assinou um tratado de amizade e assistência mútua com a Inglaterra e firmou uma declaração conjunta americano-soviética, onde se afirmava que “representantes dos dois países puseram-se de acordo quanto à necessidade de criar imediatamente uma segunda frente na Europa, em 1942”. O que não foi cumprido...

As verdadeiras intenções de ingleses e norte-americanos foram tornadas confessadas pelo futuro Presidente dos EUA, Harry Truman, que, dois dias após o ataque alemão à URSS, escreveu no New York Times: “Se constatarmos que a Alemanha vence, devemos ajudar a Rússia. Se, pelo contrário, for a Rússia a vencer, devemos ajudar a Alemanha.”

OS TRÊS VETORES PRINCIPAIS DO ATAQUE ALEMÃO

O ataque nazista ocorreu em três direções principais: o Grupo de Exércitos Norte – comandado pelo marechal de campo Von Leeb – avançou para os Estados bálticos com o apoio dos exércitos finlandeses, com o objetivo de tomar Leningrado e chegar ao mar Branco. O Grupo de Exércitos do Centro – comandado pelo marechal de campo Von Bock – buscaria ocupar o centro da Rússia européia e tomar Moscou. Já o Grupo de Exércitos Sul – comandado pelo marechal de campo Von Rundsted – com o apoio de romenos, húngaros e checos – deveria avançar na Ucrânia, tomar Kiev, a bacia siderúrgica e carbonífera do Baixo Dom, o ferro de Krivoi-Rog, o aço, o manganês e os ricos poços de petróleo do Cáucaso. Também devia tomar a Criméia, para dominar o mar Negro.

Ao efeito surpresa e à enorme superioridade dos exércitos atacantes somou-se o fato do sistema de defesa da URSS ainda não ter sido concluído, a modernização de suas forças armadas ainda estar em andamento e 75% dos oficiais do Exército Vermelho estarem em seus postos há apenas um ano, devido aos expurgos de 1937 no exército.

Como Stalin e a liderança soviética sabiam que a Inglaterra buscava provocar a guerra entre a URSS e a Alemanha, isso fez com que desconfiassem dos diversos alertas de ataque alemão proporcionados pelos ingleses e por seus próprios informantes. Mas, a URSS não havia deixado de preparar-se para a inevitável guerra com a Alemanha. Além de transferir, a partir de 1939, milhares de empresas para além dos Urais, as despesas com a defesa nacional saltaram de 5,4%, no 1º Plano qüinqüenal, para 12,6%, no 2º, e 26,4%, no 3º. E, em 1941, 43,4% do orçamento da URSS foram destinados à defesa do país. De janeiro de 1939 a 22 de junho de 1941, o Exército Vermelho recebeu mais de 7.000 carros de combate, 30 mil canhões e 52 mil morteiros e 17.700 aviões. Às vésperas da guerra, foi reforçado por 800 mil homens.

Apesar de todas as cautelas em relação a uma eventual provocação inglesa, às 0h30min do dia 22 de junho, os comandantes Timochenko e Jukov enviaram instruções às forças aéreas e terrestres, informando que: “É possível que no decorrer dos dias 22 ou 23 de junho se verifique um ataque súbito dos alemães na frente das regiões de Leningrado, do Báltico, do Ocidente, de Kiev e de Odessa. O ataque alemão pode começar por ações de provocação. (...) As nossas tropas têm obrigação de não se prestar a qualquer provocação que possa suscitar complicações graves. Ao mesmo tempo, (...) devem estar prontas a repelir eventuais ataques súbitos dos alemães ou de seus aliados”. As instruções determinavam, ainda, que na noite do dia 21 as tropas ocupassem discretamente os locais fortificados das zonas de fronteira, dispersassem e camuflassem as aeronaves civis e militares, colocassem em alerta as unidades de artilharia antiaérea e preparassem o blackout. Essas instruções, porém, chegaram tarde a muitas unidades que não se prepararam em tempo para o ataque que se seguiu. Outras receberam essas instruções já sob o fogo inimigo.

Diferentemente do que alguns dizem, Stalin não sumiu nem caiu em prostração diante do ataque alemão. Ao contrário, colocou-se desde a madrugada de 22 de junho à frente da resistência ao invasor nazi-fascista. Às 5h45, encontrou-se com Jukov, Timochenko, Mekhlis, Beria e Molotov para saber da situação militar. Às 7h reuniu-se com membros do Politburo – Molotov, Voroshilov, Kaganovitch, Beria e Malenkov –, além de Dimitrov e Manuilski, da IC. Georgi Dimitrov anotou em seu diário: “O que surpreende é a calma, a determinação e a grande confiança em si mesmo de Stalin e de todos os outros.

Analisando o fato de ter sido Molotov e não Stalin quem falou ao povo soviético nesse dia, o Historiador Pierre Vallaud – duro crítico da URSS e de Stalin – diz: “não havia vácuo de poder, principalmente não de Stalin. E se este último não toma a palavra, é oficialmente por ordem de seu médico: Stalin foi examinado na noite anterior, está com febre e um abscesso na garganta. Ele não pode, de maneira alguma, pronunciar um discurso no rádio”. Em 3 de julho, Stalin fará o seu primeiro discurso ao povo soviético.

Iniciada a invasão, as tropas alemãs avançaram rapidamente – principalmente suas unidades blindadas – e abriram profundas brechas nas defesas soviéticas, tomando importantes nós de comunicação, estabelecendo “cabeças de ponte” em setores chaves e realizando o cerco de grandes agrupamentos de tropas soviéticas. Só na primeira noite foram destruídas 1.489 aeronaves, das quais 1.100 no solo. Quase todo o sistema de comunicações soviético foi destruído, dificultando a condução coordenada da defesa. Em 25 de junho, as forças alemãs de vanguarda haviam avançado 230 quilômetros, em algumas áreas.

O AVANÇO DO GRUPO DE EXÉRCITOS DO CENTRO

Na Frente Central, em apenas duas semanas, os alemães ocuparam a Polônia Oriental, tomaram Minsk (28.06) e boa parte da Bielo-Rússia, Ucrânia e Moldávia. Grandes contingentes de tropas soviéticas foram aniquilados nos bolsões de Bialiystok e Minsk. Em 16 de julho, Smolensk foi tomada e importantes forças soviéticas foram cercadas. Em 23 de julho, um contra-ataque soviético rompeu o bolsão de Smolensk e permitiu que a maioria das tropas escapasse. Os soviéticos estabeleceram uma nova linha defensiva ao longo do rio Dniepre, onde detiveram o avanço alemão até fins de agosto, causando-lhes pesadas perdas.

As fortes perdas dos exércitos alemães – 250 mil homens só nos combates de Smolensk – e as dificuldades para abastecê-los, devido aos constantes ataques soviéticos pelos flancos e à ação guerrilheira na retaguarda, impediram Hitler de investir de imediato contra Moscou. Em 30 de julho, ele ordenou à Frente Central que passasse à defensiva e às frentes norte e sul que avançassem para tomar Leningrado e Kiev.

LENINGRADO RESISTE E É SITIADA

No norte, em três semanas de luta, os exércitos alemães, ocuparam a Lituânia, Letônia e Estônia e Pskov, ao sul de Leningrado. No caminho, ficaram bolsões de tropas soviéticas resistindo. Atacando pelo sul – enquanto os finlandeses atacavam pelo norte –, as tropas nazistas foram detidas no rio Luga. Em meados de julho, um forte contra-ataque soviético obrigou os alemães a recuarem 50 km e destruiu boa parte de suas forças blindadas. Em agosto, outro forte contra-ataque soviético causou grandes perdas aos alemães. Com isso, o seu avanço foi retardado e Leningrado pode preparar-se para uma luta “casa a casa”, incorporando centenas de milhares de cidadãos à sua defesa. Foram construídos quase 1.000 km de trincheiras, 650 km de fossos antitanque e 5.000 casamatas.

Na medida em que a resistência soviética na Frente Central passou a exigir uma parte dos blindados da Frente Norte, houve um enfraquecimento das forças que atacavam Leningrado. Depois de diversas tentativas de tomá-la, em 23 de setembro o General Halder reconheceu a impotência alemã: “Nossas forças (...) sofreram pesadas perdas. Essas forças são suficientes para a defesa, mas não para acabar com o inimigo”. Von Leeb, então, informou Hitler que diante da impossibilidade de tomar Leningrado, passaria a sitiá-la, com o objetivo de exterminar seus 3 milhões de habitantes pelas bombardeios e pela fome.

A resistência heróica de Leningrado reteve um grande número de divisões alemãs, indispensáveis para a tomada de Moscou. O cerco causou mais de um milhão de mortos – 800 mil dos quais de fome – e só foi rompido em 27 de janeiro de 1944, quase 900 dias depois, quando a ofensiva geral do Exército Vermelho aniquilou as tropas alemãs que sitiavam Leningrado.

O AVANÇO ALEMÃO NO SUL E A TOMADA DE KIEV

No sul, os exércitos alemães – com o apoio dos romenos, húngaros e checos – avançaram em direção a Kiev. Em 11 de julho, os alemães atacaram os arredores da capital ucraniana. Frente à ameaça de cerco, uma parte do comando soviético propôs, em 11 de setembro, um recuo geral e o abandono de Kiev; outra parte se opôs ao abandono de Kiev e convenceu Stalin a manter a resistência. Só em 17 de setembro, quando a situação se tornou insustentável, essa decisão foi adotada, mas tarde demais para evitar que, além da queda de Kiev, centenas de milhares de soldados soviéticos fossem feitos prisioneiros. Com isso, foi aberto o caminho para os alemães ocuparem a Bacia do Dom.

Mais ao sul, os alemães avançaram na Criméia, chegando quase ao mar de Azov. Em agosto, os nazi-fascistas atacaram Odessa, que resistiu por 73 dias, causando mais de 100 mil baixas aos exércitos nazi-fascistas. Quando a resistência se tornou impossível, foram evacuados por barco 80 mil soldados, 350 mil habitantes e 200 mil toneladas de material.

A “OPERAÇÃO TUFÃO” E O SEU FRACASSO DIANTE DE MOSCOU

Em 2 de outubro de 1941, as tropas alemãs iniciaram a Operação Tufão – como o objetivo de destruir até o início do inverno, o resto das tropas soviéticas, tomar Moscou e derrotar definitivamente a URSS. Para isso, foram mobilizadas 75 divisões – quase 2 milhões de homens, mais de 500 tanques e 1.000 aeronaves. O avanço inicial foi rápido e no dia 6 a cidade de Orel – 240 km adiante – foi conquistada. Em Viazma e Briansk, oito exércitos soviéticos que defendiam Moscou foram cercados e sofreram grandes perdas. Ainda que parte deles tenha escapado ao cerco, o caminho para Moscou estava aberto para os alemães.

Porém, a resistência obstinada dos soviéticos cercados em Viazma e Briansk retardou irremediavelmente a investida contra Moscou. O clima começou a mudar e caíram as primeiras chuvas e nevascas do outono russo. As estradas tornaram-se intransitáveis e o abastecimento dos agressores chegou ao seu ponto mais baixo. Os soviéticos ganharam um tempo precioso para organizar a defesa de Moscou e trazer tropas frescas do Extremo Oriente e da Ásia Central.

Diante do perigo, o governo soviético e as legações estrangeiras foram transferidos para Kuibyshev – há 2,5 mil km de distância – e 500 fábricas foram transportadas para o Volga e os Urais, mas Stalin e o Alto Comando permaneceram no Kremlin. Foram construídos 8 mil km de trincheiras e valas antitanque e Moscou preparou-se para uma defesa “casa a casa”.

Só em meados de outubro – após o aniquilamento de centenas de milhares de soviéticos em Vyazma e Briansk –, os alemães retomaram o ataque a Moscou, mas enfrentaram uma resistência titânica, que lhes causou enormes perdas. Em Kalinin, Tula, Mojaisk e Kursk eles foram detidos. Na retaguarda, unidades que haviam escapado do cerco, junto com forças guerrilheiras, atacavam dia e noite as tropas alemãs e os comboios de carga, colapsando o seu abastecimento. Em fins de outubro, os alemães tiveram que  passar à defensiva.

Em 7 de novembro – aniversário da Revolução Socialista de 1917 –, apesar da guerra, os soviéticos promoveram o tradicional desfile da Praça Vermelha, demonstrando a sua capacidade de resistência e a sua confiança na vitória contra as hordas nazi-fascistas.

Em meados de novembro, os alemães concentraram 51 divisões – 13 delas blindadas e 7 motorizadas - e retomaram a ofensiva, conseguindo chegar a apenas 25 km de Moscou, mas suas forças estavam esgotadas. Em 3 de dezembro, Von Kluge Lamentou: “as tropas se encontram em uma situação extremamente difícil. (...) as perdas alemãs em homens são simplesmente colossais.

Três dias depois, os soviéticos iniciaram sua contra-ofensivo, romperam o cerco a Moscou e obrigaram os alemães recuar de 150 a 350 km, retomando Kalinin e Tula. Segundo o Marechal Júkov, “na batalha de Moscou os nazistas perderam ao todo 500.000 homens, 1.300 carros de combate, 2.500 canhões, mais de 15.000 veículos e muitos outros equipamentos.” E o general alemão Westphal confessou amargurado: o “exército alemão, antes considerado invencível, encontra-se à beira da destruição.

Enfurecido, Hitler destituiu o comandante geral do Exército, Von Brauchitsch, o comandante dos exércitos do Centro, Von Bock, 3 dos 6 chefes de exército – Guderian, Hoepner e Strauss – e 4 dos 22 comandantes. Além disso, teve de trazer tropas dos países ocupados na Europa, buscando recuperar a capacidade de combate de suas tropas.

A CATÁSTROFE ALEMÃ EM STALINGRADO

Fracassadas suas ofensivas em Leningrado e Moscou, Hitler decidiu atacar ao sul, para ocupar a Criméia e o Cáucaso, rico em petróleo, cereais e minérios. Em uma segunda fase, buscaria tomar Stalingrado e o Volga, para daí atacar Moscou, pelo sul. Segundo Júkov, em maio de 1942, os alemães tinham na frente Oriental “um exército de seis milhões de homens (...), 3.229 carros de combate e armamentos de assalto, 57.000 canhões e morteiros e 3.395 aviões de combate.” O ataque alemão começou em 7 de maio.

Em uma semana toda a península foi conquistada, com exceção de Sebastopol, que resistiu até julho de 1942. Parte das tropas avançou para o Cáucaso, chegando a 60 km dos campos petrolíferos de Grosny. Outra parte tomou Kharkov e Rostov e interrompeu o abastecimento de petróleo e cereais. A oeste de Stalingrado, todas as comunicações caíram em mãos alemãs. Ao inexistir uma 2ª frente na Europa – os alemães puderam concentraram 70% de suas tropas – 3 milhões de soldados –– contra a URSS, metade deles na frente sul.

Em 17 de julho de 1942, Von Paulus lançou contra Stalingrado o 6º exército de blindados – com 250.000 homens, 1.200 aviões e 750 tanques. –, o 4º exército de blindados e alguns exércitos italianos e romenos. Em 8 de agosto, os agressores romperam as linhas de defesa no Dom. Em 14 de setembro chegaram aos subúrbios de Stalingrado. A partir daí, a luta prosseguiu “casa a casa”. Os soviéticos – reduzidos a 40 mil combatentes, encurralados em uma área de 25 km de extensão por 5 km de profundidade – resistiram meses a fio, exaurindo as tropas alemãs.

Em 19 de novembro – surpreendendo totalmente os alemães – os soviéticos iniciaram uma contra-ofensivo ao norte e ao sul de Stalingrado, com 1 milhão de homens, 13 mil canhões, 894 tanques e 1.150 aviões. O 3º Exército romeno foi destroçado e o 6ºe 4º exércitos nazistas cercados e divididos em 2 bolsões. Os esforços alemães para romper o cerco a partir do oeste fracassaram. Precariamente abastecidos pelo ar, pouco a pouco os alemães foram sendo dizimados e estrangulados. Em 31 de janeiro de 1943, o marechal Von Paulus, 24 generais, 2.500 oficiais e 91.000 soldados restantes se renderam. Em 2 de fevereiro, capitularam as últimas tropas alemães cercadas. As perdas nazistas nas regiões do Don, Volga e Stalingrado somaram 1,5 milhão de homens, 3.500 carros de combate e armas de assalto, 12 mil peças de artilharia, 3 mil aviões e outros equipamentos. Segundo o general alemão Westphal “a derrota de Stalingrado horrorizou o povo alemão, bem como o seu exército. Nunca antes, em toda história da Alemanha houve um caso tão terrível de mortandade de força tão numerosa.

O esmagamento de alemães, romenos e italianos em Stalingrado marcou uma viragem na guerra. A partir daí, a Alemanha perdeu a iniciativa estratégica e logo teve de abandonar o Cáucaso, para evitar o cerco. O Exército Vermelho iniciou uma ofensiva que em três semanas libertou Rostov e avançou 260 km na frente do Dom. Kharkov também foi retomada, mas um contra-ataque alemão a recuperou. Ao norte, houve o desbloqueio parcial de Leningrado. Na região central, foram recuperadas Rzhev, Viazma, Demiansk e Kursk.

FRACASSO DO ATAQUE ALEMÃO EM KURSK E A CONTRAOFENSIVA GERAL SOVIÉTICA

Para vingar-se da derrota em Stalingrado, os alemães prepararam um ataque ao saliente de Kursk, na frente Central, utilizando 900 mil homens, 2.400 carros de combate (70% do total existente na frente oriental), 10.000 canhões e morteiros. Os soviéticos – prevenidos por seus serviços de informações – concentraram 1,3 milhões de homens e 3.500 carros de combate e canhões autopropulsados, 20 mil peças de artilharia e 2.900 aviões. O ataque alemão teve início em 5 de julho de 1943, obtendo alguns êxitos iniciais. Em 12 de julho, uma poderosa contra-ofensiva soviética fez os alemães recuarem além de onde haviam partido, com enormes perdas. Em 22 de julho, Hitler teve que ordenar a suspensão do ataque. Em sua contra-ofensivo, o Exército Vermelho expandiu o bolsão de Kursk ao norte e ao sul e libertou Orel, Bielgorod e Kharkov (23.08.43). As perdas alemãs na batalha de Kursk foram de 500 mil homens, 1.500 carros combate, 3 mil canhões de 3.700 aeronaves

O Exército Vermelho iniciou, então, sua ofensiva geral, em uma frente de mais de 1.000 km. Foram libertadas Briansk (17.09), Smolensk (24.09), Kiev (06.11) e Gomel (27.11). Os alemães foram empurrados 250 km para oeste e jogados ao outro lado do Rio Dnieper. Em retirada, os alemães sofreram – entre julho a outubro de 1943 – 365 mil baixas e grandes perdas materiais. Recuaram destruindo tudo o que encontraram no caminho e assassinando dezenas de milhares de idosos, mulheres e crianças.

EXPULSÃO DOS NAZIFASCISTAS DO TERRITÓRIO SOVIÉTICO

Mesmo ferida de morte, a Alemanha ainda contava na frente oriental com 5 milhões de homens, 5.400 carros de combate, 55 mil canhões e 3 mil aviões, incluídas as tropas de seus aliados.

Mas nada conseguiu deter a ofensiva soviética. Ao norte, em janeiro de 1944, o Exército Vermelho rompeu o cerco de Leningrado, libertou Novgorod, a Estônia e parte da Letônia. Em junho, atacou os finlandeses na Carélia, obrigando-os a assinarem o Armistício de Moscou (19.09). Em outubro, os alemães abandonaram o Ártico soviético e o nordeste da Noruega.

No Sul, em fevereiro e março, os alemães foram jogados além do Dniester e expulsos da Ucrânia oriental e da Galitzia. Toda a península da Criméia – incluindo Odessa e Sebastopol – foi higienizada de tropas nazistas. Em abril, foi libertada a Moldávia e as tropas soviéticas entraram na Romênia onde aniquilaram, nos arredores de Iasi e Kishiniov, 25 divisões germano-romenas, avançando para o centro do país. Em 23 de agosto, um levante popular-militar – com forte participação do Partido Comunista da Romênia – depôs o ditador Antonescu e formou um novo governo, que propôs aos aliados um armistício e declarou guerra à Alemanha.

Na região central, o Exército Vermelho iniciou, em junho, a Operação Bagration, que aniquilou o Grupo de Exércitos Centro – o mais poderoso destacamento de tropas da Alemanha nazista, com 1,2 milhões de soldados, 900 tanques, 10 mil canhões e 1.400 aviões –, libertou a Bielorrússia, parte da Lituânia e da Letônia, a Ucrânia ocidental e grande parte da Polônia oriental, incluindo Lublin, Helm, Brest-Litovsk e Lvov.

Em Lublin, foi formado o Comitê Polaco de Libertação Nacional (CPLN) e constituídas as Forças Armadas Polonesas (FAP) – dirigidas pelo Partido Operário Polaco – que em fins de 1944, já contavam com 286 mil homens, jogando importante papel na vitória contra os nazistas. Em julho de 1944, as tropas soviéticas cruzaram o Vístula e chegaram às portas de Varsóvia, após um avanço de 724 km. A extensão das linhas de suprimentos e a perda de 30% de seus efetivos, além da crescente resistência alemã, obrigaram os soviéticos a uma parada. No decorrer dessa ofensiva, haviam sido mortos 500 mil alemães e o general alemão Buttlar afirmou que “a derrota do Grupo de Exércitos ‘Centro’ pôs fim à resistência alemã no leste.

O LEVANTE DE VARSÓVIA E O TARDIO DESEMBARQUE ALIADO NO SUL DA FRANÇA

É nesse contexto que, em 1º de agosto de 1944, sem qualquer articulação com o Exército Vermelho, o General Komorowski – chefe da resistência polaca pró-ocidental – iniciou um levante em Varsóvia, com o único objetivo de antecipar-se à chegada das tropas soviéticas, alijar o CPLN formado em Lublin e instalar um poder anticomunista.

Apesar de estar com suas forças exauridas, o Exército Vermelho buscou ajudar os insurretos retomando a ofensiva durante agosto e a primeira metade de setembro, sofrendo pesadas baixas. Foi feito um ataque contra Praga, subúrbio de Varsóvia, e o 1º Exército Polaco cruzou o Vístula, mas não conseguiu vencer a forte resistência alemã. Aviões soviéticos realizaram 2.243 incursões e lançaram para os sublevados 156 morteiros, 505 fuzis antitanque, 2.667 subfuzis e fuzis, 41.780 granadas, 3 milhões de cartuchos, 113 toneladas de víveres e 500 kg de medicamentos.

Os alemães, concentraram poderosas forças em Varsóvia e reprimiram cruelmente o levante, matando 38 mil combatentes – entre eles tropas da FAP que estavam em Varsóvia – e mais de 250 mil civis. Desmentindo aqueles que difundem que o Exército Vermelho só não tomou Varsóvia naquele momento porque não que, o general alemão Tippelskirch reconheceu que “a insurreição estalou em 1º de março, quando a força do golpe russo já havia se esgotado.” Os soviéticos só conseguirão tomar Varsóvia em janeiro de 1945 e Lódz só foi libertada em fins de janeiro.

Diante da ofensiva avassaladora dos exércitos soviéticos na frente oriental, os EUA e a Grã-Bretanha – após três anos de tergiversações – finalmente realizaram um desembarque no sul da França, em 6 de junho de 1944, abrindo a “2ª frente”, prometida para 1942... Ficava claro que depois de deixarem a URSS enfrentar sozinha, durante três anos, a máquina de guerra nazi-fascista, agora os “aliados” atuavam com o claro objetivo de impedir que a URSS vencesse a guerra sozinha. O número irrelevante de soldados que desembarcou no sul da França – 150 mil homens – mostra o ridículo das afirmações dos ideólogos do imperialismo (não podemos considerá-los “historiadores”) que afirmam que esse desembarque foi “o momento da virada” da Segunda Guerra Mundial.

O AVANÇO EM DIREÇAO A BERLIM E A CAPITULAÇÃO ALEMÃ

Em 5 de setembro de 1944, a União Soviética declarou guerra à Bulgária, onde já atuava o Exército Popular de Libertação, com quase 20 mil homens, sob a direção do Partido Operário Búlgaro. No dia 9, uma sublevação em Sofia derrubou o governo fascista e colocou no poder a “Frente Patriótica”, que havia formado 670 comitês em todo o país. Esse novo governo assinou uma trégua com os aliados e declarou guerra à Alemanha.

Em 28 de setembro de 1944, o 57º Exército soviético entrou na Yugoslávia e – em conjunto com o Exército Popular de Libertação da Yugoslávia, que contava com 400 mil homens – iniciou uma ofensiva contra Belgrado, que foi libertada em 20 de outubro. Na Albânia, o Exército de Libertação Nacional, dirigido pelo Partido Comunista da Albânia, libertou Tirana em 17 de novembro.

Em janeiro de 1945, os soviéticos iniciaram a ofensiva que expulsou os alemães dos últimos territórios poloneses ocupados. Em 31 de janeiro, as tropas soviéticas conquistaram uma cabeça de ponte no rio Oder, a 70 km de Berlim. Em 13 de fevereiro de 1945, após duros combates, os soviéticos tomaram Budapeste, na Hungria. Em fins de fevereiro, parte do Exército Vermelho avançou para o Báltico e varreu as tropas alemãs que ali ainda se encontravam. Outra parte dirigiu-se para Viena, libertando-a em 13 de abril.

Sentindo-se derrotados, os nazistas buscaram uma negociação de paz em separado com os EUA e a Inglaterra. Enquanto diminuíam a resistência a oeste, a fortaleciam a leste. Era evidente a intenção das tropas nazi-fascistas de se renderem aos aliados ocidentais e não aos soviéticos.

Cientes disso, os soviéticos deram início à sua ofensiva contra Berlim em 16 de abril. Oito dias depois, a capital alemã estava cercada e Hitler suicidou-se. O almirante Dönitz, ao assumir o governo, afirmou: “minha tarefa primeira é salvar os alemães da eliminação pelos bolcheviques (...) As ações militares continuam apenas em prol deste objetivo”. Propôs, então, a ingleses e norte-americanos um entendimento, para lutarem juntos contra a URSS. Nessa ocasião, Churchill orientou Montgomery a “recolher cuidadosamente as armas alemãs e armazená-las, para que seja mais fácil distribuí-las de novo entre os soldados alemães com que teremos de colaborar caso a ofensiva soviética continue”.

Após 16 dias de combate, as tropas soviéticas tomaram Berlim – defendida por um milhão de homens – e no dia 2 de maio a bandeira vermelha foi hasteada no Reichstag. Seis dias depois, os alemães firmaram em Berlim a capitulação incondicional da Alemanha.

Na Checoslováquia – onde os alemães ainda tinham de 50 divisões – eclodiu em Praga, no dia 5 de maio, uma insurreição popular. Em marcha batida, as tropas soviéticas avançaram para aniquilar os exércitos alemães que se preparavam para afogá-la em sangue. Assim, Praga foi libertada no dia 9 de maio.

Menos de 20 dias após a capitulação alemã, Stalin – em reunião com Molotov, Voroshilov e Jukov – constatou: “Enquanto nós desarmamos e enviamos ao acampamento todos os soldados e oficiais do exército alemão, os ingleses mantém as tropas alemãs em completa prontidão, estabelecendo com eles uma cooperação mútua. Até o momento, os comandos das tropas alemãs, liderados por seus ex-comandantes, têm total liberdade e, por determinação de Mongomery, reúnem e organizam os armamentos e equipamentos de suas tropas.

As armas ainda fumegavam nos campos de batalha e os Estados Unidos e a Inglaterra já tramavam – sem quaisquer escrúpulos – uma aliança com os nazi-fascistas, para a futura luta contra a URSS.

URSS – BALUARTE NA LUTA CONTRA O NAZI-FASCISMO

A vitória da URSS sobre a Alemanha, ao custo de 27 milhões de mortos e a devastação do país – contra apenas 405 mil estadunidenses e 375 mil britânicos mortos, em toda a guerra e em todas as frentes –, salvou a humanidade de um retrocesso histórico inimaginável. O que ganha ainda maior importância se considerarmos que a Alemanha estava a um passo de detonar a sua bomba atômica – cujos teste ocorriam no Estado da Turíngia – o que lhe teria garantido a vitória na guerra e a conseqüente escravização do conjunto da humanidade aos seus desígnios.

Na frente Oriental, os alemães enfrentaram pela primeira vez uma verdadeira resistência. Combatendo com uma tenacidade heróica, os soviéticos causaram enormes baixas aos nazi-fascistas. Suas tropas não se rendiam mesmo em situação de extrema inferioridade. Como observou um oficial dos corpos blindados alemãs: “Onde o inimigo aparece, ele luta obstinada e corajosamente até a morte. Desertores e aqueles em busca de rendição não foram relatados a partir de nenhuma posição.

Assim, à medida que avançavam, obtendo vitórias táticas, os alemães iam exaurindo as suas forças. Em setembro de 1941, já haviam sofrido 535 mil baixas, perdido 70% de seus tanques e 40% de seus aviões. E em novembro de 1942, suas perdas haviam atingido mais de 2,5 milhões de mortos, feridos e desaparecidos. Sua “guerra relâmpago” – vitoriosa em todo o ocidente capitalista – acabou derrotada em sua luta contra o socialismo.

Os atos de heroísmo coletivo em Brest-Livotski, Smolensk, Minsk, Leningrado, Moscou, Odessa, Stalingrado, Sebastopol, e tantos outros lugares, desmentiram aqueles que diziam que o poder soviético não tinha sustentação no povo e desmoronaria frente ao ataque nazista. Milhões de soviéticos foram mortos ou aprisionados, defendendo sua Pátria, mas também o socialismo. Os prisioneiros soviéticos eram mortos a tiros, pela fome ou pelo frio. Menos de 30% sobreviveram. Nas áreas ocupadas, foram destruídas milhares de cidades e aldeias e sua população exterminada ou enviada para o trabalho escravo na Alemanha.

Ao mesmo tempo que aplicaram uma política de terra arrasada, os soviéticos multiplicaram as guerrilhas na retaguarda alemã, desorganizando seu abastecimento, destruindo suas comunicações, aniquilando pequenas unidades, impedindo que os invasores explorassem os territórios tomados. Os guerrilheiros imobilizaram meio milhão de alemães na Bielorrússia e 460 mil na Ucrânia. Só em 1943, explodiram 11 mil trens, tiraram de circulação 6 mil locomotivas e 40 mil vagões, destruíram 900 pontes ferroviárias e 22 mil veículos. Para combater as guerrilhas, o exército nazista precisou empregar 25 divisões de seu exército de operações, além de unidades de polícia SS e SD e meio milhão de soldados de tropas auxiliares. Funcionavam mais de 400 emissoras nas áreas de guerrilha e estas controlavam vastas regiões nos territórios ocupados. Estima-se que existiam 220 mil guerrilheiros na Ucrânia, 370 mil na Bielorrússia e 260 mil nos territórios ocupados da Rússia. As mulheres participavam ativamente e, em alguns destacamentos, eram de 10 a 25% dos combatentes.

Apesar dos alemães terem ocupado vastos territórios – onde viviam 40% dos soviéticos, estavam 40% das ferrovias e dos rebanhos bovinos, 60 dos suínos, 84% do açúcar, 38% dos cereais, 60% da produção de aço e alumínio, 63% do carvão e 70% das fundições – a URSS não colapsou. Milhares de empresas – em especial as de grande porte e militares – foram evacuadas, entre junho e novembro de 1941. E mesmo com grande parte do seu território ocupado e enormes perdas na fase inicial da luta, a URSS logo passou a produzir mais armamentos que a Alemanha. Entre 1941 e 1945, a URSS fabricou 137.271 aeronaves, contra 99.339 da Alemanha; 99.488 tanques, contra 53.800 da Alemanha; 514.700 peças de artilharia, contra 87.000 dos alemães. Nenhum país capitalista seria capaz de tal proeza!

O Poder Soviético mostrou-se capaz de mobilizar milhões de homens e mulheres para enfrentar os nazi-fascistas. No início da invasão, o Exército Vermelho tinha 5,4 milhões de homens Em fins de agosto – apesar de enormes perdas – já contava com 6,9 milhões e, ao findar o ano, chegou a 8 milhões de combatente. Espantado, Goebels afirmou: “Parece um milagre. Das amplas estepes russas surgem continuamente novas massas de pessoas e técnicos – como se um grande mágico os esculpisse da argila dos Urais bolcheviques – e equipamentos em qualquer quantidade.” Esse “grande mágico” era o sistema socialista soviético!

Nessa luta titânica, as mulheres tiveram um papel decisivo, sustentando a maior parte da produção e lutando no front como atiradoras de elite, aviadoras, tanquistas, guerrilheiras, médicas e enfermeiras. Os trabalhadores faziam jornadas de 12 a 18 horas para produzir armas, munições, roupas e alimentos para a luta.

Certamente, não foi o “General Inverno”, como pensam alguns, que derrotou a máquina de guerra nazista. Foi a luta titânica do povo soviético! Só um país socialista, com uma economia avançada, tecnologia de ponta, grande coesão interna e líderes prestigiados, poderia vencer – e venceu – um inimigo tão poderoso e cruel.

     Sem dúvida, os povos de todo o mundo devem à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas a derrota do nazi-fascismo e a libertação da humanidade da ditadura hitlerista!

* Raul K. M. Carrion é Historiador e Deputado Estadual e Líder do PCdoB na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. É também membro da Comissão Especial do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil para redigir a História do PCdoB e coordenador do Centro de Estudos Marxistas e do Centro de Debates Econômicos, Sociais e Políticos do Rio Grande do Sul.

CARRION, Raul K. M. A Grande Guerra Patriótica Soviética. In: BERTOLINO, Osvaldo e MONTEIRO, Adalberto (Org.). 100 Anos da Revolução Russa: legados e lições. São Paulo: Anita Garibaldi; Fundação Maurício Grabois, pp. 233-248.